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SinComércio incentiva casas no Centro

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 11 min

Walace Sampaio acredita que a volta dos moradores para a região central é uma forma de revitalizar o comércioO Sindicato do Comércio Varejista (SinComércio) acredita que a volta de moradores à região central seria uma maneira de melhorar a imagem daquele local. Por isso, pretende incluir no projeto de revitalização do Centro um incentivo ao setor imobiliário, visando o estabelecimento de novos moradores em um espaço dominado por lojas e bancos. Esse assunto foi um dos pontos abordados pelo presidente da entidade, Walace Garroux Sampaio, 51 anos, na entrevista a seguir. Ele também falou sobre temas como a mudança histórica enfrentada pelo setor comercial, que viu a clientela com maior poder aquisitivo migrar para a Zona Sul da cidade, e sobre como os comerciantes tradicionais estão observando essa nova realidade. A partir desse domingo, o Jornal da Cidade abre espaço para debates de temas com personalidades de diversos setores da sociedade, sempre abordando assuntos variados, dentro da Entrevista da Semana.Jornal da Cidade - Que avaliação o sr. faz da atual situação do comércio de Bauru? Walace Sampaio - O comércio de Bauru, especialmente o da área central, passa por um período de transformação. Essas mudanças ficam mais evidentes se nós enfocarmos o setor de supermercados, que já está praticamente adequado a essa nova realidade, em que se convive com a globalização, não só econômica, mas no sentido de sistema de atendimento, perfil e tamanho de lojas. O restante do comércio também caminha no mesmo sentido. O comércio de Bauru, principalmente da área central, vive esse momento de transformação.JC - O que houve com a região central da cidade, principalmente o Calçadão da Batista de Carvalho, que de uns anos para cá transformou-se num centro de compras bem mais popular?Sampaio - Essa é uma tendência natural de todo centro comercial, não é específica de Bauru. É uma tendência natural. Todas as cidades do porte de Bauru ou maior que ela passam por um processo semelhante. Basicamente, nós estamos falando do surgimento do fenômeno do shopping center no Interior. É um processo que começou na Capital. Além de concorrer diretamente com o comércio central, o shopping acaba criando um novo pólo comercial ao seu redor.JC - Isso pode ser notado em Bauru. Muitas lojas acabaram migrando para a Zona Sul da cidade, onde está localizado o Bauru Shopping Center.Sampaio - Esse é um dos fenômenos. O outro é a busca pela facilidade de estacionamento. Antes de chegar à Zona Sul, o comércio de Bauru fez um estágio na (avenida) Duque de Caxias. Provavelmente, no futuro nós vamos ter uma nova mudança, causada por problemas de trânsito, de estacionamento que também vão ocorrer ali e haverá uma nova migração. Essa é uma busca do comércio para oferecer maiores facilidades aos clientes.JC - A gente sabe que, na área central, há muitos comerciantes tradicionais na cidade ...Sampaio - Mas isso está mudando. O comércio central já passa por uma transformação muito grande, já que muitas empresas estão vindo de fora para se instalar aqui. Filiais de grandes redes nacionais ou regionais estão se estabelecendo na área central. Está havendo uma mudança no perfil tradicional dessa região. Mas ainda há muitos exemplos.JC - Esses comerciantes tradicionais que permanecem na área central estão se adaptando a essas mudanças que o sr. citou ou eles têm dificuldade em se modernizar? Sampaio - É difícil generalizar. Nós encontramos as duas tendências: o conservadorismo de um lado e aqueles que se adaptam às mudanças de outro.JC - O sr. ainda acredita que o comércio é o ponto forte da economia de Bauru? Sampaio - Sem dúvida. Apesar dessas transformações, o centro desempenha um papel fundamental para Bauru e região dentro desse setor. Continua atraindo clientes da região. O setor de eletrodomésticos está praticamente concentrado na área central da cidade.JC - A classe média, no entanto, deixou de comprar no Centro da cidade.Sampaio - É, ela prefere comprar mais no shopping. Vale destacar que também surgiram pólos comerciais nos bairros de uma forma geral, não só na Zona Sul. Hoje é possível encontrar um conjunto de lojas atuando em bairros de Bauru.JC - Isso acaba concentrando o consumidor nas proximidades de sua casa? Sampaio - Sem dúvida. Além disso, a distância entre os novos bairros da cidade e o Centro aumentaram muito e as pessoas andam sem tempo. Outra característica que atrai o consumidor para o comércio de seu bairro é a relação mais pessoal com o