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Gravidez

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 8 min

Encontrar momento para gravidez é desafio

Texto: Adriana Rota

Pressões psicológicas, sociais e orgânicas são os obstáculos que a mulher moderna tem de enfrentar para conseguir sua realização particular e profissional

Enquanto levantamentos recentes demonstram que, em Bauru, mais de 30% das mulheres que dão à luz têm idades entre 10 e 20 anos, existe uma grande parcela do público feminino que adia a gestação por anos seguidos, engravidando tardiamente ou desistindo da idéia. A atitude nem sempre é tranqüila, resultado de um desejo: costuma obedecer às exigências da vida moderna.

Historicamente, o papel da mulher ficou resumido aos cuidados

à casa, aos filhos e ao marido. Lenta e dolorosamente, ela vem conquistando direitos e espaço, embora ainda esteja fadada, por exemplo, a receber salários inferiores mesmo com o desempenho das mesmas funções dos homens.

Como não bastasse, ainda tem de se dividir entre as diversas tarefas do dia, que incluem suas antigas "incumbências": lavar, passar, cozinhar, cuidar da família. Lutar por uma formação e por uma carreira torna-se uma fardo cada vez mais pesado, que se soma às cobranças da sociedade pelo desempenho do "papel" que lhe caberia. Muitas vezes, ela própria internaliza essas normas impostas e culpa-se quando não age de acordo.

Para a psicóloga a psicoterapeuta Regina Célia Paganini Lourenço Furigo, a mentalidade de que mulher necessariamente esteja ligada à maternidade tem mudado, ainda que lentamente. O processo teria ganho vulto no pós-guerra, quando houve uma solicitação maior dessa mão-de-obra e, conseqüentemente, o anseio por uma perspectiva profissional.

"Até então, ela se identificava somente como filha e, mais tarde, esposa de alguém".

Nesse contexto, segundo Regina, os filhos que a mulher viesse a ter honrariam e exaltariam o nome da família. "Hoje, não é opção única ser a 'senhora fulano de tal'". Em decorrência das modificações nos usos, costumes, mentalidade e a exigência do mercado de trabalho, a maternidade deixa de ser (pelo menos racionalmente) prioritária. "Os projetos, a profissão, tudo em que ela se engaja são espécies de filhos e consomem tanto quanto um verdadeiro", avaliou.

Além do caráter psicológico, movido pelas exigências do cumprimento de determinado papel, Regina enxerga, também, um fator biológico e instintivo. "É a coisa de dar continuidade a si mesmo, a possibilidade de obter a eternidade através dos filhos". À mulher instiga a experiência da criação de um ser, o "gerar" uma pessoa. "É quando ela se assemelha a uma divindade", acredita.

Para combater as preocupações com o assunto, Regina só enxerga um caminho: deixar de fantasiar com perfeição.

"Não vai existir um momento perfeito para ter um filho porque, simplesmente, não existe perfeição. Ela deve lidar colocando um dado da realidade, avaliando tudo e fazendo uma programação de vida, não rígida.

É preciso perceber qual é, realmente, seu desejo mais profundo e, a partir daí, criar oportunidades ou deixar que a vida siga seu curso natural".

A especialista alerta que a "candidata ao cargo de mãe" deve prestar atenção nos estímulos externos.

"A gravidez está em moda, expor a barriga está em moda. Fica fechado na questão da gravidez, como se ser mãe fosse só os nove meses. Ser mãe é ato heróico. No mínimo, ela deverá ter de dividir seu espaço (inclusive psíquico) e, enquanto o filho for dependente, ele será sempre prioridade".

A psicóloga disse ver com simpatia a conquista da mulher, ainda que dolorosa, de adiar a maternidade. "Elas tinham muito medo do esteriótipo. Hoje, vemos muitas delas bem-sucedidas. Estamos tirando dos ombros femininos uma tirania de muito tempo, essa coisa de que tudo o que acontecer na vida tem de ser na juventude, porque o envelhecimento seria uma coisa degradante".

Tive o filho. E agora?

Depois de enfrentar todas as barreiras e optar pela gravidez, a mulher vai encontrar outro desafio: manter-se na profissão sem "morrerem" de culpa por deixar o filho numa escolinha ou com a babá. "A criança se adapta, o que não quer dizer que ela não sinta a ausência. O que precisa é haver uma presença com qualidade.

É terrível a mulher que abre-mão de tudo e transforma o filho num eterno devedor", alertou Regina. Na seqüência, mais uma preocupação: "meu filho precisa de um irmãozinho". E, assim, segue a vida.

Gravidez tardia exige mais cuidados

A idade é um dos fatores determinantes para a capacidade de ter filhos, já que os óvulos envelhecem à medida que a própria mulher envelhece. Isso, porque, ela nasce com estas células sexuais, diferentemente do homem, que produz espermatozóides durante toda a vida, sofrendo apenas redução na quantidade.

