Uma vida dedicada ao piano
Texto: Hélcio Pupo Ribeiro/especial para o JC Cultura
Hélcio Pupo Ribeiro escreve sobre o amigo e músico Carlos Guimarães
Artur Rubinstein, um dos maiores pianistas da história do piano neste século, disse, ao falecer, com 95 anos:
"Se houver gravadoras no céu eu farei discos!" Anteriormente falara, certa vez, respondendo a um repórter mais curioso: "Mestre, se o senhor deixar de estudar por algum tempo o que acontecerá?" A resposta veio franca e segura: "Se eu deixar de estudar por três dias, o público notará; se eu não praticar por dois dias, os críticos notarão... Se deixar de estudar um dia, eu notarei."
Conheci Carlos de Almeida Guimarães na década de 1940. Numa esplendorosa manhã de maio, fui contatado pelo telefone por alguém que falou, do outro lado: É o Hélcio? Aqui é o Ruben Coube. Está em minha casa um célebre pianista francês de nome Henry Jolles e gostaria que você o ouvisse. Pressuroso, dirigi-me à mansão dos Coube, situada na esquina da 13 de Maio com a Bandeirantes.
Lá estavam Ruben Coube, Carlos Guimarães e o artista parisiense Henry Jolles, este diante de um piano de cauda Essenfelder, de belo som. Foi a primeira vez que ouvi nosso Villa-Lobos soar com sotaque bem brasileiro, através de mãos estrangeiras, ressaltando gostosamente a malemolência popular de Impressões Seresteiras. Em seguida, deu-nos um Schubert autêntico com o Improviso Opus 90, n.º 3. Exultamos! Em minha mente ouvi as palavras de Mitsuko Uchida: "Schubert parece alguém tão solitário que sua música acaba sendo o triste lamento de um homem que vive no inverno, esperando uma primavera que nunca virá." A propósito, Ruben Coube já denotava visível vocação artística, tendo estudado com Olga Ramaciotti e, depois, por 2 anos, recebeu aulas de Carlos Guimarães, no Conservatório Musical de Bauru.
Simpático, sereno, de olhar vivo, Carlos ostentava um ar
às vezes superior, decidido, tal como "o senhor de todas as coisas". De alguma forma eu era a antítese dele e, nessa altura, com vinte e cinco anos, preparava-me para o casamento. Ele, mais jovem seis anos, vivia ainda livre e despreocupado dessa responsabilidade. Seu progenitor, homem austero, corretíssimo, de hombridade superlativa, era afinador de pianos, requestado graças ao ouvido de acuidade ímpar. Isto, uma das heranças que legou ao filho. Para eles, a arte dos sons, a música, era, como disse Cherbulioz "a única arte capaz de dizer o que as outras não conseguem".
A convivência e o passar dos anos, me autorizaram a chamá-lo Carlito, apelido de família. Com exceção de credo religioso, comungávamos das mesmas idéias políticas e sociais. Algumas vezes divergíamos. Uma delas, ocorreu na Discoteca de Bauru, de minha propriedade, no quarteirão quatro da rua Batista (hoje calçadão). Estava conferindo discos recém-chegados, quando apareceu Carlito. - Como é, Hélcio, há alguma novidade por aí? - Sim, aqui está o Concerto em Lá menor, de Grieg, com Rubinstein solista e Orquestra Filarmônica de Los Angeles, regida por Alfred Walenstein. A seu pedido, rodei o disco. Mal soaram os vibrantes acordes iniciais e a orquestra começava a cantar o primeiro motivo do tema principal, Carlito explodiu com um "para com isso! Esse sujeito (Rubinstein) devia ter vergonha de gravar... Tentei amenizar sua eloqüência, mas foi inútil e, retrucando, "você é um bobo, não entende nada de música", saiu pisando duro, desaparecendo entre o incógnito povaréu da rua...
A rixa perdurou por alguns meses, mas um dia nos defrontamos, olho no olho, mas não dente no dente. Dirigi-me a ele: escute aqui, Carlos, você não acha que estamos procedendo como dois garotos sem juízo? E estendi-lhe a mão que ele apertou e tudo terminou em gargalhadas...
1950. Carlito casou-se com a jovem Maria Abigail de Lima, nascida em São Paulo mas oriunda de tradicional família de Agudos. Foi um passo acertado que muito contribuiu para amenizar facetas do temperamento polemista do esposo.
Figura marcante em nosso meio musical, Carlos tinha ouvido absoluto, infalível, e uma adequação extraordinária para a difícil arte da interpretação musical.
