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Transgênicos

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 7 min

Transgênicos podem acabar com a fome no mundo, diz cientista

Texto: Patrícia Zamboni

A viabilidade econômica da produção de alimentos transgênicos no Brasil é total e eles podem solucionar o problema da fome no mundo. A afirmação é de Crodowaldo Pavan, 81 anos, professor emérito da USP, cátedra em genética, membro da Academia Brasileira de Ciência, da Pontifícia Academia de Ciência do Vaticano e presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Segundo ele, diversas organizações pertencentes à iniciativa privada investem na produção de alimentos geneticamente modificados, porém, ainda existe um longo caminho a ser percorrido nessa jornada.

O cientista esteve em Bauru convidado pela direção da subsede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para ministrar palestra sobre "A genética dos alimentos transgênicos", no último dia 26.

Para Pavan, investir na produção dos alimentos transgênicos pode ser a solução ou, pelo menos, uma grande arma na luta contra a fome no mundo. "Se for investida em uma produção séria, os alimentos transgênicos podem resolver o problema da fome. É absurdo como as pessoas ainda teimam em negar os transgênicos com tanta miséria e falta de comida no mundo", diz o cientista.

Para exemplificar o que, para ele, mostra o "absurdo" da polarização existente em relação a posicionamentos contra e a favor sobre os alimentos transgênicos, o doutor em genética conta um fato. "Há cerca de 20 anos, fizeram uma pesquisa no México e produziram um tipo de milho que tinha mais proteínas do que o milho comum. Porém, os mexicanos não aceitaram o produto porque não tinha o gosto tradicional desse alimento. Ou seja, o produto mais proteico foi rejeitado em função de paladar", contou Pavan.

De acordo com o professor, os transgênicos passaram por uma situação parecida. Para ele, a "briga" provocada pelo Greenpeace, que queria combater a Monsanto

(empresa americana fabricante de alimentos geneticamente modificados), foi muito prejudicial. Neste momento, o professor deixa escapar que também discorda de alguns procedimentos utilizados pela empresa, mas continua seu raciocínio sem revelar detalhes.

"É óbvio que se o Greenpeace apenas criticasse o que a Monsanto está fazendo, não teria a mesma repercussão que teve colocando os transgênicos no meio do caminho. Ou seja, trata-se de uma atividade política e, para atingir um alvo, foi utilizado o combate aos transgênicos de uma forma, a meu ver, errônea. O posicionamento anti-novidades

é uma religião na sociedade. É uma necessidade que a humanidade tem - de não aceitar o novo - que está fora da realidade e que não é inteligente", alfineta Pavan.

O professor não é contra que os alimentos que possuem alguma modificação genética tenham as devidas indicações em suas embalagens, como já acontece. O que ele questiona é o fato de pessoas morrerem de fome porque a sociedade não lhes dá oportunidade de ter acesso à alimentação. "Se as pessoas preferem morrer de fome a consumir alimentos transgênicos,

é opção delas. O que eu combato é o fato de existir fome no mundo por razões sociais. Isso

é vergonhoso", diz o professor.

Por outro lado, Crowaldo Pavan cita que está ocorrendo um movimento, liderado pela Royal Society e pela Academia de Ciência dos Estados Unidos, que reuniu sete Academias de Ciência

(do Brasil, México, Índia, Japão e do Terceiro Mundo) num programa de utilização dos transgênicos e contra o patenteamento desses alimentos. Se for realmente exigido o patenteamento - que, por Lei, não pode ser eliminado

-, que seja feito de forma a favorecer os países pobres, os subdesenvolvidos.

"Eu tenho certeza absoluta de que se esse projeto fantástico se desenvolver, será a maior revolução social que deve ocorrer neste ou no póximo século. Isso resolveria, se não totalmente, pelo menos em grande parte, o problema da fome no mundo. E mais do que isso, resolveria um problema de injustiça social. Eu não vejo sentido em combater os transgênicos", ressalta o professor e cientista.

