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Botecoterapia

Redação
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Botecoterapia pode ser uma fuga

Enquanto os maridos, namorados ou filhos estão no bar, as mulheres, geralmente, estão em casa preocupadas, mesmo que já estejam acostumadas com a "botecoterapia" deles. "Só fico tranqüila quando o meu marido chega em casa", diz a dona de casa Helena Ramos. Ela conta que o marido tem o hábito de beber com os amigos desde antes do casamento, há 36 anos, e por isso nunca pôde reclamar. "Ele diz que vai até lá para distrair a cabeça, o que eu pergunto é porque eu não tenho o mesmo direito", diz. No geral, as mulheres ou namoradas dos adeptos da "botecoterapia" se sentem prejudicadas porque não podem contar os companheiros durante um certo período do dia e também porque, enquanto eles estão nos bares da vida, elas estão em casa, muitas vezes cuidando de manter tudo em ordem para quando eles chegarem. "É muito injusto", diz Andréa Gimenez. "Uma vez disse que ia fazer o mesmo, juntar um grupo de amigas do trabalho e ir para um bar tomar cerveja e conversar", conta Andréa. A reação do ex-marido, José Eduardo, foi a pior possível. "Só faltou me bater, disse que a gente ia ficar mal falada, que bar não era lugar para mulher...", diz. Nunca mais tentou nada.

Fuga da realidade

Segundo a psicóloga Júlia Hernandez, homens e mulheres têm necessidade de um convívio social com pessoas com quem possam trocar idéias e conversar sobre assuntos leves que fujam dos problemas do cotidiano. A diferença

é que, para os homens, isso é uma coisa mais socialmente incentivada e permitida, pricipalmente quando está ligada

à bebida e a outros homens. Ou seja, para os homens, ir ao bar beber com os amigos é considerado normal, é visto como uma forma dos homens se reconstruírem da tensão do dia-a-dia, para as mulheres, não.

Na opinião da psicóloga, não é ruim que os homens freqüentem os bares, mas é preciso avaliar como essa relação que se tem na rua com o amigos

é conciliada, ou não, com a necessidade de intimidade e aprofundamento sobre as questões que trazem uma tensão mais constante no dia-a-dia. Em outras palavras, se o fato de ir ao bar é realmente um ato desestressante, como alegam os adeptos da "botecoterapia", ou se é apenas uma maneira de fugir da realidade por algumas horas. "Ir ao bar pode ser bom dependendo da dosagem, da intensidade e de como isso está sendo conciliado com a outras possibilidades de relaxamento", diz Hernandez. Para a psicóloga, um esporte, uma caminhada, um programa com a família ou mesmo com os amigos, mas não num bar, poderia ser uma forma mais saudável de relaxar.

O problema do bar, de acordo com Julia Hernandez, é quando ele se torna uma obrigação para o homem, a única forma que ele enxerga para se distrair e se divertir e passa, a partir disso, a defender sua visão de qualquer jeito, muitas vezes até de uma forma violenta. "Quando isso acontece é o sinal de que esse comportamento deve ser repensado", diz a psicóloga. "Fazer isso ocasionalmente ou durante um dia da semana que se escolhe para se distrair não atrapalha os outros hábitos da pessoa, o problema é quando se restringem as opções", explica.

A mulher também vive uma tensão no dia-a-dia, mas não relaxa tomando uma cerveja, principalmente se for casada. Para Júlia Hernandez, a mulher procura compensar isso de outras maneiras, quando procura, por uma questão de costume, de tradição. "Para os homens é permitido ir no bar 'relaxar', mas para mulheres não. Isso talvez seja uma forma de negar as fragilidades, medos e ressentimentos do dia-a-dia como se eles dissessem: 'aqui estamos nós, homens felizes, no bar", diz a psicóloga.

Camuflagem

Julia Hernandez acredita que, em muitos casos, a desculpa do bar como ponto de encontro para o relaxamento seja como uma camuflagem masculina para os seus problemas. "Dependendo de como é feito, isso não passa de uma camuflagem porque os homens dificilmente abrem suas intimidades e suas dificuldades para outros homens, eles não se expõem", diz. Nesse caso, ao invés de resolverem os problemas e tensões que o levaram a querer relaxar no bar, eles estarias apenas os deixando de lado momentaneamente. "Eles vão empurrando o problema com a barriga e os amigos são cúmplices da fuga. Quando um pergunta se está tudo bem o outro confirma. Está sempre tudo bem para os amigos em uma mesa de bar. O seu time, a política, tudo pode estar mal, mas eles agem sempre como se fosse homens fortes, vigorosos e invencíveis. É uma botecoterapia para enganar a si mesmo", afirma a psicóloga.

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