É digno de ser lembrado o que escreveu sobre ele o pianista brasileiro residente em Nova York, em declaração por escrito: "Carlos Guimarães é, sem dúvida, uma das pessoas mais extraordinárias deste mundo. Sua elegância de toque, o refinamento, a leveza e a transparência de som, admiráveis". Guedes Barbosa exibiu-se em Bauru por duas vezes antes de falecer, com o apoio de Carlos e patrocínio cultural da Tilibra S/A, USC e Clube Amigos da Boa Música. Estava no auge, pois acabara de ser reconhecido pela crítica novaiorquina como um dos cinco maiores pianistas do mundo.
Carlos Guimarães tinha em sua casa dois excelente pianos de cauda inteira. Um deles Pleyel II, francês (o preferido de Chopin), está desativado. O outro, um soberbo Steinway americano, tem sonoridade excepcional e está em plenitude de afinação. O famoso Rubinstein tocou nele quando de uma de suas estadas em nosso País. Como bom judeu, no entanto, Rubinstein vendeu-o para a família Byngton, no Rio de Janeiro. Eis a estória de como veio parar em Bauru.
Graças ao relacionamento pessoal, amistoso e político, que o cidadão bauruense João Simonetti, fundador da emissora de rádio Bauru Rádio Clube PRG-8, com Getúlio Vargas, graças, também, aos entendimentos para cessão dessa emissora à Organização Vitor Costa do Rio de Janeiro, foi instalada em nossa cidade a primeira emissora-transmissora de TV do interior do Brasil, que recebeu o nome e prefixo de TV Bauru Canal 2. Foi um ato de extraordinário pioneirismo do idealista, o simpático João Simonetti. Com o pessoal da Vitor Costa veio o técnico de TV Anatole Rogatshenko, engenheiro-técnico de grande capacidade na
área de transmissão. Ele criou aqui o sistema denominado
"linkage" (ligação), que através de torres diversas possibilitava a transmissão à distância. Com a esposa, vinha na mudança um grande piano de cauda da marca Steinway. Explico. A senhora Rogtschenko era cultora do canto lírico. Daí, o piano em nossa cidade. Onde houvesse um piano, lá estava o amigo Carlos Guimarães. Da apresentação à amizade sólida, um passo. Mas, o tempo passando, influiu na esposa do Anatole. Parou de cantar e o piano foi vendido ao Carlos.
Bem afinado e melhor cuidado, o instrumento era a alegria dos que o ouviam com regalo, entre os quais, eu.
Um dia, o consagrado pianista Guedes Barbosa chegou a Bauru. Soube do piano, quis vê-lo e tocá-lo. Encantamento! Barbosa apaixonou-se por ele de tal forma que deixou um "A Quem Possa Interessar": "É um instrumento de grande qualidade, da safra dos "anos dourados" da Steinway americana, como é produzido nos dias de hoje. O potencial sonoro é extraordinário, mas há que fazer uma reforma na parte mecânica para que volte a ter sua beleza sonora original"
- Rio de Janeiro, 10/9/1990.
A restauração foi executada, graças, também, ao pianista Guedes Barbosa que, numa de suas viagens aos Estados Unidos, trouxe o "kit" completo com instruções da Steinway americana. De tal forma Carlos o amava que eu diria: se o piano fosse mulher, seria sua amante.
O destino, porém, inexorável como sempre, bateu
à porta dos Guimarães e levou nosso Carlos. Foi sepultado na tarde de 23 de agosto. Certamente levou consigo a maravilhosa voz do Steinway cujas cordas cantantes emudeceram, por enquanto.
Carlos de Almeida Guimarães, entretanto, não levou tudo consigo. Magnânimo, como de hábito, deixou-nos sua lembrança querida, aquela imagem tão pessoal e tão forte, plena de imensa sensibilidade, de amizade e acolhimento. "Era talentoso, generoso e bom, viveu muito para a sua arte", lamenta a esposa Abigail.
Seus compositores prediletos eram Bach, Beethoven, Chopin, Debussy, Ravel e Rachmaninoff, este venerado como uma divindade musical. Na galeria dos intérpretes, Rubinstein (tinha sobre o piano uma foto muito expressiva do virtuoso), Vladimir Horowitz, Cláudio Arrau, entre outros. O canadense Glenn Gould, com seus modos pessoais e esquisitos ao piano, provocava entusiásticos superlativos.
Vamos encerrar valendo-nos das palavras de seu amigo Antonio Guedes Barbosa, talvez quem melhor o compreendeu no campo quase etéreo da música: "A arte pianística de Carlos Guimarães mostra sua origem nos anos dourados do piano romântico. Ela absorveu a elegância, o refinamento de toque, a leveza e a transparência do som. A mim, muito beneficiou a convivência com ele e é com o maior entusiasmo que recomendo aos jovens pianistas iniciantes, que não percam a oportunidade de aprender com ele, suas lições de estilo e criatividade, sobretudo no mundo de hoje que conspira contra a beleza e o desenvolvimento do homem."
Assim era o amigo com quem eu também muito aprendi.