Bezerra da Silva, o malandro primordial, centra fogo contra invenções de tratadistas e malandros demais para dizer que o samba nunca saiu de cenaQuarta-feira, 17h10. O telefone toca no estúdio onde Bezerra da Silva acaba de ensaiar com seu grupo, no Rio de Janeiro. Enquanto espera as ligações de jornalistas, pratica o trompete, instrumento que está estudando no momento. Bezerra interrompe o estudo para mais uma entrevista. Começa arredio, é um bom pernambucano, e vai mostrando que malandragem, inteligência, nada mais é que defender seus direitos, usar a cabeça, ser honesto e não esquecer dos verdadeiros amigos em hipótese nenhuma. Leia a seguir a entrevista do homem que nunca deixou o dois por quatro (a cadência do samba) cair. Nem mesmo quando ele estava em baixa. Alguém que é muito mais que o mais roqueiro dos sambistas.Em um mundo que aparentemente tudo vai perdendo o sentido, Bezerra da Silva prova que alguma coisa ainda faz sentido. A sinceridade.JC Cultura - Seu álbum mais recente chama-se Malandro é Malandro, Mané é Mané, o que é, afinal, ser malandro?Bezerra da Silva - Malandro é sinônimo de inteligência. Não tem nada a ver com marginal. Inteligência tem que ter, né? JC Cultura - O que seria malandragem hoje?Bezerra da Silva - Malandro é inteligência. Não existe esse negócio de malandragem hoje, nem amanhã. Isso é coisa que eles inventaram. Não tem nada a ver com marginalidade, marginalizado.JC Cultura - Na história da música brasileira, outras pessoas levantaram essa bandeira. Houve a malandragem da Lapa. Noel Rosa, por exemplo...Bezerra - Não conheço, não conheci o Noel Rosa. Eu não sei se você sabe, eu não sou carioca. Eu sou pernambucano, eu sou do Nordeste. Não tem nada de Lapa. Quando eu cheguei aqui não conheci nenhuma dessas pessoas não. Fui trabalhar na construção civil... depois que eu fui para o rádio e em 79 o Brasil me conheceu com esse nome Bezerra da Silva com aquela música Pega Eu que Eu Sou Ladrão. E fui trabalhando como músico...JC Cultura - E o senhor antes acompanhava outros músicos?Bezerra da Silva - Eu trabalhei na orquestra da TV Globo, oito anos. Me chamaram para cantar, eu fui, deu certo... agora está aí complicado, o problema todo é a mídia. A mídia que é o problema...JC Cultura - Que instrumentos o senhor toca...Bezerra da Silva - Pode ser você. Esse negócio de senhor fica... pode ser Bezerra da Silva mesmo porque... (ri). Rico não tem esse negócio de senhor.JC Cultura - Desculpe, é mais pelo respeito mesmo...Bezerra da Silva - Dentro de uma civilização com pessoas mais esclarecidas não tem senhor. O senhor é um ser onipotente. Porque aqui na Terra não tem senhor. O pessoal inventou essa história aí, mas... você vê que as elites chamam o pai de você, a mãe de você. A gente é que inventou essa história de senhor, senhora... JC Cultura - Você estava tocando trompete antes de começar a entrevista....Bezerra da Silva - Não. Eu estava estudando.JC Cultura - Tem algum instrumento que você domina, além do canto?Bezerra da Silva - Quando eu trabalhei na Globo, eu trabalhei como percussionista. Eu toco surdo, tamborim, tumbadora, bateria. Agora que eu estou estudando trompete, piano, violão. Nos outros instrumentos eu ainda sou estudante.JC Cultura - Eu gostaria que você comentasse o seguinte: o samba voltou a ganhar importância para a indústria de disco e de shows. Você vê aí o Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Lecy Brandão, Jorge Aragão, você mesmo, todos os bambas sendo respeitados. O pagode foi uma onda que passou?Bezerra da Silva - Você sabe, o pessoal rotula muito as coisas. Até com muita maldade, com falta de conhecimento, sem saber o que está dizendo. Isso não dá em lugar nenhum.O samba não voltou para lugar nenhum, porque nunca foi para lugar nenhum. O problema é que sempre existiu, dentro do meio artístico, sempre aparece um novo jeito...O samba está sempre aí. O sambista é que cai, o samba não. Nego inventa um porção de coisa, cada um dá um nome. Dentro da teoria musical não existe nada disso. Música