Geral

Onde mora a essência da arte

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 2 min

Se sonha, já se fez, Guimarães RosaSempre que me deparo com um espetáculo ou obra de uma certa linhagem que convencionou-se chamar de contemporâneo, procuro abrir bem os olhos para perceber se aquilo não é um blefe. Saí da estréia de Morada, espetáculo da agora revigorada Cooperativa de Teatro Sylvia que te Ama Tanto, com a convicção de que aquilo não é um blefe, mas um exercício de experimentação de novas poéticas.Para começar, não é um espetáculo facilmente digerível, talvez a melhor metáfora seja a cena em que a atriz Juliana Alvarez mastiga batatas. Para ir direto ao ponto, é coisa de Márcio Pimentel, pode-se falar tudo da arte dele, menos que ele é ingênuo. Conhecimento de teoria e senso estético sobram nele.Para quem tem repulsa às coisas de Pimentel, assistir Morada pode ser a hora certa de encarar os conflitos psicológicos que seus espetáculos, desde Flor de Vênus trazem. Aí um ponto inevitável, não há como sair impassível de Morada. É uma peça que transborda sexo, morte, transformação e até onde isso tudo pode levar o ser humano. É isso, Morada é uma peça sobre o ser humano. Sobre a densidade do ser, do estar, do permanecer humano, por isso é teatro.Não parece teatro e pode assustar quem é purista em relação a isso. Parece mais cinema, afinal, é um conjunto de cenas. Trata-se de um espetáculo que causa mais prazer plástico que conforto. Talvez não exista nada mais desconfortável que as sombras da psique, e o teatro é uma boa forma de lidar com elas.Cá entre nós, fiquei com pena dos atores ao assistir Morada. Que exorcismo ingrato é o teatro. Na verdade, eu devo ter ficado é com pena de mim mesmo, eu me vi ali. Qualquer pessoa vai se ver, e isso não é fácil.Enfim, o espetáculo é mais que entretenimento. Quem gosta de arte pode ir sem medo, já que tem medo da arte...ServiçoMorada, da Cooperativa de Teatro Sylvia que te Ama Tanto. Com Mariza Basso, Ricardo Camargo, Suzane Manzeti e Juliana Alvarez. Direção: Márcio Pimentel. Em cartaz até 17 de dezembro, sessões às 20h30. No Centro Cultural, avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1072.

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