Estudante do 3º ano do curso de Arquitetura na Universidade Estadual Paulista (Unesp), a bauruense de 22 anos começou a fazer cenários por acaso, indicada por uma professora, há dois anos. Hoje, ela pode ser considerada especialista sobre o assunto em atividade na cidade. Com o aumento do número de peças e espetáculos em exibição em Bauru - muitos por causa da inauguração do teatro, segundo ela - a futura arquiteta já está com a agenda cheia até o fim do ano e para 2001. Um dia após a apresentação da peça Namoro, para a qual fez o cenário, esta semana, Rita falou ao JC sobre suas obras, técnicas e espetáculos. Jornal da Cidade - Como você começou a fazer cenários?Rita de Cássia Slompo - Foi meio sem querer. Comecei fazendo o cenário do espetáculo sobre o Cartola, no Sesc. Fui indicada por uma professora. Entrei meio de gaiata. Fiz o cenário, depois o adaptei para a apresentação no Teatro Municipal... mas tudo começou meio sem querer. Hoje eu adoro o que faço.JC - Você nunca havia trabalhado com isso, feito teatro?Rita - Já tinha feito teatro, mas por muito pouco tempo. Quando fiz o primeiro cenário aprendi na prática, não tinha feito nenhum curso antes. Depois, eu fiz um workshop sobre cenografia. Mas ainda é muito pouco. Tudo o que a gente faz ainda é muito experimental, vai pegando os materiais e tentando. A gente nunca sabe o que vai sair quando começa. JC - Quantos trabalhos desse tipo você já fez?Rita - Acabei de fazer o meu sétimo trabalho, que foi com o Paulo Neves. Ainda vou fazer mais dois trabalhos do Paulo esse ano e também já tenho mais um para o ano que vem de uma turnê que vai passar pelos Sescs. Na verdade tenho vários cenários para fazer no ano que vem. JC - Existem muitas pessoas em Bauru que fazem cenários?Rita - Não, acho que sou a única que faz especificamente isso. Existem algumas pessoas que de vez em quando fazem algo, mas é bem esporádico. A maioria dos grupos faz o próprio cenário ou não faz nenhum. JC - Que importância você atribui ao cenário em um espetáculo?Rita - Depende. Em um show musical ele é mais importante do que num espetáculo teatral, porque o teatro é muito ligado ao ator. Uma peça pode ser boa se tiver bons atores e nenhum cenário, mas nunca vai ser boa se tiver um cenário maravilhoso e atores ruins. Num show musical eu acho muito bacana, porque ele acaba se tornando um ícone do show, ele resume nele toda a linguagem do show. No show da Ana Person que eu fiz foi assim, fiz um trabalho de pesquisa de mais de seis meses. A gente pegou cada música e viu o que elas significavam... chegamos num cenário no qual todas as músicas estavam representadas, ele tinha algo de comum a todas as músicas. No teatro o cenário pode estar bastante ligado à ação, mas acaba sendo mais secundário mesmo. No show musical ele está na mesma altura. JC - A concepção dos cenários para esses dois tipos de espetáculos são diferentes já que no teatro existe um texto a seguir e no show musical, não. A criação pode ser mais solta?Rita - Sim, no cenário da peça Namoro, por exemplo, o principal elemento do cenário foi uma malha que eu coloquei no meio do palco para dividir o real e o imaginário das personagens. Quando elas ficavam atrás da malha dava a impressão de névoa. Para mim a peça seria só com a malha, só aquilo era o suficiente para a peça na minha visão. Mas não podia ser só aquilo, elas precisavam de mais objetos para trabalhar e desenvolver a história. Eu sempre reluto em colocar muita coisa no palco quando faço teatro, porque acho que o visual pode ficar poluído, mas é difícil. Quando faço um show musical posso trabalhar com idéias mais abstratas porque o cenário acaba sendo um pano de fundo, ninguém vai ficar mexendo nele. No teatro a interação com o cenário é grande, os atores precisam de um apoio. JC - Você tem um método de trabalho ou cada trabalho faz com que você desenvolva técnicas diferentes?Rita - Cada um é uma coisa diferente. Eu tenho o costume de sempre trabalhar com semiótica, então procuro fazer uma análise do que as coisas podem representar, não gosto de trabalhar com o óbvio, mas acho que cada peça é uma peça. Nos shows musicais eu trabalho em cima das músicas, mas numa peça de teatro eu pego o roteiro, leio e tento achar um significado para tudo, converso com os atores, com o diretor para saber se é aquilo mesmo o que eles pensam. No fundo eu sempre tento trabalhar com analogias, fugindo do óbvio. Acho que eu tenho um processo de trabalho, mas esse processo segue caminhos muito diferentes dependendo do espetáculo que eu tenho que fazer.JC - Você sempre trabalha sozinha?Rita - Sempre sozinha. É claro que sempre peço opiniões de uma ou outra pessoa, mas concepção geral e até colocar a mão na massa, sou só eu mesmo.JC - Por que você prefere ou por que não precisa de outra pessoa?Rita - Às vezes o pessoal de casa me ajuda, mas o que eu fiz até hoje não foi tão difícil a ponto de ter que chamar outras pessoas. Se preciso, minha irmã me ajuda. Mas opiniões eu sempre peço.JC - Você tem muitos trabalhos para fazer no futuro, isso é sinal de que os espetáculos têm aumentado ultimamente?Rita - Eu acho que sim. O intervalo do meu primeiro trabalho para o segundo foi bem grande se comparado com os espaços entre um e outro agora. Eu acho que agora estão descobrindo que existe alguém em Bauru que faz especificamente cenários. Muita gente tem vontade de fazer cenários, mas acha que vai ser muito caro, então desiste. Isso é uma coisa que eu penso, sempre trabalho com coisas baratas, com materiais alternativos, alguns cenários a gente olha e acha que foi gasto uma fortuna mas na verdade foi feito com apenas R$ 100,00 ou R$ 150,00. É claro que também dá mais trabalho...JC - Você acha que a inauguração do teatro está relacionada com o crescente número de espetáculos e shows nos quais você tem trabalhado?Rita - Com certeza. O teatro é um espaço muito bom para trabalhar porque a estrutura que se tem lá permite fazer muita coisa. Os shows e peças aumentaram na cidade por causa do teatro, sem dúvida nenhuma.JC - Você pretende continuar fazendo cenários?Rita - Eu pretendo fazer sempre, mas faço arquitetura e adoro trabalhar com edificações. Agora eu faço só cenários, mas sei que isso um dia vai virar uma atividade paralela. Mas não pretendo parar, é muito gostoso e dá um tipo de reconhecimento diferente e muito imediato.
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