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História

Por Luciano Dias Pires | Especial para
| Tempo de leitura: 11 min

Tiros marcam a história de prefeitos

Texto: Luciano Dias Pires/Especial para JC

Entre casos trágicos, Bauru já registrou assassinato e cassação envolvendo o principal político do Município

Hoje, quando a cidade escolhe o novo ocupante do Palácio das Cerejeiras, é um bom momento para relembrar a série de acontecimentos políticos que movimentaram a antiga Capital da Terra Branca, cuja história registra momentos dos mais conturbados, inclusive com tiroteios, destruição total e parcial de jornais (quatro) e até mesmo o assassinato de um prefeito.

A predestinação de Bauru superou todos esses empecilhos e o pequeno povoado acabou se transformando no influente centro comercial, industrial, educacional e agropecuário dos dias atuais. A seguir, a seqüência de fatos que envolveram antigos chefes do Executivo, fatos esses que integram diferentes capítulos dentro dos lances históricos da terra bauruense.

1895 foi um ano importante para a então modesta vila de Bauru, isto porque os políticos conseguiram, naquela oportunidade, a supremacia na Câmara Municipal, que provocou a mudança da sede do município para Bauru e a eleição do primeiro prefeito, que foi José Alves de Lima. Ele governou de 7 de janeiro de 1896 a 1.º de maio do mesmo ano e faleceu em pleno exercício do cargo. Teve como sucessor o vereador e jornalista Domiciano Silva, designado pela Câmara, mas depois eleito (naqueles tempos o chefe do Executivo, que tinha o nome de intendente, era indicado pelos vereadores). Domiciano comandou os destinos de Bauru até o início de 1898.

Tiro no pé

A 15 de janeiro de 1909, a Câmara Municipal escolheu para prefeito Álvaro Sá, em substituição ao coronel Gerson França. Jovem e culto, Álvaro Sá entrava para a política quando esta atravessava uma das suas fases de maior agitação, não só em Bauru como no Brasil, visto as eleições que seriam realizadas em todo o território nacional para a definição do novo presidente da República, cujos candidatos eram o marechal Hermes da Fonseca e Ruy Barbosa.

No dia 1.º de março de 1910, realizou-se a tão esperada disputa eleitoral que iria escolher o novo mandatário máximo da Nação e foi quando em Bauru aconteceu o maior conflito político de sua história, que resultou em muita gente ferida. Na oportunidade, eram aguardadas duas mortes: a de Azarias Leite, na ocasião presidente da Câmara Municipal, a de Álvaro de Sá, este, face o seu noviciado na política, e a atuação de comando, caiu na antipatia dos demais líderes.

Álvaro de Sá, ferido em um dos pés por um tiro, teve que deixar a cidade escondido e muito bem protegido pelos seus amigos. Colocado em um trem, nunca mais voltou a Bauru. Com a fuga de Álvaro de Sá, foi ele substituído por Luiz Antônio de Alvarenga e logo depois o Legislativo elegeu Francisco Gomes dos Santos para concluir o mandato. Azarias Leite, que saiu ileso no primeiro atentado, não escapou de outro ato criminoso, no dia 19 de outubro de 1910, quando foi assassinado por Joaquim Honório, a mando de expressivas figuras da época.

Assassinato

O capitão José Gomes Duarte vinha exercendo a função de intendente municipal desde 16 de março de 1924 e foi sucessivamente reconduzido ao cargo em virtude de sua boa administração.

É oportuno lembrar que coube ao prefeito Juquinha, como era carinhosamente chamado pelos bauruenses, iniciar o calçamento a paralelepípedos das ruas de Bauru, benefício esse que teve começo na quadra 1 da Batista de Carvalho, exatamente no dia 1 de agosto de 1924.

Mas foi no dia 11 de julho de 1929 que uma tragédia abalava a cidade, visto o brutal assassinato do prefeito Gomes Duarte, em plena rua Batista de Carvalho (quadra 7), defronte à antiga Casa Lusitana. Teve ele a sua memória reverenciada pelas autoridades e toda a população, visto que desfrutava de grande estima. Seu nome foi perpetuado em uma das ruas e, na época, uma escola do curso normal recebeu a denominação de Gomes Duarte, que posteriormente foi encampada pelos irmãos Guedes de Azevedo. O assassinato de Juquinha foi uma página negra da história política de Bauru.

Deputado federal

Com o término da revolução de 1932, em todos os municípios do Estado de São Paulo as tropas de ocupação, seguindo orientação superior, tomaram as providências quanto à mudança do governo municipal, promovendo a posse do prefeito devidamente designado. Em Bauru, a exemplo de outras cidades, também aconteceu essa modificação, com a saída do major Antônio Gonçalves Fraga e a conseqüente nomeação do advogado Sebastião Lins.

