Escola bauruense recebe prêmio de FHC
Texto: Josefa Cunha
Desenvolvido pela escola estadual Iracema de Castro Amarante, o trabalho envolveu alunos de 2.ª série e recebeu prêmio das mãos de FHC
Quando começaram a utilizar experiências concretas do cotidiano para aprimorar o ensino aos seus alunos de 2.ª série, as professoras Maria Angélica de Carvalho Fraga, 44 anos, e Arcione Rodrigues Ducatti, 56, da Escola Estadual Iracema de Castro Amarante, não imaginavam a repercussão que o método diferenciado iria alcançar. Pouco mais de um ano depois, entretanto, viram seu trabalho premiado pelo Ministério da Educação como um dos 15 vencedores do Prêmio Incentivo à Educação Fundamental, entregue anteontem, em Brasília, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Na verdade, o prêmio foi dado em nome de Maria Angélica, já que cada escola podia concorrer com apenas um participante, mas as duas dividem a honra sem nenhum problema. "Foi pelos nossos alunos e por nossa escola", comemoram, sem vaidades pessoais.
Em 1999, as professoras já haviam ensaiado o uso do concreto para o aprendizado multidisciplinar, mas foi neste ano que o projeto se alavancou. Tudo começou no último semestre, com uma dinâmica de grupo na quadra da escola, quando os alunos
- a maioria com 8 anos de idade e de procedência humilde
- foram convidados a conhecer a estrutura de um bairro. "Depois que todos responderam o que achavam sobre o assunto, saímos para um passeio pelas ruas próximas à escola. O objetivo era fazer com eles observassem tudo o que estava em volta, desde os números das casas e sinalizações de trânsito até o que havia de estabelecimentos comerciais", contou Maria Angélica.
De volta à classe, todos passaram a contar e a desenhar o que viram. As percepções pessoais de cada um transformaram-se em tema para dissertações, pesquisas, aulas de matemática, ciências e críticas sobre a infra-estrutura. "Eles viram, por exemplo, canos de água vazando e souberam que aquilo era um tipo de desperdício. Quando entrevistaram uma moradora antiga daqui, ficaram sabendo que ela foi uma das principais articuladoras para a vinda da rede de água para o bairro", destacou Arcione.
Já familiarizados com o assunto, os alunos, provenientes de bairros como Santa Edwirges, Vânia Maria, Rosa Branca e Jaraguá, receberam a missão de observarem os aspectos dos locais onde moram. Através de mapas, localizaram as ruas de suas casas e os trajetos que percorrem diariariamente até a escola. Nessa etapa, foi feito um trabalho de colagem de linhas sobre o mapa indicando os itinerários, o que, involuntariamente, lhes apresentou noções de geometria.
Na seqüência, elaboraram um levantamento geral sobre seus bairros, contando o número de escolas, creches, casas comerciais, áreas de lazer e espaços sociais. O mesmo levantamento foi feito pela única aluna da classe proveniente da zona "nobre" da cidade - o Jardim América.
"Com os números em mãos, montamos um gráfico para fins de comparação. Obviamente, os que moram na periferia concluíram que a zona sul é melhor para se viver em termos de infra-estrutura. Paralelamente a essas discussões, trabalhei com eles recortes de jornais antigos, especificamente com matérias destacando os problemas que o Jardim América também enfrentava. Eles também concluíram que a zona sul foi privilegiada na ordem de benfeitorias. Um ou outro chegou a questionar a razão do tratamento diferente uma vez que todos pagam os mesmos impostos", recordou Maria Angélica.
Os pequenos estudantes também pesquisaram os principais problemas de seus bairros, notadamente sobre os aspectos de saneamento básico, asfalto e segurança. Nessa etapa, eles experimentaram, pela primeira vez, o retorno concreto daquilo que estavam fazendo. A falta de água constatada em algumas localidades foi logo sanada pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE); os esgotos lançados a céu só não teriam sido consertados ainda porque estariam localizados em lotes sub judice
(no polêmico loteamento do pecuarista José Amir Neme Mobaid).
O retorno mais significativo obtido, no entanto, foi na questão da segurança pública, considerada prioridade na opinião dos alunos após o levantamento. Todos se empenharam em passar abaixo-assinados nos bairros em que vivem para o encaminhamento à Base Comunitária de Segurança Noroeste. Não tardou para que o efetivo saltasse de 44 para 65 policiais, o número de viaturas subisse de seis para 11 e para que fosse implantado o policiamento de bicicleta, além de outras importantes melhorias. A conquista mais preciosa, porém, talvez tenha sido a presença do comandante da Base Comunitária na escola. "Foi nessa hora que eles se sentiram realmente os agentes da mudança, que perceberam que podiam alterar o destino das coisas. A partir daquele momento, todos passaram a ter mais iniciativa, ser mais críticos e exigentes dentro e fora da escola. Os próprios pais contaram para gente que o comportamento deles em casa havia mudado", orgulha-se Maria Angélica.
Outro trabalho interessante desenvolvido foi com relação ao desperdício de água. Os estudantes aprenderam o que significava um hidrômetro e como fazer a leitura do consumo. Foi pedido a todos que levassem as contas de água para escola. "Depois das explicações de como economizar, fizemos a comparação dos gastos de um mês para o outro, e a diferença estava lá. Eles próprios fizeram uma cartilha sobre como evitar o desperdício e passaram a cobrar dos pais procedimentos de economia."
Todo o trabalho desenvolvido na escola, em casa e junto à comunidade foi encerrado com um jornal elaborado pelos alunos. Eles definiram os assuntos que seriam abordados (pauta), correram atrás de entrevistas, escreveram as matérias, fizeram desenhos em quadrinhos, inseriram receitas, classificados de seus bairros e notas sociais.
Essa e todas as demais ações foram relatadas, com os respectivos materiais disponíveis, no trabalho inscrito no concurso promovido pelo Ministério da Educação. Seus resultados práticos, compilados nesta matéria e bem mais ricos na realidade, foram, sem dúvida, merecedores da premiação, mas, sobretudo, fundamentais para a formação de cidadãos do futuro.