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Família

Eva Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

Modelo contemporâneo tem 196 combinações possíveis de família

Texto: Eva Rodrigues

Para pesquisadora, uma família sem conflitos é preponderante para o desenvolvimento humano equilibrado, independente do modelo adotado

"A família é o primeiro grupo socializador da criança e como tal assume papel fundamental em todas as áreas do desenvolvimento, seja cognitivo, social, emocional." A afirmação unânime entre psicólogos traz, dentro de uma perspectiva contemporânea, um questionamento fundamental: de que modelo de família estamos falando?

A psicóloga com doutorado na área do desenvolvimento humano da Universidade de Brasília (UNB), Maria Auxiliadora Dessen, observa que hoje não se fala mais em núcleo familiar tradicional. "Para compreender o desenvolvimento da criança é preciso entender a sua inserção dentro dos vários tipos de famílias que surgiram nas últimas décadas em função de transformações sociais", aponta.

Que modelos são esses? A estudiosa coloca a dificuldade nessa classificação ao lembrar que a combinação de 14 fatores - casados legalmente ou não, casais com ou sem filhos, renda compartilhada ou não, casais com filhos adotados ou próprios, entre outros - chegou a 196 tipos diferentes de famílias. "Precisamos conhecer essas situações de um modo científico para saber as implicações que estes diferentes modos de vida teriam no desenvolvimento da criança. Mas com a rapidez das transformações sociais que experimentamos não tem havido recursos humanos para estudar as alterações dentro dos diferentes tipos", declara Auxiliadora. Como não há números brasileiros, ela cita um exemplo de fora: quase 50% das crianças no Reino Unido moram em famílias com apenas um genitor. "Isso é um sinal de que a família nos moldes tradicionais vem desaparecendo."

Sem respostas definitivas, a psicóloga fala apenas em estudos de casos que apontam indícios de que a palavra família nos dias atuais pode remeter a formas de relacionamento socialmente impensáveis há alguns anos: "Em 1997, foi publicado um livro na Inglaterra sobre crianças criadas em lares com homossexuais femininas e foi uma revolução grande porque se esperava que essas crianças tivessem problemas no decorrer da adolescência e início da vida adulta e nada foi detectado".

Possíveis efeitos prejudiciais verificados de um modelo para outro de família não são conhecidos.

"Mas a crença popular de que para um desenvolvimento saudável é necessária a presença do pai e da mãe biológicos não é verdadeira. Há consenso na literatura de que a qualidade das relações

é o fator preponderante", reforça. Nesse sentido, explica, há estudos comprovando que crianças se desenvolvem melhor em lares após o divórcio do que crianças criadas em lares onde há conflitos entre os casais.

Modo de vida brasileiro

Há que se considerar, em todo estudo sobre o desenvolvimento humano, o modo de vida e as peculiaridades locais. "No Brasil, por exemplo, há um grande suporte dos avós na família, diferente da Europa. Daí a importância de estar coletando dados que façam sentido dentro da própria cultura", coloca a pesquisadora.

Do ponto de vista psicológico, Auxiliadora afirma que a definição de família está diretamente relacionada a fatores de intimidade e de transmissão intergeracional. Nesse âmbito, há mudanças perceptíveis que ocorrem ao longo do tempo - os laços de sangue, por exemplo, que significavam uma ligação muito forte, foram se perdendo com o passar dos anos. Sobre uma definição do povo brasileiro para família não há dados claros. "O que a gente percebe é que as concepções vêm mudando. Nas últimas pesquisas sobre conceito de família um dado curioso é que os animais de estimação estão sendo incluídos", conta.

Papel do pai

No pós-doutorado desenvolvido na Inglaterra, a psicóloga Maria Auxiliadora Dessen estudou o "Papel do Pai no Desenvolvimento da Criança". Ela observa que dentro das mudanças culturais e sociais ocorridas no mundo, três modelos de pais se delinearam nos últimos 50 anos. O pai tradicional, cujas atividades estão centradas no trabalho - a ele compete prover a família; pai moderno, que teve a mudança caracterizada nas décadas de 60/70 e começou a se preocupar com o desenvolvimento da criança principalmente nas áreas cognitiva e do papel sexual; pai emergente, aquele que vai dividir com a companheira/mãe de maneira mais igualitária as atividades domésticas e os cuidados com os filhos.

Já o papel da mãe, explica a pesquisadora, "sempre foi muito claro: se o pai é o provedor ela é a responsável pela educação e cuidados com o filho, independente de trabalhar ou não. Isso é mundial, mesmo que se apresente de maneira mais forte ou mais fraca em determinados lugares".

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