Geral

Gente que faz

Raphael do Couto Venere
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Gostaria de dar o meu adeus ao senhor Jair Romeu, não só porque foi um grande amigo e braço direito de meu pai, mas sim porque foi um grande amigo e exemplo de homem correto. Mais ainda, o senhor era um apaixonado pelo seu trabalho.Eu me lembro, uma vez, quando uma enchente alagou o IML, ligaram em casa e fomos, meu pai e eu, para ver o que tinha acontecido. Ao chegarmos lá, estava o Jair Romeu e dona Maria Helena de balde na mão, galochas nos pés, rodo, pano e mangueira, tirando toda aquela lama e ele já dizendo não se preocupa, doutor, que nós já estamos pondo tudo em ordem. Essa foi uma bela lição para mim, pois alguns anos antes deste fato, eu presenciei uma conversa do Jair com meu pai e eles estavam tentando administrar uma situação de carência de recursos para que o IML continuasse a funcionar adequadamente. De repente, o Jair virou para mim e disse: Fafá, vai vendo o que a gente faz para quando você vier trabalhar conosco já vai ter experiência, pois o Instituto não pode parar. Eu, como adolescente, pouco sabia da vida e já fui respondendo... Seu Jair, eu vou lutar para nunca trabalhar em um lugar tão desgastante. Para trabalhar, eu quero paz, sossego e um ar-condicionado. Veio o silêncio. O tempo respondeu e mostrou que o silêncio era a melhor coisa que o Jair podia ter feito naquele momento.Paz é uma coisa que está dentro da cabeça da gente, e a sua é um templo, Jair; sossego a gente só tem quando tem paz; e o ar-condicionado tem pra vender em qualquer esquina.Seu Jair, o seu corpinho vai ficar aqui com a gente e o seu templo (sua alma, cada um chama como quiser) vai ser muito bem recebido por outros templos e mitos, como Elis Regina. Ela vai lembrar que, um dia, mãos tão apaixonadas como as suas trabalharam sobre seu corpinho, que em vida amou, cantou, teve amigos, filhos e se tornou um mito, e na morte, dentro do necrotério, foi respeitosamente examinada também pelas suas mãos.Jair, obrigado por tudo. Um dia a gente se vê e vai ser muito bom, pois um cara como você, que manteve a cabeça trabalhando até a morte, ainda vai me dar grandes lições. (Raphael do Couto Venere - médico - RG 15.506.603)

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