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Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Crianças surpreendem pela independência

Texto: Josefa Cunha

Desde muito pequenas, elas fazem suas próprias opções e atordoam os pais. Ensinar os filhos a escolher, porém, pode evitar influências negativas no futuro

Elas escolhem as roupas que desejam vestir, o programa de TV e a música que querem assistir ou ouvir e sabem definir muito bem seus sonhos de consumo. Não estamos falando do adolescente que está descobrindo sua independência, mas de crianças bem pequenas, que muitas vezes ainda nem saíram das fraldas. Situações semelhantes são cada vez mais comuns na vida moderna, mas ainda surpreendem - e preocupam - pais e avós que, quando pequenos, foram educados a aceitar as vontades alheias.

A psicoterapeuta Marly Godoy diz que é normal que uma criança comece a fazer suas escolhas a partir dos dois anos e meio de idade, mas pondera que os pais têm de observar os limites para essas decisões próprias. A imposição de limites, aliás, é uma conduta sempre mencionada nos assuntos concernentes ao comportamento infantil. "Cabe aos pais tanto mostrar qual é o limite quanto oferecer opções aos seus filhos. Não adianta apenas dizer não sem explicar o porquê. É fundamental dizer o que não pode ou não é apropriado e o que pode. Ficar apenas no negativo é prejudicial porque acaba tornando a criança mal humorada, com raiva", explica.

A escolha das roupas, por exemplo, é uma mania comum entre os pequenos e, às vezes, torna-se um tormento para os pais.

"Minhas manhãs eram um terror. Por causa da choradeira diária, já ia para o trabalho estressada", relembra Rosilene Viegas dos Santos, mãe de Giovanny, 4 anos, que não aceitava vestir o uniforme escolar. "Ele só queria colocar roupas novas e não adiantava ficar brava ou impor minha vontade. As coisas só melhoraram depois que fomos orientados pela pedagoga da escola onde ele estuda a negociar. Ora a gente cedia, ora ele cedia. No começo ele ficava bravo, mas foi aceitando com o tempo. Mesmo assim, eu e meu marido continuamos exigentes porque a personalidade do Giovanny

é muito forte. Ele faz questão de tomar banho e se arrumar sozinho, e não gosta de aceitar ajuda. Respeitamos essa independência dele", disse.

Rosilene comemora o comportamento mais flexível de Giovanny, mas ainda se impotente frente a outra fixação do filho: carros vermelhos. "Isso não tem jeito de mudar. Ele só gosta de carrinho vermelho. Na televisão, seus ídolos são os carros da Ferrari, ganhem ou percam as corridas. Ainda bem que temos o Barrichello num deles", brinca.

Estela Caldeira Jarussi, mãe de Júlia, também de 4 anos, é outra que vive esbarrando nas opções da filha. No caso delas, porém, a divergência começa por uma questão meramente pessoal. "O problema é que a Júlia ama de paixão todo e qualquer vestido

'de roda' e eu simplesmente acho horrível. Aliás, não sei de onde ela pegou essa mania. De dia e de noite, no inverno ou no verão, é só vestido que dê para rodar. Para dormir, só camisola, porque a camisola 'roda, mãe'!", conta, imitando a justificativa da filha pela escolha do traje de dormir.

Júlia aceita bem vestir o uniforme escolar, mas, é claro, abre mão dele sem pensar se for para colocar um vestido rodado. "Acabo cedendo para contentá-la, mesmo porque a implicância é minha, mas quando ela quer sair descombinando, tipo vestido rosa com sapato vermelho, eu não deixo mesmo", confessa. Estela também confronta com a filha por causa da preferência dos vídeos infantis. Júlia "a-d-o-r-a" os filmes da Disney, o que contraria um pouco a mãe, que, por questões religiosas, prefere produções de outros estúdios.

Marly Godoy acha que os pais devem respeitar o direito de escolha dos filhos, desde que a opção seja apropriada. "Às vezes, os pais vetam alguma escolha simplesmente porque eles próprios não gostam daquilo. Quando a questão é de gosto pessoal, não há porque não aceitar. Agora, se a criança fez uma escolha desapropriada ou que possa lhe colocar em alguma situação vexatória, o correto é que os pais expliquem o motivo pelo qual estão discordando, lembrando sempre de oferecer outras alternativas", ensinou.

O estímulo à prática da escolha é uma das condutas mais importantes a ser seguida pelos pais, segundo opinião da psicoterapeuta. Aprendendo a definir com bom senso - sensatez, obviamente, que deve ser entendida proporcionalmente

à capacidade de entendimento e à evolução da criança - suas escolhas, a criança estará menos sujeita à influência de terceiros. "Se não ensinamos nossos filhos a escolher, ele corre o risco de aceitar e seguir a escolha do amigo, mesmo que não esteja a fim de fazer aquilo. E vale refletir que nem sempre a opção do amigo é boa", alertou.

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