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Especialista pede avaliação de coletivos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Para Archimedes Raia Jr., doutor em transportes pela UFSC, Prefeitura tem chance de monitorar serviço urbanoA licitação para a operação das linhas de ônibus da ECCB deve incluir, no edital, um sistema de avaliação de qualidade dos serviços no transporte coletivo urbano em Bauru. Quem defende a proposta é o professor de graduação e pós da Universidade Federal de São Carlos, Archimedes Azevedo Raia Jr., mestre e doutor em transportes. Para ele, a Prefeitura Municipal de Bauru tem nas mãos uma oportunidade ímpar de resolver o problema de custo e de racionalização das linhas dos coletivos, com a criação de um sistema de monitoramento, ondes as empresas seriam avaliadas sob diferentes aspectos, um deles o grau de satisfação do usuário. Archimedes Azevedo Raia Jr. comentou para o JC os principais pontos da modelagem do transporte coletivo. Ele concorda com a bilhetagem eletrônica ao invés do terminal de integração:Jornal da Cidade - Como o senhor vê a modelagem dos coletivos, que apontou problemas no sistema?Archimedes Raia Jr. - A questão das linhas realmente são em número excessivo. A cidade cresce e a administração expande determinadas linhas. Isso provoca a perda da racionalidade do sistema. Em um certo momento, as linhas formam um emaranhado irracional, onde o sistema tem que ser revisado. A redefinição das linhas tem que ser adotada em função da características do sistema, com o órgão gestor monitorando o sistema o tempo todo.JC - Qual o reflexo da entrada das duas novas empresas no sistema em função da organização das linhas?Archimedes - A entrada das duas novas empresas é um fator positivo, com parâmetro para o usuário comparar a qualidade do serviço. O que não foi positivo é que as duas empresas entraram no sistema e foi mantido a estrutura existente até então. Isso teve reflexo no custo do sistema, que continuou sendo rateado pela demanda decrescente. O custo do sistema aumentou. Se as linhas tivessem sido remodeladas o sistema não tinha inchado tanto.JC - A perda de 1,5 milhão de passageiros em cinco anos exigiria mudanças no sistema?Archimedes - Claro. A perda não ocorre só em Bauru. Em nível nacional a perda no sistema coletivo gira em torno de 30% a 40%. Isso se deve a maior acesso ao automóvel, o que é um erro para política pública de transporte. Em Bauru, com a manutenção da mesma estrutura, do custo, com uma demanda 30% menor, caiu a qualidade. Quando se esgota o custo, a qualidade do serviço cai, não tem milagre. Uma reorganização em linhas e número de veículos ajudaria a ajustar essa queda de demanda. Entraram duas novas empresas adicionando novos ônibus. O usuário agradece um ônibus a cada cinco minutos, mas precisa saber que isso custa mais caro.JC - Qual o parâmetro para o tempo médio ideal para a espera no ponto?Archimedes - O tempo de espera, ou headway, varia de acordo com a solicitação da linha. Em uma linha com maior demanda é ideal um intervalo de 10 a 15 minutos. Em linhas menos adensadas você pode ter até 30 minutos. Como índice de qualidade de serviço um headway acima de 30 minutos não é aceitável.JC - O estudo mostra que 22 linhas têm intervalos de 60 min. ou mais. Archimedes - É intolerável para uma cidade do porte de Bauru. Da mesma forma, 41 minutos de espera para o horário de pico de manhã é excessivo, um absurdo. Isso demonstra uma baixa qualidade do serviço. Em relação ao percurso dos ônibus, o índice de renovação de usuário no itinerário não é muito grande. Um índice de IPK de 1,95 é muito baixo, o que demonstra ociosidade no sistema. O ideal seria 3,2 de IPK. O morador tem direito a transporte. A questão é que a cidade tem que ter controle do planejamento, do crescimento da cidade.JC - O sistema precisa de racionalização então?Archimedes - Sim, e veja que o que tem acontecido é a retirada de carros das ruas sem a readequação. Isso é demonstrado pelas linhas com mais de 60 minutos de espera. Perdeu-se passageiros, mas não é correto retirar carros. Precisa reorganizar e isso não foi feito.JC - O estudo prevê as ruas dos ônibus, com distância de 300 metros para os pontos?Archimedes - A distância máxima de 300 metros de caminhada até o ponto é muito bom. As ruas dos ônibus são as coletoras e arteriais disponíveis nos bairros, isso é bom, mas nem sempre isso é possível. Sem crescimento ordenado da cidade, alguns bairros não têm alternativas de ruas adequadas para o sistema. Isso dificulta, mas as ruas para ônibus são ideais.JC - O estudo aponta que o terminal de integração é inviável, ele opina pela bilhetagem eletrônica?Archimedes - Correto. Eu já fui a favor do terminal para Bauru, mas isso acabou caindo por terra. Experiências mostram que a integração melhor é a tarifária e não a física. O terminal exige grandes áreas e um custo elevado de implantação. Agora, a bilhetagem tem que ser através de catraca eletrônica, com um tempo de vida útil do bilhete para o uso de outros ônibus sem pagar. Em Roma, o tempo é de duas horas por um bilhete de integração. A integração não terá muito impacto sobre a receita, mas haverá muito melhora para o usuário. Em Bauru, o sistema é muito mais de centro a bairro e o inverso. Isso tem que vir associado a uma racionalização do sistema.JC - E a tarifa como o senhor vê?Archimedes - O Conselho de Usuários deve ser o receptor de reclamações do cidadão e deve receber todas as informações do agente gestor. A tarifa é fruto do sistema e do serviço aplicado, da qualidade. Se o sistema é inchado, irracional, o agente gestor está interferindo na tarifa, ajudando a encarecer para o usuário. Não tenho detalhes do custo do sistema, mas a tarifa hoje é absolutamente irreal, pelo inchaço do sistema. Precisa racionalizar, aplicar o que o estudo apontou. Não adianta ficar no papel.JC - Como deve ser a relação do gestor com as empresas?Archimedes - O agente gestor tem uma oportunidade única em Bauru de arrumar o sistema e implantar um sistema de controle de qualidade e isso deve ser incluído na licitação. A chance é única de reestruturar o sistema. Toda a economia gira em torno da qualidade. Só deve ficar quem se sustentar em cima de índices de qualidade de serviço. E não adianta aplicar o controle para 50% do sistema, na licitação. Tem que aproveitar e incluir a norma para as duas empresas atuais. A TUA está em Bauru e já está habituada com isso. Em São Paulo ela é avaliada pela SPVias, tem um órgão de controle de qualidade e índices a serem alcançados. As empresas têm que ser co-responsáveis pela qualidade no sistema. Isso deveria constar da licitação e as outras que estão fora aceitariam, porque já participam dessa regra em outras cidades.

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