Terminado o seu mandato, Sebastião Lins mudou-se para Mato Grosso e voltou para Bauru, aqui permanecendo até 1942. Teve depois passagens rápidas por Tupã, Londrina, Rio de Janeiro, Curitiba e Santa Catarina. Sempre participando da política, foi eleito deputado federal pelo Paraná, chegando a liderar o antigo PTB nos anos de 1952 e 1953 e foi líder da maioria, em 1954, na Câmara Federal. Faleceu em 1968 e, face a relevantes serviços prestados ao povo paranaense e ao povo catarinense, a cidade de Piçarras

(Santa Catarina) prestou a ele uma homenagem, perpetuando o seu nome em uma das ruas daquela localidade, na qual ele viveu os seus últimos dias.

Nove anos no poder

Na história política bauruense, o saudoso prefeito Ernesto Monte detém um recorde jamais superado por qualquer outro chefe do Executivo. Ele foi nomeado pelo então interventor Adhemar Pereira de Barros, comandou os destinos de Bauru em um só período, de 7 de junho de 1938 a 25 de março de 1947, e deixou a função visto a destituição de Adhemar de Barros, por Getúlio Vargas, da chefia do governo paulista. Ernesto Monte foi então substituído pelo capitão Rafael Oberdan de Nicola, oficial do Exército.

Quando das eleições para deputados estadual e federal, Ernesto Monte candidatou-se ao Legislativo Paulista e foi eleito primeiro suplente. Por várias vezes ocupou uma cadeira na Assembléia Estadual, quando voltou a prestar relevantes serviços a Bauru.

Eleição após era Vargas

Uma data histórica para Bauru é aquela atinente ao dia 9 de novembro de 1947, quando foram realizadas as primeiras eleições após a deposição de Getúlio Vargas e a queda do Estado Novo implantado por ele, em 1937. O povo de Bauru preparava-se para escolher o primeiro prefeito do regime democrático que voltava a imperar em todo o território nacional.

Bauru, naquela oportunidade, chegou a ser notícia nacional, isso porque sete políticos iriam pleitear a chefia do Executivo. Assim, naquele dia cerca de 10.463 eleitores compareceram às urnas, cuja abstenção foi de 15%. Terminada a apuração, o advogado Octávio Pinheiro Brisolla, que já havia sido prefeito (1918 a 1921), venceu as eleições com um total de 2.261 votos, seguido de João Simonetti com 2.068, José Rodrigues Gonçalves com 1.750, Breno Ribas com 1.718, Darcy César Improta com 1.403, José Lemos de Almeida com 677 e Jurandir Bueno com 321.

Transferência de prestígio

Muito se fala, na política, sobre a transferência de prestígio, tanto no âmbito federal, como no estadual e, com maior intensidade, no municipal. Quando eleito, em 1947, Octávio Pinheiro Brisolla, ao encerrar o seu mandato, apoiou e elegeu o médico Nuno de Assis como prefeito de Bauru. Ele havia sido chefe do Executivo em Avaí antes de transferir residência para Bauru. Nuno, porém, quando completou a sua gestão, não conseguiu eleger Brisolla, que perdeu para Nicola Avallone Jr. por apenas 67 votos.

Nicolinha, que não terminou o seu mandato, pois candidatou-se a deputado estadual e foi eleito (o médico Luiz Zuiani, que era o vice, completou a sua administração), apoiou e conseguiu eleger Irineu Bastos para o cargo de prefeito. Na disputa eleitoral municipal seguinte, Nuno de Assis, sem o apoio de qualquer figurão político, retornou à Prefeitura, cuja sede ainda funcionava na rua 1.º de Agosto. Por capricho do destino, Nuno de Assis, que havia iniciado a construção do Palácio das Cerejeiras em sua primeira gestão, na segunda administração concluiu e inaugurou o prédio atual da Prefeitura Municipal.

Já no período revolucionário, o engenheiro Alcides Franciscato, ao ganhar a disputa com Nicolinha, chegou vitorioso ao cargo de prefeito municipal. Na eleição seguinte, praticamente sem adversários, Franciscato lançava Luiz Edmundo Coube, que foi então eleito como o novo prefeito. Já deputado federal, posteriormente, Alcides Franciscato apoiou Oswaldo Sbeghen para a chefia do Executivo e a vitória deste foi indiscutível.

Cumprindo o seu mandato, Oswaldo Sbeghen foi sucedido por Edison Bastos Gasparini eleito com maciça votação. Porém, muito doente, veio falecer alguns meses depois e quem assumiu foi o seu vice, Tuga Angerami. Este, por sua vez, para sua sucessão lançou a candidatura do seu então secretário de Obras, Antônio Izzo Filho, que foi eleito. Veio a eleição de 1992, vencida por Antônio Tidei de Lima com expressiva votação e grande diferença de votos sobre os seus adversários, que foram: Carrijo, Sbeghen, Salvador Afonso e Gazetta. Izzo retornou à Prefeitura em 1997 mas, cassado, deu lugar a Nilson Costa, que completa o seu mandato.

Agora, a expectativa é em torno do novo prefeito que também vai entrar para a história de Bauru, pois será ele o chefe do Executivo do início do terceiro milênio, cargo postulado por 7 nomes.