empresário, que conhece o cliente pelo nome, sabe onde ele mora. Isso acaba criando um crediário sem burocracia, no qual as vendas são anotadas em cadernetas. Ou seja, a pessoa faz conta na loja, no mês seguinte paga e acaba gastando mais. O filho e a esposa compram no nome do chefe da família, sem aquela burocracia que uma loja da área central exige para a concessão de crédito.JC - A inadimplência ainda atrapalha muito o desenvolvimento do comércio de Bauru? Sampaio - Esse ano está bem melhor. A inadimplência parou de crescer em larga escala. Mas continua atrapalhando. Um dos fatores que ela gera é justamente essa compra localizada em bairros. A pessoa que tem restrições no crediário das grandes lojas, com nome incluído no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), não encontra dificuldade em comprar nas lojas do seu bairro, que não fazem consultas ao órgão.JC - O sr. acha que ainda existe possibilidade do comércio central de Bauru se recuperar?Sampaio - Sem sombra de dúvida. Tem toda a estrutura para isso. É um fato que já ocorre nos Estados Unidos, em algumas cidades do Brasil, ou seja, uma revalorização da área central. Especificamente em Bauru nós estamos desenvolvendo um trabalho nesse sentido há dois anos. Estamos investindo na recuperação da área central.JC - A recuperação da área central seria importante até no aspecto histórico da cidade.Sampaio - Existem vários componentes para justificar essa intervenção. Como entidade ligada ao setor, nós temos em primeiro lugar o interesse comercial, que visa o aumento de vendas. Mas nós combinamos isso com o interesse histórico, com o interesse da população, que prefere ir até a região central, ao invés de se dirigir à Zona Sul - devido às facilidades com o transporte coletivo. Nós temos alguns indicativos disso. O serviço odontológico oferecido pelo Seprem (Serviço de Previdência dos Municipiários) na área central tem ocupação plena. Já um consultório de uma outra região não tem a preferência do pessoal de bairros. Além desses três aspectos citados, há o interesse de desenvolver no Centro o setor residencial. Hoje, há um vazio no que diz respeito a isso. É importante que se recupere o Centro também como área residencial. A estrutura do local não está sendo usada de forma plena. Nós encontramos escolas fechadas ali por falta de aluno. Há rede de energia, elétrica, de telefone, de água, de esgoto, está tudo pronto e sem utilização. A população deixou o Centro. É uma área propícia para empreendimentos imobiliários visando casais jovens, sem filhos, no início da vida profissional, casais de mais idade, que terão à disposição todo o Centro para passear, andar, executar seus compromissos. No Centro é tudo perto. Essa intervenção é complexa. Não basta simplesmente melhorar o comércio. É preciso mudar o conceito do Centro da cidade.JC - Isso passa também pela questão da diminuição da violência?Sampaio - A violência no Centro não é diferente da dos bairros. Acontece que a região central está mais em evidência. É natural tudo o que ocorre lá ganha maior destaque. Desde que realizamos um trabalho na Praça Machado de Mello, há alguns anos, mudando o aspecto do local, diminuiu consideravelmente a violência. O problema é quando as lojas fecham. Como não tem habitantes, depois do expediente das lojas o Centro vira um deserto. E isso é o que assusta as pessoas, que acabam ficando com essa imagem na cabeça e relacionando a região com problemas de violência. Durante o dia aquela região é tão segura como qualquer outra da cidade.JC - Além da revitalização do Calçadão, o sr. não acha que as próprias lojas precisavam ser revitalizadas? Sampaio - Na verdade, o Calçadão é a parte visível do projeto de recuperação. Mas, a idéia é englobar a área central como um todo. O foco é da rua XV de Novembro até a linha do trem. O projeto prevê a extensão do Calçadão para as ruas transversais à Batista de Carvalho, que estava prevista para ocorrer ainda este ano, mas não foi possível realizar devido às eleições municipais e à temporada de chuvas. Também estamos estudando a recuperação das fachadas das lojas. Nós já temos até o levantamento feito de como era cada imóvel. Isso vai permitir que, andando pelo Centro, as pessoas vejam e conheçam a arquitetura de várias fases de desenvolvimento da cidade. Nós vamos ter um painel da arquitetura de Bauru desde o início do século até hoje. Basicamente, deverão ser retiradas todas as fachadas individuais de cada loja, padronizando a identificação da empresa, e deverá haver um estudo da recuperação da arquitetura. Nós estamos trabalhando para obter um incentivo fiscal, através