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Luciano Dias Pires
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27 de setembro, uma triste data histórica

Texto: Luciano Dias Pires

Setembro registra, no decorrer dos anos, dentro do calendário histórico de nossa cidade, importante sequência de acontecimentos que redundaram em influentes benefícios

à cidade e ao novo povo. Um episódio, no entanto, que já foi motivo de comemorações, hoje não deixa de ser uma simples e triste lembrança.

Falamos de 27 de setembro de 1906, quando circulou o primeiro trem da tradicional Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, cujo trecho inaugural legava Bauru a Avaí. Muitas festas assinalaram aquele fato de transcendental importância para a época.

De antigas publicações e vasculhando documentos que narram aquele glorioso capítulo da nossa história, não apenas da ferrovia, como da própria Bauru, extraímos a matéria que a seguir transcrevemos. Foi, realmente, um evento intensamente comemorado, pois exatamente há 94 anos a nossa cidade iniciava uma trajetória que jamais sofreu solução de continuidade.

A festiva inauguração do primeiro trecho

Em 15 de julho de 1905 foi iniciada a construção da ferrovia em Bauru, que era uma pequena vila com apenas 600 habitantes. Os serviços foram atacados com a máxima intensidade. O moradores do lugarejo viam, com as primeiras obras, um marco que apresentava um futuro de esperanças e de progresso.

O trabalho executado quanto a ferrovia em si, até 15 de maio de 1906, acusava os seguintes resultados: extensão dos estudos aprovados pelo Governo, 236 quilômetros; extensão da linha locada, 95; extensão do leito preparado, 95; extensão da via permanente locada, 55; assentamento da via permanente, 43.500; linha telegráfica assentada, 40; linha telefônica assentada, 40, e cerca de arame com quatro fios, 7.

Em 27 de setembro de 1906 foi a Noroeste aberta ao tráfego provisório até o quilômetro 48, no qual estava situada a estação de Jacutinga (hoje Avaí) e o segundo trecho do quilômetro 48 ao 92 (estação de Lauro Müller), que foi entregue ao tráfego em 14 de janeiro do ano seguinte.

Para assistir à inauguração do primeiro trecho, composto das estações de Bauru, Presidente Tibiriçá

(nome dado em homenagem ao presidente Tibiriçá) e Jacutinga, veio a Bauru o ministro da Viação Lauro Müller, que seguiu em trem especial, para aqueles pontos, com numerosa comitiva, quando foi recebido com júbilo pelos moradores que viam, na ocasião, realizada uma pequena parte de suas grandes aspirações.

Na época, a imprensa de S. Paulo, assim noticiou o acontecimento:

"Em trem especial, que partiu ontem do Rio, às 10 horas da noite, chegou esta manhã, para assistir à inauguração dos primeiros cem quilômetros da Noroeste do Brasil, em Bauru, o dr. Lauro Müller, ministro da Viação. Viajando em composição da Sorocabana, os drs. Lauro Müller, Jorge Tibiriçá e comitiva seguem hoje, às dez da noite, para Bauru, onde vão participar do festivo acontecimento".

Após a inauguração, a direção da Noroeste do Brasil fixou o número de trens que iriam circular semanalmente, em dois mistos regulares e outro também misto, porém facultativo, em ambos os sentidos. Para atender ao movimento sempre crescente de passageiros e mercadorias, a ferrovia fez correr todos os três semanalmente.

O relatório de 1907, apresentado pelo engenheiro-chefe Eugene Lafon, dando conta dos trabalhos executados até 30 de junho daquele ano dizia: "É bem de assinalar-se a influência que tem o tráfego desta Estrada de Ferro sobre o rápido desenvolvimento da zona por ela atravessada, que era por assim dizer desabitada. E assim que a estação de Jacutinga, que foi localizada dentro da floresta e a alguns quilômetros do rio Batalha, é hoje uma nascente cidade, comportando 300 casas entre elas algumas de comércio de importância, uma escola, uma agência de Correios etc. As outras estações como Presidente Tibiriçá e Presidente Alves (nome dado em homenagem ao presidente Rodrigues Alves) que ao serem inauguradas nenhum tráfego tinham, hoje exportam cereais cuja quantidade cresce sensivelmente".

As antigas oficinas

"As oficinas de Bauru, bem que não possuindo ainda que algumas máquinas ferramentas que até hoje tem siso indispensável, são suficientes para as reparações necessárias de todo o material fixo e rodante. Instalamos em condições econômicas, mas entretanto boas, uma pequena oficina de fundição de bronze, que nos presta grande serviço, atendendo ao elevado preço de custo deste material em São Paulo agravado ainda do frete correspondente a 438 quilômetros.

Nas oficinas, além dos serviços ordinários da Estrada, faz-se também muito trabalho por conta da Empresa e de particulares, do que resulta uma boa receita pelos lucros que deixa além dos serviços que prestamos aos agricultores e industriais aqui residentes".

Transcorridos quase cem anos, aquele que foi um importante evento hoje é uma pálida lembrança de um acontecimento que na época alcançou ampla repercussão, inclusive em vários países da América do Sul, pois a construção da Noroeste viria a possibilitar, o futuro, a tão decantada ligação Atlântico-Pacífico. Os seus trilhos chegariam algum tempo depois à fronteira com a Bolívia e, deste pais, o transporte sobre trilhos continuaria pela Argentina, Chile, até atingir às margens do Oceano Pacífico.

Mesmo encampada em 1957, pela RFFSA, a NOB prosseguiu em sua predestinação histórica, como a soberana no transporte de mercadorias em geral, de passageiros, de derivados de petróleo, gado, surgindo como sendo um dos mais influentes entroncamentos ferroviários da América do Sul, pois em Bauru já funcionava a E.F. Sorocabana e a Cia Paulista de E.F.

No entanto, primeiramente por descaso de nossos governantes e mais recentemente a malfadada privatização, melancolicamente a tradicional Noroeste do Brasil foi desaparecendo, para consternação de seus antigos funcionários que representam gerações de bauruenses que nela trabalharam. Assim, com um misto de tristeza e até mesmo emoção, apenas para efeito de registro recordamos a inauguração da NOB, em 27 de setembro de 1906.

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