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Diabetes

Redação
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Atividade física, remédios inteligentes e uma dieta que até pode abrir espaço para um uísque ou um docinho estão revolucionando o dia-a-dia de quem tem diabetes do tipo 2. Lojas especializadas e supermercados oferecem de biscoitos recheados a paçocas e cocadas diet, isso sem falar em congelados de baixa caloria - mas onde o que não falta é sabor. Esse é o lado bom de uma história que até pouco tempo atrás era sinônimo de privação e sofrimento. O lado ainda sombrio é que a incidência da doença está crescendo de mãos dadas com a epidemia mundial de obesidade. Muita gente nem sabe que tem a doença e não são poucos os profissionais de saúde que nem desconfiam que o tratamento mudou. Médicos como os que atenderam Rosalina Costa di Loreto há três anos. "Foram logo me proibindo de comer isso e aquilo e mandando que eu tomasse insulina", afirma. Mas as taxas de açúcar não caíam e ela não emagrecia. "Pensei que fosse morrer", conta. "Fiquei insuportável, nem eu mesma me agüentava." Os médicos diziam que se conformasse, que diabetes é assim mesmo. Até que um dia a filha a levou a outro médico. "Ele tirou minha insulina, receitou dois comprimidos para diabetes e um para emagrecer, disse que eu podia comer de tudo e devia fazer caminhadas; pensei que fosse maluco", confessa. Ela, que tinha taxa de glicemia de 425 mg/dl em jejum, vive hoje com meros 150 mg/dl após as refeições. "Estou ótima, como de tudo, emagreci quase 12 quilos e estou pensando em fazer uma plástica ainda este mês, para estar em forma no verão", diz a dona de casa de 52 anos, que mora em Santos e faz caminhadas diárias, das 9 horas ao meio-dia, na praia. Mau negócio"Diabetes de tipo 2 não tem nada a ver com açúcar, mas sim com gordura", explica o "maluco" em questão, o endocrinologista Alfredo Halpern, livre docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. "O problema é particularmente grave nos países em desenvolvimento, onde as pessoas passaram da pobreza alimentar para uma dieta rica em gordura, no que eu chamo de cocacolonização", afirma Bernardo Léo Wajcenberg, de 74 anos, aposentado que continua a ensinar o que aprendeu em 48 anos como diabetólogo com um pique invejável. Hambúrgueres, cachorros-quentes, batatas fritas e refrigerantes substituíram o arroz, feijão, salada e bife com resultados desastrosos por aqui. Os americanos, aliás, nada têm a ensinar sobre alimentação: são campeões mundiais de obesidade e só entre 1990 e 1998 os casos de diabetes tipo 2 cresceram 33% no país. "Já há casos de crianças de 5, 6 anos com diabetes de tipo 2, que antes se pensava ser exclusividade de adultos", diz Halpern. A comida gordurosa, aliada ao sedentarismo incentivado pela dupla televisão-computador, completa a receita desastrada: mais obesos, mais diabéticos de tipo 2 e cada vez mais jovens. Diagnóstico difícilQuando o diabetes de tipo 2 é diagnosticada, a pessoa já tem a doença, em média, há dez anos. "Isso significa que pode ter complicações", explica o professor Bernardo Léo Wajcenberg. E isso vale até para pessoas que, como Cláudio, estão certas de que cuidam da saúde. Tudo por causa da taxa de glicemia em jejum que é só o que médicos costumam pedir. "Esse teste não serve para detectar o diabetes nesse estágio; o correto seria fazer o exame após as refeições", afirma o especialista. A taxa de açúcar pode estar normalíssima, mas após um almoço ou jantar, sem que ninguém desconfie, pode disparar para 170, 200 mg/dl e depois baixar silenciosamente. Quer dizer, o paciente já é diabético, mas nem ele nem seu médico sabem disso. Pâncreas, rins e vasos sanguíneos já estão se desgastando, mas não há dor, não há desconforto. O diabetes de tipo 2 é, na verdade, uma síndrome metabólica caracterizada em 80% a 90% dos casos por obesidade, diabetes propriamente