Geral

Pronto-Socorro

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 5 min

AHB limita internações e cirurgias

Texto: Josefa Cunha

Não bastassem os problemas evidenciados ao longo desta semana sobre a rede pública de Saúde de Bauru, notadamente o Pronto-Socorro Central, questões relacionadas às unidades de referência hospitalar de atendimento ao SUS estão agravando a crise do sistema. O Hospital de Base, por exemplo, que é a retaguarda das unidades municipais de urgência e emergência, limitou temporariamente os procedimentos cirúrgicos e não estaria aceitando internações após às 22 horas. Ambas as medidas já haviam sido questionadas pela titular da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Eliane Fetter Telles Nunes, mas passaram a ser debatidas também pelo Conselho Municipal de Saúde, que teve reunião do pleno na noite de anteontem. Através de comunicado enviado à SMS no último dia 10, soube-se que a chefia de Serviços de Cirurgia Geral do HB cancelou todos os expedientes cirúrgicos dos dias 14, 15, 20, 26 e 30 de outubro. A justificativa seria a demissão de um dos plantonistas do serviço. A manutenção das cirurgias, segundo foi argumentado, sobrecarregaria os outros médicos dos setor, que já "trabalhariam gratuitamente e no limite de suas jornadas". Além disso, os profissionais teriam compromissos pessoais previamente agendados, sem possibilidade de desmarcá-los. Quando à limitação de horário para internação, a Associação Hospitalar de Bauru (AHB), mantenedora do HB, desmentiu qualquer ordem nesse sentido. Segundo informações da superintendência da entidade enviadas à Direção do Departamento de Urgência e Emergência da SMS, entendimentos administrativos internos decidiram que as internações seriam otimizadas até as 22 horas, direcionando-as para o PS Central. "Não existe e nunca existiram normatizações escritas deste procedimento, mas, enquanto tivermos vagas, elas serão dadas, não importando o horário e, sim, a necessidade dos clientes", garante o comunicado. Extra-oficialmente, entretanto, a história parece ser diferente. A secretária da Saúde disse que tem em mãos um relatório sobre um paciente traumatizado que não conseguiu vaga para internação. Ela contou outro caso, este de um homem ferido à bala que não conseguiu cirurgião para operá-lo. "São problemas internos do hospital e dos médicos que querem ganhar mais pelo plantão, mas decisões como essas não podem ser tomadas sem a prévia apresentação de alternativas. O HB é um hospital de referência e deve ser nosso parceiro. Da mesma forma que eles exigem que os pacientes do SUS passem pelo PS antes, eles têm que nos respaldar prestando o tratamento necessário", considerou Nunes. O problema da falta de vagas, que acaba obrigando pacientes a ficarem internados durante vários dias nas precárias instalações do PS Central, já poderia ter sido minimizado se as obras de ampliação do Hospital Manoel de Abreu estivessem concluídas - apenas uma das três enfermarias previstas foi entregue. Nos bastidores, comenta-se que todo o recurso - R$ 400 mil - enviado pelo Governo do Estado para a obra foi consumido. A ala concluída teria consumido R$ 200 mil, mas a destinação do restante seria desconhecida - suspeita-se que tenha sido empregada no custeio de despesas do próprio Manoel de Abreu. Por conta disso, as obras ainda por fazer estariam "andando" a passos lentos. Por conta desses e outros fatos, o Conselho Municipal de Saúde estará cobrando esclarecimentos junto à diretoria da AHB e ao interventor nomeado pelo Estado para levantar a real situação da entidade. "Queremos explicações quanto à utilização das verbas nas obras do Manoel de Abreu e às recentes medidas restritivas. Também vamos convidar o doutor Cid Pimentel, interventor do Estado, para prestar alguns esclarecimentos. Afinal de contas, ele está aqui em Bauru desde o ano passado para apurar a situação da associação, mas não ficamos sabendo de nada até agora. A vinda dele, aliás, foi justamente para averiguar os motivos da AHB para as constantes interrupções e ameaças de suspensão de atendimento que abalaram a Saúde em Bauru no ano passado", expôs Maria José Majô Jandreice, presidente do Conselho Municipal de Saúde. Tanto Secretaria quanto Conselho Municipal de Saúde insistem na necessidade mais do que urgente de a AHB e o município estreitarem parceria para garantir atendimentos mais adequados à população. De nada adiantarão mudanças na rede básica e, principalmente nos Prontos-Socorros, se não houver a retaguarda das unidades hospitalares para a continuidade dos tratamentos, seja em internações, cirurgias, exames específicos ou outros procedimentos. A reportagem do JC tentou contato com a AHB na tarde de ontem para ouvir a diretoria sobre os assuntos em questão. Segundo informou uma atendente, o superintendente Afonso Viviani não se encontrava, e o presidente Joseph Saab, estava em reunião. Apesar de solicitado, Saab não retornou à chamada.

Sem resposta

A Secretaria Municipal da Saúde está há quase um ano esperando resposta da Associação Hospitalar de Bauru sobre uma proposta para ampliar os serviços de raios-x, hoje "comprados" da entidade pelo município. Em novembro do ano passado, a Secretaria propôs a cessão de um aparelho de radiografia à AHB, uma vez que não dispõe de espaço físico para instalá-lo nas unidades de urgência e emergência. Na época, o assunto foi levado ao Conselho Municipal de Saúde, que acatou a idéia mediante a condição de a AHB parar de cobrar pelos exames e aumentar o número das cotas mensais. Para o município, colocar o aparelho em funcionamento geraria muitos custos, a começar pela necessidade de se contratar médicos radiologistas e operadores da máquina. A AHB, que já dispõe de equipe para o serviço, ficaria responsável pela manutenção e despesas do equipamento, podendo usufruir como bem entendesse. Até hoje, a entidade não teria se manifestado em relação ao assunto. "Não aceitaram, não rejeitaram e nem mesmo pediram tempo para avaliar a proposta", lamentou Majô Jandreice, presidente do Conselho Municipal de Saúde. O silêncio da Associação seria o mesmo para um pedido de cessão de espaço dentro do HB para cirurgias na área de otorrinolaringologia. Seis profissionais do Centrinho teriam se disposto a operar gratuitamente se o espaço fosse concedido, mas a AHB estaria fazendo exigências burocráticas para aceitar o procedimento. Enquanto isso, cerca de 1.000 crianças aguardam na fila por uma cirurgia do tipo.

Comentários

Comentários