do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), que funcionaria da seguinte maneira: a empresa faria um projeto de recuperação do prédio dela, apresentaria no órgão técnico da Prefeitura e a administração pública descontaria o que ela gastasse com a obra no IPTU.JC - Existe algum projeto para levar atrações artísticas e lazer para o Calçadão, como uma forma de atrair o público para o centro de compras? Sampaio - Existe. O primeiro passo já foi dado nesse sentido. Neste ano, nós substituímos todos os equipamentos do Calçadão, como floreiras, bancos e lixeiras. Os objetos antigos não eram bonitos e acabavam atrapalhando as fachadas das lojas. Dentro do projeto da Associação das Empresas do Calçadão (AEC) existe essa idéia, de estar levando lazer para o Centro da cidade, inclusive visando aqueles horários de menor movimento do Calçadão, para não atrapalhar a movimentação das pessoas pelo local.JC - Como o sr. analisa a vinda do Grupo Savoy para Bauru? Sampaio - Nós temos uma visão de que, tudo que chega em Bauru, no que diz respeito ao comércio, vem para somar. O setor de supermercados é um exemplo disso. Bauru tem um setor que domina a região nesse sentido. Com o Savoy investindo no (Bauru) Shopping e com o Centro recuperado, nós vamos ter três pontos de atração do comércio de Bauru. Fatalmente, quem for ao Shopping, acabará indo aos supermercados e à região central. Como Bauru tem uma característica regional, nós temos uma concorrência interna, mas a soma dos três pólos comerciais acaba atraindo consumidores de outra cidade.JC - O projeto que regulariza a situação dos vendedores ambulantes está tramitando na Câmara Municipal. O que os comerciantes esperam dele? Sampaio - O projeto é válido, embora não seja perfeito, já que trata-se de um assunto extremamente delicado. O comércio, por um longo tempo, quis a retirada dos ambulantes das ruas - acredito até que com razão, já que se caracteriza uma concorrência desleal. Mas, hoje tem-se uma visão social desse assunto. Nós temos que conviver com isso, desde que as atuações sejam disciplinadas. Aí é que o município tem que entrar, conciliando interesses, principalmente da população, que não pode ficar no meio dessa briga.JC - O que os comerciantes estão esperando do Natal desse ano? Sampaio - A expectativa é de que seja um pouco melhor do que no ano passado. Não existem fatores que tenham elevado consideravelmente a renda da população, mas existe uma acomodação no sentido de restrição ao crédito.JC - Por que o comércio não investiu na distribuição de prêmios aos consumidores neste ano? Sampaio - Há uma nova determinação da Receita Federal que praticamente impediu a realização de sorteios. É um processo extremamente delicado. Existe a exigência de que, não só a entidade de classe, mas cada estabelecimento não tenha débito fiscal. Isso dificultou sobremaneira a distribuição de brinde. Estão permitidos sorteios que tenham fins culturais e não estejam vinculados à venda. Para o comércio, não é viável desenvolver uma campanha nesse aspecto.JC - Com relação ao horário de abertura do comércio. Os empresários lutaram por esta ampliação, mas existem algumas lojas que voltaram a fechar às 18 horas. O que houve? Sampaio - Acredito que houve uma maturidade nesse sentido. Muita gente temia que houvesse excessos, mas o que aconteceu, na verdade, foi uma acomodação natural do comércio com relação ao interesse do consumidor. Finalmente aconteceu aquilo que esperávamos, ou seja, entendeu-se que, quem tem que determinar o horário de funcionamento das lojas é o consumidor - não é o comerciante e nem o comerciário. As entidades pararam de determinar horário. O que se divulga é o horário padrão, que é até as 19 horas. Algumas fecham antes, outras depois disso, dependendo da demanda de consumidores. Falou-se em muita coisa: que o comércio iria funcionar até a meia-noite, ou que seria criada a rua 24 horas, mas não houve nada disso. Nós sabíamos que não ia acontecer nada de excepcional. JC - Quanto tempo deve demorar a revitalização do Centro? Sampaio - É muito difícil contabilizar isso, pois depende fundamentalmente do setor público. Nós estivemos em Curitiba, trouxemos projetos, fizemos seminários. A nossa função é a de despertar o problema e discutí-lo. Nós não temos conhecimento técnico para colocar o projeto em prática. Quem tem a capacidade de agir é a Prefeitura. Nós sabemos das limitações orçamentárias do município.JC - Se estivesse chegando hoje a Bauru, o sr. investiria na região central de Bauru? Sampaio - Depende do tipo de comércio que eu montaria. Mas eu ainda acredito no bom desempenho do Centro.

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