Estou acompanhando as reportagens que o JC vem publicando nos últimos dias sobre o problema das pichações em Bauru. Aliás, problema, não, porque pichação não é problema, é uma manifestação. Acredito que essas pessoas que estão escrevendo ou concedendo entrevistas deveriam rever suas razões. Há um exagero da parte delas. Afinal, aqui em Bauru ainda não temos 100% dos prédios pichados.A melhor maneira de entender essa arte diferente que alguns grupos de jovens estão - digamos - "colocando para fora", da parte daquele que não se conforma com isso, é consultar as pessoas preocupadas com os direitos humanos. Ou imaginar o que elas têm a dizer. Como se sabe, são indivíduos contrários à pena de morte. Até aí, para muitos, tudo bem. Mas são contrários, também, à prisão perpétua, à palmatória e até contra o grito alto com quem delinqüe. O Brasil já está todinho sendo "ninado" em berço explêndido por essas pessoas. E é por isto que está muito bem. Elas, com toda certeza, terão também uma defesa, uma explicação e uma palavra de carinho para os pichadores, que são incompreendidos e até ofendidos por setores da comunidade. Esses jovens, muitos dos quais picham o corpo e tatuam os prédios, são valores que não têm merecido a devida atenção da cidadania irada. Eles são os carimbadores do Terceiro Mundo.Na natureza e nas sociedades, tudo tem o seu papel. O urubu limpa o Planeta das carniças, o besouro-de-chifre, que é cropófago, vai tombando o excremento em direção ao seu buraco, livrando um pedestre mais míope de uma pequena tragédia e abastecendo sua despensa. E os pichadores escrevem ou carimbam pelas cidades do Terceiro Mundo para deixar bem claro que aqui é o Terceiro Mundo, mesmo, e nem quer um dia chegar perto do Primeiro. Todos têm o seu papel e não me consta que as pessoas façam boletins de ocorrência contra urubus e besouros por causa de seu estranho trabalho.E por falar em boletim de ocorrência, as autoridades não deveriam dizer que estão investigando, mas sim o que está acontecendo com esses que picham o centro de Bauru, pois, na grande maioria, já estão todos identificados, com nomes, endereços etc., posto que já foram pegos em flagrante. Um amigo que possibilitou a prisão em flagrante de uma gangue me confessou que nunca mais ajuda a polícia. "O delegado me apresentou de surpresa à turma como o cidadão com C maiúsculo que possibilitou a prisão de vocês. Fiquei boquiaberto no momento, pensando que estava sonhando, aliás, em pesadelo. Será que essa gente não faz curso para proteger vítimas e cidadãos?"Bem, voltando à questão econômica, no dia em que cheguei a Tóquio, em dezembro de 1998, para ir até à cidade que seria o meu destino, tive, após desembarcar no Aeroporto Internacional de Narita, que atravessar a capital do Japão inteira. Como se sabe, é uma cidade muito maior que São Paulo. Durante o percurso, comentava com meus parentes o fato de não vermos nenhuma pichação. Pudera, a segunda maior economia do mundo só tem tempo para o trabalho, o estudo, as pesquisas. Pichação é coisa do Terceiro Mundo, daí a necessidade do trabalho desses nossos garotos. Caprichar na tinta sobre as bonitas pedras de Goiás ou de Minas, pintando ali o logotipo da incultura, deixando ali as marcas do ócio criminoso. Carimbar sobre o látex ou as pastilhas de nossas casas o sinal para lembrarmos sempre que aqui não é Tóquio, nem Los Angeles.Belas ruas, avenidas, praças e cemitérios, com bronze, mármore de Carrara etc., isto é tudo cafona! Démodé. Há um novo conceito segundo o qual a estética deste tempo é a imundície. O bonito virou feio e o feio é que é bonito. Quanto pior, melhor. Parte da humanidade está com a síndrome da minhoca: está preferindo os pântanos. Os homens estão procurando reencontrar a caverna, de onde saíram há milhares de anos. O jovem que concedeu a entrevista ao JC disse: "Nós vamos destruir a cidade". Se não fizermos nada, veremos em breve esta frase no lugar de "Custos Vigilat" ou de "Ordem e Progresso". Nossas autoridades, os bauruenses mais inteligentes e sensatos, têm que optar: com energia, vamos fazer com que os valores avancem ou estaremos também retornando às cavernas. A Bíblia diz que o homem é barro. Estaria virando escarro?(*) O autor, B. Requena, é membro da Academia Bauruense de Letras e editor de Internacional do JC
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