aquilo, música isso, pagode... Eu fiz dois anos de teoria. Não existe nada disso. Isso tudo é rótulo. Por exemplo, existiu o twist, o rock, iê-iê-iê, balada. Tudo isso passa, né? JC Cultura - Você já viu esse filme antes, de chegar uma nova influência e mudar... Bezerra da Silva - O problema é que tudo no Brasil é contra o samba. O samba é somente para representar o País lá fora, mas sempre houve má vontade de divulgação, de mídia, os compositores, eles não divulgam. O próprio rádio mesmo, toca mais música estrangeira que o nosso gênero. Agora com esse negócio de pagar para tocar, não sei o que lá, ficou pior. Eles aí inventam um monte de coisa, agora, o samba que é o compasso dois por quatro toca pouco. O que chamam de verdadeira samba, samba de verdade, agora estão falando que é samba de raiz. Nada disso existe. Eu até escutei outro dia um rapaz dizendo que não era raiz, que raiz só cresce para baixo. É tudo mentira, diz BezerraPara o sambista Bezerra da Silva, o termo MPB tem servido ultimamente para discriminar sambistas e músicos sem dinheiro ou esquema para investir em marketing.JC Cultura - Qual é a diferença entre samba e MPB?Isso não existe, eu estou aqui com um livro de teoria, não tem nada dessa história. Música isso, música aquilo, MPB, nada disso existe. É tudo mentira.MPB: música popular brasileira. É qualquer uma. Qualquer coisa que se diga que se diga que seja ritmo brasileiro. Um maracatu, samba, xaxado é tudo MPB. Inventaram para discriminar, dizer que MPB é Buarque de Hollanda, não sei mais quem... Eles querem criar uma coisa que não existe. Etiqueta comercial.JC Cultura - Você nunca deixou pregarem etiqueta em você? Bezerra da Silva - Eu sou músico, trabalhei oito anos na orquestra sinfônica da TV Globo, estudo música até hoje. Com todo respeito aos colegas, não sou analfabeto musical, não vou ouvir essas conversas. Eles rotulam, isso tudo é marketing para vender. Não inventaram aí grupo de pagode.JC Cultura - Pagode é uma reunião de fundo de quintal, não é?Bezerra da Silva - Não, não. Você sabe o que é pagode? Se você pegar um dicionário vai cair duro. Sabe o que está escrito? Pagode: templo pagão de alguns povos asiáticos; divertimento, bambochata. Pagode quer dizer isso.JC Cultura - Mudando um pouco de assunto, como é o show que você vai mostrar aqui em Bauru. Você toca músicas de todos os seus discos?Bezerra da Silva - O show é o seguinte. O show sempre é feito com os sucessos, tem aquela coisa do calor humano. O público gosta de participar, então o público só canta aquilo que ele sabe, que ele aprendeu. Então, tem que cantar Malandragem Dá um Tempo, Vou Apertar, mas não Vou Acender Agora, Bicho Feroz, Seqüestraram minha Sogra, Candidato Caô-Caô, Defunto Cagoete, eu tenho que cantar as músicas que são sucesso.JC Cultura - O que você acha dos grupos que se aproximaram de você, o Marcelo D2, do Planet Hemp, Barão Vermelho...Bezerra da Silva - Eu acho ótimo. Todos os colegas são bons, se não fossem bons não estavam aí. Tem espaço para todo mundo. Tem uns que dizem que fulano está atrapalhando.... não é nada disso, no meu caso ninguém está me atrapalhando em nada. Cada um faz seu trabalho, eles são meus amigos, meus colegas.A pessoa que vive musicalmente, que é artista, essa coisa toda, vive no mesmo barco. Agora tem vários gêneros, cada um canta o que sabe. Tem uns que são bons cantando coco, outros maracatu, outro bolero, outro samba, pop, valsa. Tudo é do-ré-mi-fá-sol-lá-si.Não tem essa. Tem aí uns tratadistas, os inventores, os malandros demais, como a gente diz. Aqui no Rio de Janeiro mesmo, eu ia viajando em um táxi, ouvi em uma rádio. Acabamos de ouvir aqui música civilizada. Um locutor dizendo uma besteira dessa. Então, eles inventam. Pegam o povo também, que você sabe que o nosso povo não é esclarecido...