Cuidados x bons resultados

Em relação à dúvida que as pessoas ainda têm sobre possíveis males causados à saúde através da ingestão de alimentos geneticamente modificados, o professor diz que cuidados especiais devem ser tomados na produção desses alimentos. Se isso acontecer, não haveria nenhum mal que possa ser causado à população.

"Cuidados especiais devem ser tomados, sim. Mas, se não existissem esses critérios, nos Estados Unidos e na Europa não estariam sendo utilizados tantos alimentos transgênicos.

É claro que muitas coisas ainda têm que ser descobertas e que algumas conseqüências inesperadas podem surgir. Mas isso pode acontecer com qualquer novidade. Porém, os cuidados em relação aos trnasgênicos estão sendo tomados. É um absurdo de lógica perder a utilização dos transgênicos, porque é o sistema mais evoluído e mais perfeito de produção de alimentos", afirma o cientista. Segundo ele, existem metodologias aperfeiçoadas que permitem que os resultados sejam os desejados.

Para reforçar essa tese, Pavan cita o caso dos diabéticos.

"Os diabéticos utilizam insulina, que é produzida por bactérias de um gene humano. Ou seja, é um transgênico. Então, são coisas desse tipo que devem ser pensadas", salienta o professor/doutor Crodowaldo Pavan.

De acordo com o professor, para fazer o melhoramento de uma planta, leva-se muito tempo porque não existem métodos a serem seguidos. "Quando se fala em transgênicos, se você quiser aumentar a produção de uma determinada substância, basta pegar o gene da planta que produz essa substância e trabalhar. A partir daí, serão obtidos os resultados. Para saber se eles são bons ou não, basta testá-los. Com os transgênicos, você sabe qual foi a modificação feita e como aquilo foi produzido. Por isso é que eu considero o sistema mais perfeito de produção de alimentos", ressalta.

Ética

Todas essas questões envolvem a ética. Questionado sobre a legislação que regulamenta a ética científica no Brasil, o professor Pavan diz que ainda não

é uma legislação moderna. "Além disso, a ética pode valer para uma sociedade e para outra, não. Exemplo disso é que, nos últimos anos, na União Soviética e na China a quantidade de abortos têm sido maior do que a de nascimentos. E esses abortos são oficiais, não são feitos em clínicas clandestinas, como no Brasil", diz o cientista.

Nesse momento da entrevista, Pavan solta uma informação que assusta. Porém, ele diz ter certeza dessa realidade futura. "Uma questão muito importante para se discutir

é que, dentro de 50 anos, deve ser estabelecida a estabilidade demográfica. Quando isso acontecer, a espécie humana vai passar por uma grande mudança, porque vai ser tirada do indivíduo uma coisa intrínseca ao ser humano, que é ter filhos", afirma.

De acordo com o professor Pavan, quando essa estabilidade demográfica for instalada, cada pessoa poderá ter/criar apenas um filho.

"A mulher poderá ter quantos maridos quiser e o homem poderá ter quantas esposas quiser. Mas, ambos poderão ter apenas um filho. Esse é um problema muito grave, mas que vai ocorrer. A menos que aconteça um desastre muito grande, como uma guerra que dizime milhares de pessoas, que elimine a necessidade de se fazer isso. Mas, pelo que mostra a situação atual, com um número de um bilhão de pessoas nascendo a cada dez ou doze anos, isso vai ocorrer", analisa o cientista.

Transgênicos identificados

Em relação à apresentação dos alimentos geneticamente modificados que são colocados à venda, o professor diz que concorda com a exigência de que isso venha especificado nas embalagens. Porém, sua visão sofisticada e crítica (sempre) o leva a dizer que, se for para informar o consumidor, também deveria constar a quantidade de conservantes, acidulantes, corantes "e todos os antes" que existem nos demais alimentos e bebidas.

"Isso tem que ser feito com muito cuidado. Agora, o que eu realmente espero, é que o povo brasileiro não se deixe iludir com toda essa moratória que está sendo feita contra os transgênicos. Como eu já disse, ir contra isso seria um absurdo em relação ao pensamento lógico", finaliza o professor e cientista Crodowaldo Pavan.

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