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Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Amor de pai... e mãe

Texto: Gustavo Cândido

Algumas crianças vão comemorar o seu dia, na próxima quinta-feira ao lado da pessoa que mais as ensinam, incentivam e protegem: o pai. É muito comum encontrar ou ouvir falar de casos nos quais as mães criam seus filhos sem a presença de uma figura masculina em casa, mas geralmente se esquece que existem muitos homens que acabam tendo que fazer também o papel de mãe, como o personagem de Tony Ramos na novela "Laços de Família", Miguel, que cuida de um casal de filhos depois da morte da esposa em um acidente.

Na vida real, no meio artístico, talvez figura mais notória que viva essa situação seja o cantor Ronnie Von, que nunca escondeu que foi "pãe" (pai + mãe) dos seus filhos e até escreveu um livro sobre o assunto. Assim como o antigo ídolo dos anos 60 ou o Miguel da novela, um grande número de homens se desdobra para criar os filhos sem uma mãe por perto, embora muitos prefiram não falar sobre o assunto porque têm medo de perder a guarda das crianças na Justiça.

"Quando minha filha nasceu, o meu casamento tinha acabado de terminar", conta o professor Adelino Ramos. "No início achei que iria perder minha filha, que ela iria crescer ao lado da mãe e nem ligar para mim", conta. Mas conforme Aline foi crescendo, Ramos não deixou de estar presente em nenhum momento de sua vida. Quando a mãe da menina se casou de novo ela preferiu ir morar com o pai. "Foi o dia mais feliz da minha vida", lembra Ramos. Hoje sua filha estuda fora mas ainda considera a casa do pai como sua.

"Isso não quer dizer que eles não valorizem o papel da mãe", salienta o microempresário Carlos Roberto Xavier, que cuida de um casal de filhos de 6 e 7 anos respectivamente. "Eles moram comigo desde que me separei da minha mulher, mas têm um ótimo relacionamento com ela e pelo menos aparentemente, não tiveram traumas pelo fato de eu ser, praticamente, pai e mãe ao mesmo tempo", diz.

Às vezes, nem é preciso morar na mesma casa para se considerar "pãe", como é o caso do embriologista Paulo Matheus. Separado há 6 anos, ele, na prática cuida tanto dos três filhos quanto a mãe dos garotos, com quem eles moram em São Paulo. "Eles sempre estão aqui comigo e quando é preciso eu vou para São Paulo, nunca deixei de ser atuante na vida deles", afirma Matheus. Segundo o embriologista, o fato de, em um certo momento da vida ter tido que se tornar um pouco mãe dos filhos não foi um problema, "para mim foi tranqüilo e acredito que para eles também", diz, lembrando que quando aconteceu a separação, seu caçula, Vítor, contava apenas com dois anos, o que o obrigava a andar munido com fraldas e mamadeiras. A ligação de Matheus com os filhos é tão grande que até em casos onde, naturalmente, a presença da mãe seria imprescindível para uma criança, como quando uma delas se machucam, é ele quem aparece, "muitas vezes quando algum deles cai e se machuca levemente, eles me ligam para saber o que fazerem", revela. A distância que separa o embriologista dos filhos deve diminuir brevemente, "moro em Bauru há dois anos, mas ainda faço muitos trabalhos em São Paulo. Assim que me estabelecer definitivamente aqui, eles devem vir morar comigo", comemora.

Pouco carinho?

A enfermeira A.M.S., de 28 anos, que se separou do marido há três diz que ele vive tentando ganhar a guarda do filho Lucas, de 5 anos, mas ela torce para que isso nunca aconteça.

"Acho que o pai nunca é tão carinhoso com o filho como a mãe é", diz sem medo de estar sendo preconceituosa.

"Isso é bobagem", retruca Marcos Vianna, que seu filho, Sérgio, de 8 anos, sozinho, desde que a mãe do menino faleceu. "O amor que se tem pelo filho é infinito e não dá para ficar medindo quem ama mais, a mãe ou o pai. No meu caso o destino quis que eu cuidasse do meu filho e faço isso da melhor maneira possível. Não acredito que o trataria diferente caso a mãe dele ainda estivesse viva", explica.

Adaptação

Na opinião da psicóloga Regina Furigo, o homem que assume a educação de uma criança deve procurar desenvolver um lado mais sensível, de capacidade de aproximação e de dialogar compreensivamente com o filho, ou seja, deve acentuar seu lado feminino. A psicóloga explica que o papel masculino dentro do desenvolvimento da personalidade da criança é trazer a estruturação. O psiquismo masculino para a criança traz a ordem, a disciplina, o cumprimento de normas e regras, enquanto o psiquismo feminino traz a estruturação, o amparo, enfim, o clima propício para a criança crescer. "Quando um homem assume a educação de uma criança ele deve fazer os dois papéis, senão a criança tende a desenvolver só o seu lado racional, predominantemente masculino", diz Regina Furigo.

A diferença de sexo dos filhos não deve fazer diferença nessa hora. O único ponto que a psicóloga explica

é que, no caso dos filhos homens, eles tendem a buscar no pai elementos da própria masculinidade, ou seja, buscam se identificar como homens, enquanto as filhas criadas pelo pai, normalmente, são mais carinhosas e apegadas, até para passar aspectos do mundo feminino que ele está tentando aprender para poder desempenhar no papel de educados dos filhos.

A psicóloga lembra que, em muitos casos os homens conseguem se adaptar a essa situação e até desenvolvem características tidas como femininas e passam a cuidar da alimentação e das roupas dos filhos, por exemplo. Marcos Vianna confirma: "passei a cuidar desde a tarefa de escola dele, até o que ele come no almoço, passando por suas roupas", diz sobre o filho Sérgio, "quando tenho alguma dúvida, falo com a minha mãe ou com minha sogra", confessa.

Crianças sem problemas

De acordo com a psicóloga infantil Marly Bighetti Godoy, as crianças são as que se adaptam facilmente à situação, quando é apenas o pai é quem cuida delas. Segundo ela, é mais difícil para o homem estar com uma criança nas mãos do que para as crianças estarem sem a figura materna, porque os preconceitos vêm dos adultos. "Um homem tem mais dificuldade em trocar fraldas, ou fazer coisas para as quais ele, aparentemente, não leva jeito, do que uma criança em aceitar que uma pessoa inexperiente faça isso", diz.

Caso o pai se adapte, "treine" e aprenda a cuidar da criança, o modo como ele vai criá-la não vai ser traumatizante e menos eficiente. "Basta querer fazer, não é difícil. Desde que tenha carinho, firmeza e atenção, a criança não vai ter problemas em lidar com o fato do pai estar a criando", diz Marly Bighetti Godoy. "Tudo vai depender do adulto, se ele estiver com a criança por que quer e não por imposição, tiver paciência e se dedicar a ela, tudo bem", diz.

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