Luto da paixão: a ameaça fantasma
Texto: Gustavo Cândido
Casais em crise, fiquem atentos! Nem sempre a decepção momentânea com o relacionamento é resultado da falta de sentimento e respeito entre os pares. Existe uma fase previsível na relação afetiva entre duas pessoas pela qual todos (ou a grande maioria) dos casais passam. Durante esse período, impera a sensação de que a união entre os dois não passou de um erro, que muitas vezes só pode ser resolvido com a separação. Geralmente comum em namoros um pouco mais longos e em casamentos, essa fase é conhecida como "luto da paixão" e se não for bem trabalhada, pode realmente acabar com qualquer união.
"Começamos a brigar 'do nada', depois de uns três anos de namoro, até que terminamos", conta a estudante e recepcionista Aline Moreira da Silva, de 25 anos. No início da relação, que começou quando ela tinha 19 anos, a recepcionista diz que acreditava ter encontrado o homem perfeito para viver ao seu lado para sempre, "ele me entendia, a gente se dava muito bem e fazia planos juntos", revela. De repente, de uma "hora para outra" a coisa mudou.
"Ele mudou muito, parece que deixou de gostar de mim e começamos a nos desentender. Até com a minha família ele brigou. O mais gozado é que aparentemente não houve um motivo para ele começar a agir diferente", relembra a recepcionista.
Aline da Silva e o seu ex-namorado passaram, sem saber, pelo luto da paixão, uma crise previsível entre os casais.
"Geralmente ela acontece por volta do quarto ano de relacionamento entre os dois, às vezes um pouco antes, às vezes um pouco depois", explica a psicóloga Maria Lúcia Nejm de Carvalho, "esse é o tempo que demora para as pessoas saírem daquela fase da paixão desenfreada, aquela coisa impulsiva, e passarem a ver o outro como ele realmente
é".
Ameaça Fantasma
Segundo a psicóloga, por um período de até, aproximadamente, uns três anos, geralmente os parceiros, apaixonados, vivem quase que dentro de um mundo de sonho, de fantasia, onde idealizam um ao outro como se tudo fosse perfeito. O luto da paixão marca o fim dessa idealização,
é quando os parceiros começam a ver defeitos, manias e jeitos que antes não conseguiam ver porque estavam "cegos" de paixão.
A "queda" nessa nova realidade, mais dura e menos bela
é tão chocante para alguns casais que eles chegam a pensar em separação e muitos concretizam isso de fato.
O que acontece, na maioria dos casos é que o casal não sabe que pode estar passando por uma fase comum e previsível do relacionamento e por isso acreditam que estão vivenciando o seu fim quando ela aparece "do nada", como um fantasma.
"Se eu soubesse disso talvez fosse diferente", confirma Aline da Silva. "É por isso que é importante saber que essa situação vai acontecer", diz Maria Lúcia Nejm de Carvalho
Família: fator agravante
A origem familiar é um fator fundamental que pode interferir no destino do casal que passa pelo luto da paixão durante o casamento. Isso porque, os vínculos afetivos e até o histórico de relacionamentos na família influencia a vida dos parceiros que podem, baseando-se nesses fatores acreditarem que estão vivendo a mesma situação. Por exemplo: se a esposa vem de uma família onde as separações são algo muito comum, é bem provável que, quando passe por uma crise no seu relacionamento, acredite que chegou "a sua vez de se separar", o que na realidade não tem nenhum fundamento.
Outro fator que pode agravar uma crise durante o luto da paixão
é a própria razão das duas pessoas estarem juntas. Se a pessoa se casou apenas para se livrar da dependência dos pais ou para manter de alguma forma uma intimidade sexual e emocional que de outra maneira não teria, tem mais chances de ter sua relação destruida.