dita, alta de colesterol e triglicérides, hipertensão e aumento do ácido úrico. Todos são fatores que levam a doenças cardiovasculares, a principal causa de morte de diabéticos que não se cuidam. O doente não morre porque comeu uma fatia de bolo e entrou em coma como muita gente ainda pensa. Segundo Wajcenberg, entre 20% e 30% dos casos de enfarte agudo do miocárdio que dão entrada no Instituto do Coração são de diabéticos - e é assim que muitos descobrem que têm a doença. Outros tantos são vítimas de derrame, principalmente se, além de diabéticos, forem hipertensos. EmagrecimentoBom, se é assim, por que Rosalina e Cláudio estão tão animados? "Basta perder 10% do peso tradicional para tudo melhorar", garante Halpern. "A glicemia baixa, os triglicérides baixam, o colesterol cai, o HDL (colesterol bom) sobe e o LDL (colesterol ruim) cai e fica menos aterogênico - diminui seu poder de provocar as famosas placas que entopem as artérias." E quanto mais próximo do peso ideal, melhor. "Tem de emagrecer e o médico tem obrigação de dar remédio para o paciente emagrecer", observa Wajcenberg. Na dieta, não se trata de fazer o célebre "corta o pão, tira o macarrão, nada de arroz e feijão, manga nem pensar". A orientação é reduzir as gorduras e diminuir a quantidade do que se come (e aí é que entra a medicação), mas não o que se come. O cardápio para diabéticos elaborado pelas nutricionistas do Incor tem desde ninhos de camarões com alcachofra e tagliatelle ao lombo (de porco, sim) até pêra ao molho de chocolate e strudel de maçã, esta última com aval do chef Sérgio Arno, do La Vecchia Cucina. Outro cuidado é não pular refeições, o ideal é comer menos e mais vezes, com lanchinhos pelo meio da manhã, da tarde e da noite. Em resumo, a orientação que se dá hoje a qualquer pessoa que queira ter uma vida saudável. Faltou alguma coisa? Exercício! Atividade físicaNinguém ainda sabe ao certo por que, mas a atividade física diminui a resistência das células à ação da insulina. "A atividade física quebra o círculo vicioso do diabetes", explica o professor de educação física Carlos Eduardo Negrão, da Unidade de Reabilitação Cardiovascular e Fisiologia do Exercício, Incor. Quando a pessoa ganha peso e começa a ser resistente à insulina, também aumenta o nível de nor-adrenalina no sangue, provocando a vasoconstrição na circulação periférica, que causa hipertensão. "O exercício diminui a resistência à insulina, reduz a nor-adrenalina e melhora a pressão." O truque são 60 minutos de exercícios de três a cinco vezes por semana, divididos em 30 a 45 minutos de exercícios cíclicos (aeróbios) como caminhada, corrida, natação ou bicicleta e o restante de exercícios localizados, como abdominais e alongamento. "O ideal é fazer antes uma ergoespirometria, que vai medir a capacidade cardíaca e respiratória em situação de esforço, e depois dosar os exercícios para 50% a 60% da sua capacidade máxima", explica. Diabético obeso não pode entrar na primeira academia e malhar feito louco: é fundamental fazer antes o teste ergométrico pelo menos. "Faço esteira três vezes por semana, porque se eu não cuidar de mim, não vai ser o paciente que vai cuidar", diz Wajcenberg. "E se o diabético não tem dinheiro para ir a uma academia, pode muito bem caminhar, que é um ótimo exercício e já evita boa parte das complicações cardíacas", prossegue. "Esteira, bicicleta e caminhada são ótimos; o exercício pode baixar a taxa de glicemia em até 40%", reforça Halpern. "Tenho um paciente que se empolgou tanto que virou maratonista." Um bom número de diabéticos de tipo 2 já consegue controlar seus níveis de açúcar só na base da dieta e exercícios, o que é o ideal. E o que até pouco tempo atrás pareceria absurdo, hoje está na boca de muitos deles. Têm uma vida muito mais saudável agora que são diabéticos do que quando eram obesos e sedentários.

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