Trabalho e educação devem caminhar juntos
Texto: Gustavo Cândido
O mundo está mudando. E rápido. Hoje em dia, não deve mais existir um limite para a formação do profissional, que tem de estar a todo momento se aperfeiçoando para ficar atualizado com as novas tecnologias. As empresas, por sua vez, não podem se dar ao luxo de deixar que esse processo aconteça sem interferir, por isso precisam fornecer, incentivar e cobrar treinamento e evolução se quiserem sobreviver no mercado. Em visita a Bauru, onde apresentou a palestra "A Tensão entre Flexibilidade - Persistência Rigidez", no V Seminário "Educação e Conhecimento
- Construir para o Futuro", organizado pelo Grupo InterRHacão no meio da semana, o filósofo e doutor em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Mario Sergio Cortella, falou com o JC sobre as mudanças pelas quais o mundo vem passando e como isso se manifesta no mercado de trabalho.
Jornal da Cidade - Qual é a origem do tema da sua palestra?
Mario Sérgio Cortella - Nós estamos vivendo novos tempos e é preciso mudar e mudança produz tensão. Por isso eu lido com essa tensão para mostrar algumas das características que se tem no cotidiano em relação ao mundo do trabalho, ao mundo do conhecimento, da educação. Como ponto de partida eu faço uma análise daquilo que são alguns dos requisitos para uma nova postura frente esses novos tempos. A novidade nisso tudo não é o fato do mundo estar mudando mas sim a velocidade com que essa mudança acontece. Essa velocidade
é inédita. Nunca em toda história se mudou tão rápido. Isso mudou as relações, as situações, a tal ponto que nós estamos vivendo uma memória fulgaz de uma história veloz em relação ao cotidiano, o que impacta imensamente as relações profissionais e pessoais, afetivas, etc. Isso marca e nós faz esquecer coisas que acabaram de acontecer e perder as referências delas. A velocidade provoca duas coisas: a primeira é a falta de capacidade de se espantar e sem espanto não há criatividade, depois, a obviedade, o óbvio é a redundância, o "permanecer no mesmo". Dai a necessidade de se pensar sobre essas coisas.
JC - Qual a alternativa para passar por essas mudanças todas?
Mario - A persistência. Uma outra característica desses novos tempos é o falecimento da esperança, o imaginar que não há mais alternativa e as coisas são como são e que a gente não pode fazer nada. E a velocidade acaba induzindo a essa visão porque a gente não consegue nem vislumbrar outra perspectiva.
JC - Como isso tudo se manifesta na questão do treinamento?
Mario - A primeira coisa é que a gente não pode mais estar lidando com educação corporativa, com o treinamento, como se fazia anteriormente. Há até uns vinte anos, a lógica que existia era a da competência individual. Hoje isso não faz mais sentido, a lógica atual é a competência coletiva, ou seja "minha competência acaba quando acaba a do outro". Num grupo, se um perde competência, todos perdem, se um ganha, todos ganham. Por isso é preciso que cada organização tenha o que a gente chama de impermeabilidade educativa, ser permeável a aprendizagem coletiva, na qual deve imperar dois princípios: o primeiro é o "quem sabe reparte", o segundo:
"quem não sabe, procura". Há vinte anos esses conceitos seriam estranhos porque quem tinha uma competência, um conhecimento, guardava para si mesmo com o argumento de que poderia perder o seu posto. E quem não tinha competência se calava para não mostrar sua ignorância. Hoje, quem sabe tem de repartir e quem não sabe deve procurar, inclusive porque as organizações tem cada vez mais de passar de "qualificadas" para "qualificantes", não existe um processo de formação terminal, como há vinte anos, quando você podia fazer um curso e exercer aquilo durante um certo tempo. Hoje não é mais assim, a velocidade é tão grande que logo muda o equipamento, a postura, as técnicas e tudo o que se aprendeu no curso não vai valer nada. Quem não sabe lidar com isso fica para trás. As organizações inteligentes precisam lidar com a novidade de processos de formação que são continuados. Antes as empresas exigiam que o funcionário deixasse os estudos para poder trabalhar, hoje se ele não estudar não arruma emprego. As empresas não aceitam que não estiver em formação continuada. Só que isso é tão veloz que se não houver um processo de formação coletiva, a área de treinamento atua numa direção que não dá tempo e isso pode ser extremamente arriscado dependendo da área de atuação.
JC - Até que ponto as empresas já têm noção sobre essas mudanças e a velocidade com que elas acontecem?
Mario - Uma parte das empresas têm, tanto que aqui em Bauru, por exemplo, há algum tempo o grupo InteRHação vem lidando com essa temática. Não é casual que a gente tenha vindo participar do V Seminário Educação e Conhecimento. Aqui algumas empresas já estão avançadas nessa compreensão, mas em alguns lugares do nosso país, muita gente não se deu conta disso ainda e faz uma oposição entre trabalho e educação. Isso leva a um afastamento da velocidade de formação que hoje se exige. Algumas pessoas imaginam que com o uso de tecnologia informatizada haverá um turbinamento da informação, mas isso não acontece necessariamente, pois é confundir informação com conhecimento. Por exemplo, a Internet. A maior parte das pessoas não navega na Internet, e sim naufraga, você só pode entrar em busca de informação se tiver critério, porque informação não é conhecimento,
é a base. A Internet é um instrumento poderoso para você ir atrás de informação, para isso virar conhecimento. Para informação se transformar em conhecimento é preciso um critério de seleção
. Essa lógica vale para o mundo da empresa, da escola e da família.