Muitas pessoas se casam somente porque a família espera que isso aconteça, da mesma maneira que esperam que elas estudem e tenham uma boa profissão e ganhem dinheiro. "São as chamadas lealdades invisíveis, que são como expectativas e regras que a família acaba impondo aos filhos como se fossem uma espécie de dívida a ser paga", explica Maria Lúcia Nejm de Carvalho. De acordo com a psicóloga muitas pessoas, sem perceber, seguem essas regras se mantendo
"leais à família", ou seja, pagando a dívida. Isso inclui o casamento sem preparo, quando as partes envolvidas não estão maduras o suficiente para estarem juntas e suportarem a relação, que quando chega num momento de crise, desmorona. Mas a psicóloga não acredita que o casamento esteja banalizado hoje em dia, pelo contrário. "As pessoas estão até querendo se casar mais tarde, ficando dentro de casa mais tempo para depois se lançar no casamento", diz.
Chance de amadurecimento
Quando identificado e bem trabalhado, o luto da paixão pode são significar o fim do relacionamento, e sim, ser um impulso para uma nova fase na relação que ganha uma chance de crescer ainda mais. "As pessoas podem acabar identificando que o relacionamento não é uma boa opção por diversas razões, mas se souberem que estão passando por uma fase que pode ser superada, podem amadurecer muito", afirma a psicóloga. Segundo Maria Lúcia Nejm de Carvalho o luto da paixão pode ser até bom para que o relacionamento cresça, dessa vez baseado em fatos e características reais e não em idealizações. "Se nós pudéssemos fazer um trabalho preventivo, trazendo essa questão para os casais, poderíamos estar mostrando que passar por essa crise pode ser uma coisa boa", explica.
Foi o que aconteceu com o comerciante Marcos Silveira Ramos, 32 anos e sua esposa Maria José Ramos, 30 anos. Casados há cinco anos, eles contam que passaram por uma grande crise há um ano e meio atrás, "quase nos separamos de vez, chegamos a ficar sem se ver por duas semanas", conta a esposa. A solução veio com o diálogo, "não sabíamos do 'luto da paixão', mas pudemos comprovar na prática que aquilo que estávamos vivendo era uma fase, que passou", afirma Marcos. "Vivíamos muito estressados e deixamos que isso interferisse no nosso casamento, de repente era como se só tivéssemos problemas e defeitos. Hoje sabemos que o amor é mais forte que isso tudo", diz Maria Ramos.
A primeira chama
A paixão é um tema antigo e universal, que o homem sempre tentou explicar, falar, contar, cantar, estudar. Esta súbita e intensa atração que nos move para o 'outro', é a busca do prazer, da complementação, a atração física, a busca do amante idealizado e já proporcionou muito sofrimento, prazer, literatura e arte.
Segundo a psicóloga Cláudia Manaia, a grande diferença entre o amor e a paixão, é que o primeiro cresce com a proximidade do ser amado, ao passo que com a paixão nem sempre isso acontece. "Normalmente, a paixão é um fogo intenso, a primeira chama, que logo se apaga. Quando encontramos alguém que nos dê uma 'dica' de ser a pessoa dos nossos sonhos (através dos sinais corporais), a possibilidade do sonho se tornar realidade é tão desejada que passamos a sentir o mesmo sentimento que sentimos quando sonhamos com essa possibilidade e passamos a crer ser essa a pessoa responsável por esse sentimento", explica.
Para se apaixonar é preciso uma disponibilidade interna prévia, e, mesmo sem perceber, a pessoa faz uma pré-seleção, ou seja, há uma escolha, baseada em padrões culturais, sociais, físicos e psicológicos.
Apaixonar-se é muito saudável também do ponto de vista químico. Aumenta o prazer de viver, e a imunidade do organismo, segundo alguns pesquisadores. Cláudia Manaia lembra que o pesquisador Michael Liebowitz, do Instituto de Psiquiatria de Nova York, em 1984 divulgou a teoria do "banho químico", onde a paixão seria resultado de uma cascata de elementos da família das anfetaminas, que, a partir de uma ordem do cérebro, gera reações idênticas nos humanos em estado amoroso. Então quando o indivíduo se enamora, sofre um "banho químico" que lhe proporciona euforia, felicidade, disposição, etc.