O período de maior fertilidade feminina vai dos 15 aos 24 anos. Dos 25 aos 35, pode-se registrar algumas alterações na ovulação. Dos 36 aos 39 anos, a mulher já está saindo do período reprodutivo e, acima disso, entra no chamado climatério, quando as chances de engravidar são bem menores.

As gravidezes tardias carregam consigo, também, mais riscos de abortamentos (a alteração na quantidade de colágeno diminui a elasticidade do útero), malformações

(por alterações genéticas) ou complicações gerais na saúde da mãe e do filho.

Em idades consideradas avançadas para a gravidez, a mulher tem mais propensão a sofrer alterações cardiovasculares, como trombose dos membros inferiores; hipertensão, que pode resultar em eclâmpsia ou pré-eclâmpsia

(episódios convulsivos que podem levar à morte); dores na coluna e nos nervos ciáticos, com conseqüente vício postural; doenças específicas, como diabetes (tudo indica que a alteração na produção de insulina seria causada pela sobrecarga de trabalho do pâncreas); excessiva retenção de líquidos, passível de provocar mais inchaços e aumento de peso (o rim não conseguiria filtrar todo o volume de sangue em circulação).

A ginecologista e obstetra Carla R. Lambertini Bonjorno ressalta que, no caso de casais com a mesma faixa etária, a taxa de fertilidade do companheiro também diminui com o passar dos anos, dificultando ainda mais a concepção. Lembra, ainda, que a "pressa" está relacionada com a primeira gestação. "Na segunda ou terceira, o organismo já sabe como agir diante do excesso de hormônio e do crescimento do útero, por exemplo", explicou.

Convém ressaltar que alguns especialistas admitem a existência de duas idades: a cronológica e a biológica, relacionadas ao estilo de vida da "candidata" à maternidade. Assim, pode-se ter 35 anos de idade mas um organismo de 30.

Outro alento é que, embora haja necessidade maior de atenção ou riscos propriamente ditos em gravidezes tardias, os avanços científicos aplicados a exames clínicos e laboratoriais, por exemplo, são crescentes.

Um esclarecimento considerado primordial pela médica é que, embora a legislação brasileira permita saber antecipadamente se o feto tem alterações de saúde, se elas forem constatadas, não há a possibilidade de interrupção da gestação. Segundo informou, muitas mulheres em idade avançada vão para o consultório com a idéia de que poderão fazer um abortamento caso constatem problemas. Ledo engano.

Aos 30 anos de idade, Carla ainda não é mãe, mas planeja a maternidade para um prazo de dois a três anos.

"Estou tranqüila a esse respeito. Foi opção estudar e trabalhar antes", disse. Diferentemente do que se acreditava antigamente (que gravidez era doença), ela esclarece que se trata apenas de um estado orgânico, passível de provocar algumas alterações como variação de humor e mais sono. Portanto, pode-se levar uma vida relativamente normal, com pequenas limitações, sem que o "estado interessante" modifique decisivamente a rotina anterior. Talvez o próprio bebê o faça, mas essa é uma outra história.

Educação

Estudiosos garantem que uma grande vantagem na gravidez tardia

é que, em geral, ela é planejada e desejada por um longo período, o que torna o relacionamento com o filho mais maduro e produtivo do que no caso de mães jovens demais. Outro ponto favorável é que essa mulher costuma estar estabilizada profissional, financeira e emocionalmente.

Mulher busca estabilidade para ser mãe

A recuperadora de crédito Leila Liz, 27 anos, sempre teve o sonho de ser mãe. Hoje, afirma que, "se acontecer, maravilha; se não, penso nisso depois". Mas a decisão não foi tão tranqüila quanto possa parecer. Aliás, nem foi exatamente uma decisão: o fim de um relacionamento de seis anos no qual planos e sonhos eram compartilhados provocou uma situação de crise.

Felizmente, segundo ela, essa foi uma possibilidade de repensar sua vida, colocar outros objetivos em pauta. Ao invés de berço, fraldas e roupinhas de bebê, pelo menos por enquanto, a preocupação é com os livros de uma eventual pós-graduação e com o passaporte para uma possível viagem.

"Foi um processo sofrido. Você põe na cabeça

'tô ficando velha' (27 é quase 30!). Mas também comecei a pensar o que seria colocar uma criança neste mundo", disse. Apesar de não saber avaliar se esse acabou tornando-se um processo de fuga, Leila afirma estar muito bem e ter conseguido assimilar a possibilidade de não gerar um filho.

Ciomara de Oliveira, 28 anos, também vinculou a gravidez a um casamento por muito tempo. Hoje, não descartaria a possibilidade de uma produção independente ou de uma adoção, assim que conseguir alcançar a estabilidade emocional e financeira que julga necessárias para o exercício da maternidade.

"Não há como ter segurança de que determinada pessoa vai ficar ao seu lado para sempre", ponderou. Formada em Direito, Ciomara optou por não advogar. Está cursando Jornalismo e fazendo "bico" como recenseadora, enquanto tenta viabilizar seus planos e enfrentar os desagradáveis comentários do tipo "ficou para tia" (embora eles já não surtam mais tanto efeito).

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