67 votos decidiram eleição para prefeito

Depois da vitória de Brisolla, em 1947 e após o triunfo de Nuno de Assis em 1951, apoiado pelo seu antecessor, as eleições municipais marcadas para 1955 estavam movimentando a opinião pública, pois alguns dos políticos que se opunham à dupla Brisolla e Nuno, tudo iriam fazer para interromper as seguidas vitórias daqueles que venceram em 1947, em 1951 e que em 1955 tentariam, pela terceira vez consecutiva, a conquista da Prefeitura.

Bauru amanheceu festiva naquele 3 de outubro de 1955. Nicola Avallone Jr., Octávio Pinheiro Brisolla, Sebastião Aleixo da Silva e José Ranieri eram os candidatos. Após a apuração, veio o resultado oficial e com ele uma surpresa, ou seja, a derrota de Brisolla (ele tinha o apoio de Nuno de Assis) por apenas 67 votos de diferença. Os números finais foram os seguintes: Nicolinha com 6.843 votos; Brisolla com 6.776; Aleixo com 3.804 e Ranieri com 484 votos. Para vice prefeito, foi eleito Luiz Zuiani com 8.109 votos (na época o vice não era vinculado ao prefeito).

Desde José Alves de Lima, o primeiro prefeito (naqueles tempos o cargo tinha a denominação de intendente) até o Nilson Costa, a chefia do Executivo era ocupada por homens que desenvolviam diferentes trabalhos no campo profissional. Eram fazendeiros, lavradores, comerciantes, pequenos industriais e outros. Em um rápido levantamento nos arquivos do Bauru Ilustrado, encontrou-se os prefeitos de profissão liberal e que são os seguintes: Domiciano Silva, segundo prefeito bauruense, era jornalista e também desenvolvia a atuação profissional como advogado. Carlos Marques da Silva era o proprietário do jornal "O Tempo" e foi delegado de polícia. Gerson França e Arthur de Moraes Goyano eram farmacêuticos.

Álvaro Sá, João Bráulio Ferraz, Nuno de Assis e Luiz Zuiani (este, na qualidade de vice-prefeito, completou a gestão de Nicola Avallone Jr.) eram médicos. Sebastião Lins, Octávio Pinheiro Brisolla, Eduardo Vergueiro de Lorena

(foi o segundo promotor público de Bauru, cargo do qual se afastou para se dedicar à política) e Nilson Costa, advogados.

José Guedes de Azevedo e Tuga Angerami, professores. João Silveira Prado, Alcides Franciscato, Luiz Edmundo Coube, Antônio Tidei de Lima e Izzo Filho, engenheiros. Heitor Ferreira Maia era dentista, Nicola Avallone Jr., economista. O capitão Rafael Oberdan de Nicola, oficial do Exército.

Acontecimentos trágicos

Sem qualquer ligação com eleições municipais que aconteceram no passado, a título de curiosidade, a seguir estão alguns fatos que mancharam a história política de Bauru. Começamos pelo assassinato de Azarias Leite, em outubro de 1910, quando ele vinha de sua fazenda para tomar posse no cargo de presidente do Banco de Custeio Rural, o primeiro estabelecimento de crédito.

Quando do término da revolução de 1930, que proporcionou a Getúlio Vargas a oportunidade de dirigir os destinos do Brasil, a partir daquele ano até 1945, os correligionários do ditador festejaram ruidosamente o triunfo e chegaram a destruir por completo dois jornais que eram contrários a Vargas. "Diário da Noroeste" e "Correio de Bauru". Em 1932, o jornal "A Tribuna Operária", que pendia para o comunismo, por ocasião da Revolução Constitucionalista, foi igualmente depredado pelos bauruenses. Em 1910 foi o jornal "Cidade de Bauru" também destruído por questões políticas.

Em meados dos anos trinta, o líder nacional dos integralistas, Plínio Salgado, ao visitar Bauru para falar em uma concentração que iria contar com a presença dos integrantes de seu partido, assistiu a uma tragédia que culminou com a morte de um de seus partidários, Nicola Rosica, assassinado em plena rua Batista de Carvalho no confronto que aconteceu com os comunistas.

Passados vários anos e com a volta do Brasil ao regime democrático, face à queda de Getúlio Vargas em 1945, também os acontecimentos trágicos deixaram de ocorrer. As eleições foram sendo realizadas dentro de uma tranqüilidade incomum, com os bauruenses participando de comícios, das campanhas e das eleições dentro de uma disciplina impecável. Os fatos de maior repercussão, e que movimentaram a cidade nos últimos anos foram as cassações do vereador Hélio Pires e do prefeito Izzo Filho.

Se o leitor possui em seus guardados fotografias que mostram fatos políticos e os participantes dos mesmos, pode entrar em contato com o Instituto Histórico "Antônio Eufrásio de Toledo". Aos bauruenses interessados em outros esclarecimentos sobre a história política o Instituto tem ao dispor fotografias, reportagens e vídeos para consultas.

Serviço

O horário de funcionamento do Instituto, que fica na rua Capitão Gomes Duarte, 13-41, telefone 234-2508, é de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 12 horas e das 13 horas às 17h30, aos sábados, das 8h30 às 10h30.

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