Geral

O personagem do ano

Kleber Boelter
| Tempo de leitura: 2 min

No Brasil, onze em cada dez cronistas têm como assuntos prediletos a política ou a economia. E os aborda, invariavelmente, metendo o pau no governo. Eu, miseravelmente, não sou exceção.Contudo, um acontecimento dessa semana possui uma grandeza e um significado que transcendem, em muito, essa cantilena de lamentações pelos nossos infortúnios, sejam eles reais ou inventados. Nelson Rodrigues costumava eleger o personagem da semana em suas memoráveis crônicas publicadas no O Globo, extraído do universo do futebol. Pois eu, aproveitando a lembrança, resolvi eleger o meu personagem do ano. E não poderia ser ninguém mais do que Gustavo Kurten, que terminou a temporada de tênis de 2000 como o primeiro do ranking mundial, tanto pelo sistema tradicional quanto pela nova Corrida dos Campeões, que soma os resultados da temporada. Para a grande maioria do povo brasileiro, acostumada a concentrar sua atenção em imensos gramados onde duas dezenas de trogloditas se espancam durante noventa minutos, deve ter sido uma experiência fascinante. Quem assiste um jogo pela primeira vez, geralmente acha o tênis chato. Mas também é terrivelmente chato assistir a uma partida de futebol de noventa minutos onde a bola só fica em jogo a metade do tempo, geralmente longe de onde interessa, que é o gol. E é mais assombroso ainda ver os times conseguindo a façanha inacreditável de cometer até oitenta faltas numa única partida.Mas da mesma forma como o futebol se torna um esporte eletrizante na medida em que se passa a compreender sua dinâmica, o tênis também emociona. E nada melhor do que a compreensão das características do esporte unida à paixão pelo clube ou atleta.Nesse aspecto, Guga é exemplar. Seu jeito de moleque e sua humildade são cativantes, o que provoca uma empatia imediata. E sua extrema competência como jogador é um exemplo para todos os incompetentes e enganadores que parasitam o povo brasileiro. Por isso, é possível atribuir à vitória de Guga sobre Pete Sampras uma série de simbolismos. O jovem cumprindo o desígnio de renovação e superando o velho. O moleque de um país de terceiro mundo provando que é possível superar nações milionárias, desde que se tenha dedicação e competência, e não com choradeiras inúteis. Mas a vitória sobre Andre Agassi foi mais espetacular, foi épica, e de goleada. Algumas trocas de bola lembraram célebres tiroteios, embates rutilantes de espadachins, naus piratas tentando se dizimar a golpes de canhão. Bolas cada vez mais violentas, na mesma direção, um duelo claro não de estratégia, mas de força. E o brasileiro venceu a maioria.Está certo. Crônicas falando bem de alguma coisa não possuem o mesmo apelo dramático daquelas que falam mal. Mas se, de alguma forma, o criador também acaba tendo a cara da criatura, prefiro falar do Guga do que do Nicolau dos Santos. (O autor, Kleber Boelter, é empresário e escritor)

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