É mesma coisa que você estudar medicina e chegar um cara que não é médico falar que cachaça com limão cura gripe. (risos)JC Cultura - Você costuma ser bem recebido pelo público de São Paulo? Bezerra da Silva - São Paulo tem um público muito bom, todo o Estado de São Paulo. Não é somente na Capital. Bauru, Ribeirão Preto, Piracicaba, já estive em Santa Bárbara DOeste, Guarulhos.JC Cultura - Se lembra de algum show que você fez aqui em Bauru.Bezerra da Silva - Lembro, foi muito bom. Quer dizer, todo o Estado de São Paulo tem um público muito bom, de ponta a ponta. Eu fiquei um pouco afastado porque não queriam pagar o preço, está entendendo.Então eu viajei fui aos Estados Unidos. Eu tenho um público em São Paulo formidável, um público jovem. A rapaziada gosta de mim à beça, da minha música, da minha pessoa. Eu tenho muitos amigos em São Paulo. Sem esse negócio de estar puxando que eu não sou disso. Eles me tratam bem, eu trato bem a eles.O problema comigo em São Paulo é o clima, quando esfria já viu, não é?JC Cultura - Mas aqui em Bauru você pode ficar tranqüilo que é um calor danado...Bezerra da Silva - Eu sei.JC Cultura - Bezerra, suas músicas são muito conhecidas, pegam fácil. Como é o seu processo de composição?Bezerra da Silva - Isso é uma coisa muito importante para você botar aí. Eu não sou compositor, eu sou músico e sou intérprete. Eu tenho uma equipe de compositores nesse gênero que escreve para mim. Eu não tenho essa dádiva. O que acontece é que a mídia esconde esses rapazes porque eles são pobres. Eu não sei se você sabe, existe uma lei, que passou pelo Congresso, o presidente da República sancionou, está tudo certo, cada vez que toca uma música no rádio, é obrigado a falar o nomes dos autores, mas eles só falam quando o compositor é rico.Portanto se você perguntar pelo Brasil quais são os compositores, eles vão falar Buarque de Hollanda, Tom Jobim, Gil, Caetano, Morais Moreira, Adoniram Barbosa, que realmente era um grande autor. Agora, os outros ninguém sabe quem é. É difícil. Os colegas também não pedem. Você conhece Malandragem Dá um Tempo? Você sabe quem são os autores dessa música?JC Cultura - Não... Bezerra da Silva - Sabe quantos anos tem que eu gravei isso. Eu gravei essa música em 1986, ela virou hino, Barão Vermelho regravou, mas até hoje ninguém sabe quem são os autores.JC Cultura - Então fala o nome deles para eu por no jornal.Bezerra da Silva - O nome deles é Adelzonilton, Popular P. e Moacir Bombeiro. Esses três rapazes é que são os donos dessa música, eles moram na Baixada (Fluminense), um deles aposentado por bombeiro, os outros dois são camelôs. É por isso que ninguém fala o nome deles. Outra música conhecida, Bicho Feroz (Você com revólver na mão é um bicho feroz/ sem ele anda rebolando até muda de voz), ninguém sabe quem são os autores.JC Cultura - Quem são?Bezerra da Silva - Cláudio Inspiração e Tonho Magrinho.JC Cultura - Você tem muitos amigos de outras profissões, mais humildes?Bezerra da Silva - A maioria dos compositores são pessoas humildes, trabalhador, operário. Uns da Baixada Fluminense, outros moram no morro. São pedreiros, carpinteiros, desempregados. Mas os caras são compositores de verdade.Eu tenho 26 discos com esse. É uma covardia. Eles não falam o nome do autor. Não ajudam na televisão. Tem que fazer uma campanha para o público ficar sabendo que existe cantor, compositor e músico.Sofre muito o sambista. O Jorge Aragão está fazendo sucesso agora, mas penou à beça. Aí quando faz sucesso todo mundo começa a falar besteira. Mas, também, eles falaram mal até de Deus, de Jesus, quanto mais de mim. Eu então, me chamam de tudo, de maconheiro, cantor de bandido, amigo do Escadinha, pintam o diabo comigo. Eu nunca vi ninguém dar dois em nada. Essa parte de maconha, de cocaína, de não sei o que, tem as autoridades para ver, não sou eu. Eu vim para ser julgado, não para julgar ninguém. Eu não estou aqui para apontar defeito em ninguém. (FA)ServiçoBezerra da Silva mostra o show Malandro é Malandro, Mané é Mané, hoje, 23 horas, no Clube Avenida. A casa noturna fica na Avenida Nações Unidas, 20-20. Convites antecipados: R$ 10,00; mesas: R$ 15,00 a R$ 25,00. Disk convite: 9771-6427. Informações: (14) 234-8798.
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