Excesso de liberalismo provoca problemas até em casa, que dirá na maior potência do Planeta. Os Estados Unidos estão condenados a protagonistas de uns dos papéis mais ridículos da história democrática, face a essa mania de manter intocadas regras de mais de 200 anos, em nome do princípio federativo. Lá, os Estados cedem muito pouco para a União e cada um prefere ter as suas próprias leis e jeito de fazer as coisas. Quem vai de Nova York para Washington por via rodoviária, quando entra no Estado de Delaware por uma ponte, dá de cara com uma placa - "Aqui, quem cospe na rua comete crime passível de prisão". Ao entrar na Virgínia o viajante já pode cuspir, trafegar sem o cinto de segurança mas, se apanhar uma flor no Cemitério de Arlington, onde estão enterrados os heróis da pátria, vai caçar encrenca. Em Washington, o turista vê muita gente com um saquinho de papel na mão. É proibido beber na rua. O povo disfarça deixando só a boquinha da garrafa para fora do invólucro. Nem todos os Estados têm pena de morte e, os que têm, matam do jeito que melhor lhes apetece - forca, fuzilamento, cadeira elétrica, câmara de gás, injeção letal.Na eleição presidencial cada Estado adota o seu próprio modelo de cédula. Há aquela de fazer xis; de perfurar; votação por máquina eletrônica; voto pelo Correio postado em qualquer parte do mundo e até voto antecipado. Quem não pode estar presente no dia da eleição, que não é feriado, pode votar antes. O voto nunca foi obrigatório.Em um pleito apertado, isso provoca uma confusão considerável. As cadeias de televisão gastam milhões de dólares para realizar pesquisas de boca-de-urna e divulgam seus resultados antes do término das eleições, já dando fulano ou beltrano como presidente virtual. O que interessa é sair na frente.Só na parte continental dos Estados Unidos há três fusos horários. Disso decorre que na Costa do Pacífico as eleições se encerram três horas antes que na Costa do Atlântico. Por isso, quando as eleições terminam no Connecticut, no Leste, às 19 horas, são 16 horas na Califórnia e em outros Estados do Oeste e apenas 14 horas no Havaí e em algumas partes do Alasca. As emissoras de rádio e de televisão, nessa altura, já estão divulgando o virtual ganhador. Em 1916, um candidato chamado Charles Evans Hughes foi dormir pensando que já era presidente dos Estados Unidos e, no dia seguinte, acordou com a notícia de que perdera para Woodrow Wilson.Nesse anacrônico sistema o voto popular não determina diretamente a escolha do presidente. Constitucionalmente, é o Colégio Eleitoral quem elege. Al Gore perderia para Bush mesmo tendo a maioria dos votos da população.Cada Estado possui um número de representantes no Colégio Eleitoral. A Califórnia envia o maior número de membros para o Colégio Eleitoral (54), equivalente à soma do número de deputados e senadores (dois por Estado) que possui no Congresso.Em 25 Estados os delegados eleitos não precisam ser fiéis ao partido. Houve somente um caso da delegação estadual se dividir. Aconteceu em 1888, quando Cleveland, com 1% a mais dos delegados, levou o chapéu de Benjamin Harrinson, uma espécie de Maluf da época. Este, cooptou uma vez os delegados da Arena e se elegeu governador de São Paulo, embora a maioria fosse de Laudo Natel, apoiado pela ditadura.São 538 delegados na totalidade: Gore tem 260 e Bush 246. São necessários 270. Somente com os 25 delegados da Flórida um ou outro conseguirá alcançar o índice mínimo.Embora muita gente pense que o sistema seja bi-partidário - Democratas e Republicanos -, existem 73 partidos nos Estados Unidos, inclusive Comunista, Nazista, Anarquista, Gay e por aí afora. Ralph Nader, o homem que inventou o Procon para o mundo e sempre foi o terror da indústria do seu país, pertence ao Partido Verde. Tomou muitos votos de Gore na Flórida e poderá ser responsabilizado por atrapalhar o candidato oficial. Já houve quem propusesse acabar com a celeuma com a velha tradição bíblica de distribuição de justiça. Salomonicamente dividir o mandato em dois anos para cada um.Essa ingenuidade me faz lembrar do assessor que perguntou após o atentado de John Wilkes Booth a Lincoln, ferido a balas quando assistia a uma peça teatral:- A despeito de todos esses atropelos, senhora Lincoln, gostou da peça?(*) Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC
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