Sim, até as cobras são boas mães! Quantos já arriscaram a assertiva? Nem um e nem dois, apenas. Na verdade, muitos já o fizeram. E disso tem-se testemunho quando se observa o carinho com que esses répteis educam para a vida que terão pela frente os seus indefesos filhinhos e filhinhas. Diremos que num serpentário que visitamos há algum tempo não pudemos deixar de nos despertar para o fato, notando como essas mães, muitas vezes bravias, longas e diferentes, das quais muitos têm medo e delas se distanciam tanto quanto possam, não deixam nunca de dar aos seus queridos rebentos o seu maior carinho e o seu melhor encaminhamento, acariciando-os amorosamente... Ensinam-lhes tudo, tudo mesmo, principalmente sistemas de defesa contra a própria espécie e contra o homem, seu inimigo comum. Só faltaria ensiná-los a falar e cantar se elas também soubessem fazê-lo... Ora, se até as repelentes cobras se comportam como progenitoras amáveis, por que não precisariam ser assim também todas as mães humanas, escolhidas por Deus para dar continuidade à sua espécie? Por que existiriam assim aquelas que geram filhos sem querer e sem querê-los, depois entregam-nos graciosamente a terceiros para criá-los e, outras tantas, logo após a delivrance ansiosamente desejada, lançam ao fundo dos latões de lixo das esquinas da vida os frutos de suas transas incontíveis? Por que isso? Esquecem-se de que são mães e, como tal, teriam de perseverar, indo até o fim? Segundo as estatísticas, temos neste milênio 21 milhões de crianças abandonadas no País e que mendigam não somente o pão material mas o alimento fundamental para o desenvolvimento sadio de suas vidas, como sejam o amor e o carinho, que lhes possibilitem ser gente, unicamente gente, vale dizer crianças que não tenham esquecido o mundo de onde vieram e sonhem, conseqüentemente, enveredar para o lar que não têm. Seria preciso, por isso, que os pais fossem como as cobras da história, procurando manter e agasalhar a todo custo os filhos sob sua guarda direta, porquanto, se deixadas livres, nas casas, casebres e terrenos, quando papai sai para o trabalho nas fábricas, lojas e escritórios e mamãe toma os rumos da casa da patroa para suas tarefas domésticas, as crianças têm campo livre para sair de seus melhores caminhos e enveredar pelos caminhos das drogas, dos furtos e dos atentados a transeuntes. E não é isso o que se deseja para elas. Nem as cobras o desejariam! (N. Serra, Jornalista Responsável do JC e Delegado Regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).
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