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Sydney

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Analisando o fracasso

Texto: Gustavo Cândido

Todo mundo se perguntou na última semana o que aconteceu com o Brasil nas Olimpíadas de Sydney. A psicóloga Rosana Ramos, pode ter a resposta.

Apesar de ter sido a segunda melhor campanha do Brasil em Olimpíadas

(só perde em número de medalhas para Atlanta 96, com 15), Sydney 2000 vai ficar marcada como a competição na qual o País chegou mais perto de vencer por várias vezes e não conseguiu. Foram seis medalhas de prata, o que significa seis finais perdidas e mais seis de bronze, ou seja, uma derrota importante na semifinal. A psicóloga e professora titular da disciplina de Psicologia do Esporte na Universidade de Marília, Rosana Amador Ramos falou ao JC sobre a psicologia do esporte e o desempenho das equipes brasileiras na Austrália e apontou alguns detalhes que podem ter sido responsáveis pela falta do ouro nacional no quadro de medalhas.

Jornal da Cidade - Quando surgiu a psicologia do esporte?

Rosana Amador Ramos - O "jogo" é uma atividade física ou mental organizada por um sistema de regras. É uma atividade lúdica, pois joga-se pelo simples prazer de realizar esse tipo de atividade. Jogar é uma atividade natural do ser humano. Absorve o jogador de forma intensa e total, criando um clima de entusiasmo, pois na situação de jogo coexistem dois elementos: o prazer e o esforço espontâneo. É este aspecto da envolvimento emocional que torna o jogo uma atividade com forte teor motivacional, capaz de gerar um estado de vibração e euforia. Já ao fim do século XIX existiam estudos e pesquisas relativas a questões psicofisiológicas no esporte. Nos anos 20 surgiram os primeiros laboratórios e institutos de Psicologia do Esporte: na antiga União Soviética nos Estados Unidos, no Japão e na Alemanha. A Psicologia do Esporte ainda é uma ciência muito recente, que precisa se desenvolver em muitas áreas. O desenvolvimento da Psicologia do Esporte na América Latina teve início nos anos 70. O Brasil tem uma posição de liderança na América Latina na área da Psicologia do Esporte. Segundo Nietzsche, a Psicologia do Esporte analisa as bases e efeitos psíquicos das ações esportivas, considerando por um lado a análise de processos psíquicos básicos

(cognição, motivação, emoção) e por outro lado a realização de tarefas práticas do diagnóstico e da intervenção.

JC - A psicologia seria tão importante quanto o treinamento físico ou tático para uma equipe?

Rosana - Segundo Kátia Rubio, coordenadora da recém-criada Comissão de Esportes do CRP-SP, do ponto de vista técnico, os times profissionais costumam estudar seus adversários nos mínimos detalhes, querem conhecer suas jogadas, seu posicionamento, suas táticas de jogo. Do ponto de vista psicológico, existe também a mesma possibilidade: pode-se estudar o comportamento do adversário e desse modo conhecer suas estratégias e fragilidades emocionais. A preparação psicológica é a parte do treinamento desportivo que tem por objetivo possibilitar ao atleta atingir o máximo de suas potencialidades, sendo fundamental que o treinador conheça seu atleta e saiba conduzi-lo no treinamento e conseqüentemente na competição.

JC - O que aconteceu com as jogadoras e os jogadores de vôlei do Brasil nas Olimpíadas?

Rosana - Começaram jogando bem, mas o estado emocional, a pressão psicológica da mídia, sociedade, acabaram mexendo com a estrutura física e psíquica da equipe. A cobrança psicológica e das medalhas de ouro em cima deles, fizeram com que acabassem perdendo, pois jogar sobre pressão e não por prazer é muito diferente. Até o Guga, que está acostumado a ganhar todas perdeu nas Olimpíadas. A diferença é que nas outras competições ninguém cobra vitórias dele e nessa ele tinha toda a pressão de representar o país.

JC - E o futebol, que sofreu derrotas inadmissíveis para a África do Sul e Camarões e ainda sofreu para ganhar do Japão?

Rosana - No caso deles foi deferente. Eles chegaram de

"salto alto", muito confiantes, como se fossem os donos do mundo e também foi atribuído muito poder ao técnico

(treinador) da seleção, ao senhor Wanderley Luxemburgo. Volto a falar, houve muita pressão psicológica da mídia, TV, e do Brasil em cima da medalha de ouro. Eu não os percebi em ritmo de concentração. Houve muito marketing e pouca concentração e pouca preparação psicológica também.

JC - No caso do volêi de quadra, tanto o time masculino quanto o feminino recuaram quando sentiram que poderiam perder o jogo. O medo atrapalhou?

Rosana - Quando eles sentiram que poderiam perder, ficaram com medo avançar e buscar a vitória. A verdade é que os brasileiros, no geral, foram treinados apenas para ganhar, para chegar em primeiro e não estão acostumados com a idéia de derrota. Quando isso passa pela cabeça deles ou acontece, ficam arrasados.

JC - O que a senhora acha da postura do Romário, por exemplo, que chama para si a responsabilidade, diz que vai fazer e acontecer e realmente faz e acontece. A seleção ou os atletas brasileiros não deveriam ter uma postura assim, um pouco mais arrogante ao invés de ficar bancando o humilde sempre?

Rosana - Isso é positivo e não é, dependendo de como cada um trabalha isso. Se ele afirma isso como forma de se motivar e ele tem talento para fazer o resultado acontecer

é positivo. Agora se está na cabeça dele que ele é o bom, o auto-suficiente, pode ser negativo.

É preciso saber se a pessoa está se vangloriando, se achando "a boa" ou se a percepção dela

é essa mesmo.

JC - Mas, por exemplo, nos jogos de volêi de praia as duplas brasileiras eram visivelmente melhores e mais técnicas e perderam por descontrole. Não seria o caso de entrar na quadra mais consciente do seu poder, como quem diz: "eu sou melhor eu vou vencer", intimidando o adversário?

Rosana - Seria positivo porque seria ousado. Todo atleta tem que ser um pouco ousado, ambicioso. Quando ele entra em campo ele deve deixar todo o resto fora e partir para a vitória. As meninas do vôlei eram mais talentosas do que as outras, mas sofreram muito com a pressão e a ansiedade. Uma certa arrogância e ousadia teria sido positivo.

JC - Por que alguns atletas, mesmo sem preparação psicológica ou favoritismo de vez em quando vencem competições importantes?

Rosana - São pessoas que conseguem administrar o seu equilíbrio emocional melhor do que outras, não sentem tanto a pressão externa e competem para vencer.

JC - Hoje o trabalho da psicologia no esporte é fundamental?

Rosana - Sem dúvida, é importantíssimo que os clubes e times invistam nessa área em todas as modalidades. As artes marciais são os esportes nos quais os atletas possuem uma preparação maior porque elas têm uma origem oriental que têm tradição de equilíbrio emocional.

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