Donos de padarias reclamam de concorrência desleal
Texto: Patrícia Zamboni
Proprietários de padarias procuraram o JC para reclamar da concorrência desleal dos supermercados com os preços do pão francês
Três proprietários de padarias/panificadoras de Bauru procuraram o Jornal da Cidade para se manifestar em relação
à disputa e diferenças de preços do pão francês entre supermercados e padarias. Eles citam a existência de uma "concorrência desleal" que estaria prejudicando o setor. A polêmica surgiu após matéria publicada no JC no último dia 6, que mostrou as oscilações de preços.
Sobre a média de R$ 0,12 por unidade, aplicada pelas padarias, contra a variação de R$ 0,04 a R$ 0,09 encontrada nos supermercados, Paulo Hermes Pereira (proprietário de uma padaria localizada na rua 1º de Agosto), Marcelo Mastroianni
(padaria no Jardim Marambá) e Vicente Petitti Neto (padaria no Jardim América) dizem que "os fatos não são simples assim".
"Não somos os vilões dessa história e nem, muito menos, estamos explorando o consumidor. Se as coisas forem analisadas somente com a constatação dos preços, não se tem uma noção da realidade. As padarias têm mão-de-obra qualificada e paga diversos impostos que os supermercados não pagam. Os supermercados, principalmente as grandes redes, não dependem do lucro com os pãezinhos para sobreviver. Para as padarias, o pão é o carro-chefe e, mesmo o preço de R$ 0,12, é inviável", afirmaram.
Para eles, os supermercados estão praticando "dumping", ou seja, vendendo um produto com preços abaixo do custo.
"Para vender o pãozinho a R$ 0,04, só praticando dumping. Só que isso é proibido por lei. Não acho que os empresários do setor supermercadista façam isso por mal. Eles usam as suas estratégias. O problema
é que essa concorrência é desleal e prejudica as padarias. Nunca as padarias vão conseguir vender pão francês a R$ 0,04. Temos custos muito altos, incluindo a carga tributária. Nossa estrutura e forma de trabalho são completamente diferentes das utilizadas por supermercados", disse Mastroianni.
Pereira ressalta a questão da carga tributária como sendo uma das principais diferenças entre padarias e supermercados.
"A carga tributária é o que mais onera os nossos gastos. Para se ter uma idéia, em cima da minha produção, o governo só me desconta a matéria-prima que eu utilizei para fabricar o pão. No que sobrar, aplica 7% de ICMS. É totalmente diferente do sistema aplicado nos supermercados. Nós não temos condições de entrar numa competição dessas", disse Pereira.
Em relação à declaração que o presidente do Sindicato da Panificação de Bauru, Evaristo Rodriguez Gonzalez, deu ao JC na ocasião da matéria publicada no dia 6, Pereira, Mastroianni e Petitti Neto disseram que a colocação feita por ele não se aplica à realidade atual. Gonzalez disse que a padaria que oferece um atendimento diferenciado aos clientes não perdem para os supermercados.
"O senhor Evaristo não é mais proprietário de padaria. Então, acho que isso que ele disse ao jornal, sobre o atendimento diferenciado ser mais forte do que a concorrência dos preços, era válido para o setor há alguns anos atrás. Além disso, até cerca de 1990, os supermercados não investiam forte nos serviços de padaria. Hoje em dia, a realidade não é essa. Até mesmo a qualidade do pão que era comercializado nos supermercados, naquela época, era inferior à das padarias. Agora, os supermercados oferecem produtos de qualidade. E para piorar a nossa situação, nós dependemos da venda dos pães para sobreviver e os supermercados não", analisou Pereira.
De acordo com ele, as padarias estão sucateadas, porque não conseguem comercializar os seus produtos com uma margem de lucros satisfatória. A concorrência desleal, citada por Pereira e seus companheiros, estaria dificultando ainda mais a situação. "Não temos a quem recorrer. Onde estão os órgãos competentes que não fiscalizam tudo isso? Se os supermercados estão praticando dumping, deveriam ser punidos", disse Mastroianni.
Respostas
Consultado pela reportagem, Evaristo Rodriguez Gonzalez disse que essa polêmica sempre vai existir porque o perfil de cada consumidor é diferente. "Quando eu disse que o atendimento diferenciado das padarias é uma vantagem,
é verdade. Porém, isso não se aplica a todos os consumidores. Algumas pessoas vão atrás de preços baixos, outras, de qualidade e bom atendimento. O preço realmente pesa no orçamento dos consumidores, mas muitas pessoas preferem comprar onde são bem atendidas. São situações diferentes entre a realidade das próprias padarias, dependendo de onde estão localizadas, e dos supermercados. Cada um tem que usar as suas estratégias. Acho que ficar discutindo isso é como discutir política ou o sexo dos anjos. As opiniões sempre serão divergentes", analisou Gonzalez.
O diretor regional da Associação Paulista de Supermercados
(Apas), Jad Zogheib, disse que as promoções de pães não são comuns nos supermercados da cidade. "As promoções de pães são eventuais nos supermercados. Os preços baixos nesses produtos não são constantes. Nós vendemos a preço de custo um ou outro produto. Eventualmente, o pãozinho entra, assim como acontece com a batata, cebola, hortifrutis e diversos outros produtos que às vezes são colocados em promoção", afirmou Zogheib.
Na sua avaliação, também tem que ser levado em consideração que o maior número de promoções no pão francês, que tem sido registrado atualmente,
é uma forma de enfrentar a concorrência. "Sempre que surge uma concorrência nova, os supermercados optam por investir em promoção no pãozinho porque
é uma forma de atrair o consumidor para a compra diária. Ou seja, isso não é uma constante, porque os supermercados não vendem mais barato todos os dias", analisou o diretor da Apas.
Jad Zogheib negou a prática de dumping, citadas pelos proprietários de padarias que procuraram o JC. "Essa história de dumping não é verdade. Os preços tiveram mais oscilações ultimamente porque duas lojas (supermercados) foram inauguradas este mês e, por conseqüência, houve uma concorrência mais acirrada nesse período", concluiu.