Em uma certa altura da Avenida Nações Unidas, um carro à minha frente chamou-me a atenção pelo anúncio escrito no vidro traseiro, sobre um evento religioso, especificamente uma noite de louvor a Deus. Como o motorista mantinha uma velocidade bem reduzida, achei por bem ultrapassá-lo. Minha primeira tentativa, porém acabou fracassando, pois no exato momento da ultrapassagem, o carro cortou a minha frente vindo para a esquerda. Respirei fundo e esperei mais um pouco até que o veículo voltasse novamente para a pista da direita. O caminho estava livre para uma nova tentativa. Assim, procurei ultrapassá-lo, mas o carro voltou novamente para a esquerda. Então não tive escolha, acabei buzinando. O motorista, porém não reagiu imediatamente. Eu tive que esperar algum tempo para que ele voltasse à pista da direita. Neste exato momento pisei no acelerador e arrisquei uma nova ultrapassagem. Foi então que percebi que o amigo motorista conversava descontraidamente com alguém em seu celular. Continuei o meu caminho refletindo que a melhor forma de louvar ao Criador é pensar nos irmãos aqui na Terra, agindo eticamente. Ao contrário do que muitos pensam, ética não se constitui em um grupo de normas a serem obedecidas, mas sim em um conjunto de princípios que nos ajudam a refletir sobre a melhor forma de viver e sermos mais felizes. Viver eticamente, significa refletir sobre as diversas alternativas para nossa vida, escolher uma delas e agir de acordo com ela. Por exemplo, para uma tarde de domingo você pode escolher entre ficar deitado no sofá assistindo o Silvio Santos, visitar um amigo ou fazer uma caminhada contribuindo com sua saúde. Este tipo de escolha é entendida pelos filósofos existencialistas, como Jean-Paul Sartre, como a expressão primordial de nossa liberdade. Através dela podemos decidir o que gostaríamos de ser, pois afinal não somos seres imutáveis, estáticos e predeterminados. Nós não temos um objetivo preestabelecido, a não ser aquele que nós mesmos estabelecemos. Uma laranjeira, ao contrário, permanece sua vida toda em um mesmo lugar e possui um objetivo predeterminado: produzir laranjas. Para os seres humanos a única coisa preestabelecida é a própria existência, o resto depende de nós mesmos.Até aqui tudo é muito simples. O problema começa quando existe uma oposição entre ética e o nossos interesses pessoais. Quando isso acontece, estamos diante do que chamamos na ética de escolha fundamental. Aqui não está em jogo a melhor alternativa para o domingo, mas sim os valores que conduzem a nossa vida, aquilo que dá con-figuração ao nosso viver. Essa escolha fundamental exige de cada um de nós muita coragem, pois muitas vezes temos que agir contra os nossos próprios interesses e contra os interesses do grupo que pertencemos. Por exemplo, imaginemos que você possui um carro que está prestes a ter sérios problemas de mecânica, por isso deseja vendê-lo o mais rápido possível. Alguém se interessa pelo carro e ingenuamente pergunta a você se o motor está em perfeitas condições. Você responde: Até hoje não me deu problemas! Ele acaba confiando na resposta e compra o carro pelo dobro do preço que ele pagaria se soubesse que o carro estava prestes a ter problemas de mecânica. Você está consciente de que não foi correto esconder os problemas do carro ao comprador, mas se consola com o pensamento de que o dinheiro da venda do carro vai ajudar no pagamento das prestações da casa, e afinal de contas, o comprador deveria ser mais esperto e consultar, antes da compra, um mecânico. Neste caso você agiu de acordo com o seu interesse pessoal de livrar-se do carro, mas a ética porém...Sem dúvida, as escolhas fundamentais sempre estão presentes em nossas relações e diante delas possuímos liberdade suficiente para decisão e ação.Nós podemos aproveitar das pessoas ou podemos ajuda-las. Nós podemos ser coerentes com as nossas convicções ou simplesmente querer ser amados pelos outros fazendo exatamente aquilo que o nosso grupo social deseja que façamos ou sejamos. De uma forma ou de outra a reflexão sobre a ética em nossa vida é de máxima importância, caso o contrário vivemos em tristes contradições. Há pessoas que passam toda a sua vida sem se preocupar com perguntas como: O que significa para mim uma vida verdadeiramente boa e feliz? É realmente importante para mim, a qualquer preço, estar no centro das atenções? Vale a pena levar vantagem em tudo? Será que terei no fim da vida o prazer de poder dizer: eu fui feliz? Será que não estou representando um papel diante dos outros, deixando de ser eu mesmo? Como diz Philip Elmer-De Witt, Alguns fazem manchetes, enquanto outros fazem história(*) Especial para o JC Cultura
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