Geral

Adeus, ano bissexto

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Mais importante que o Natal é o fato de estar próximo o fim do ano bissexto. Aquele que acontece de quatro em quatro anos para acrescentar mais um dia no mês de fevereiro e muito azar na nossa vida.Os anos bissextos são cheios de acontecimentos infelizes. Neste, quebrei a perna. Vejam o caso do juiz Lalau, coitado. Está na prisão depois de uma vida farta em Miami, emoldurada por Ferraris e Lamborghinis, gorjetas de 500 dólares e mansões milionárias. Tudo porque a herança do tio alfaiate o enriqueceu. Antes disso já havia vencido pelos próprios méritos. Foi araponga durante a ditadura militar. Nem precisou fazer concurso para entrar na Magistratura. Bastou seu notório saber e ilibada reputação. Hábil nos negócios e conhecedor profundo do mercado de capitais, Lalau conseguiu multiplicar várias vezes os duzentos mil dólares deixados pelo velho. Quis a imprensa sensacionalista e a inveja dos homens torná-lo em Inimigo Público n.º 1 do Brasil, neste ano bissexto.Pelo menos vamos adentrar no Século 21 e deixar para trás o agourento calendário. Perguntei ao meu amigo Tony Zanelatto, nascido aqui pertinho, em São Luiz do Guaricanga, e hoje trabalhando na FAO, em Roma, o que nos aguarda na próxima centúria. Ele disse que lá na FAO que, como todos sabem é um órgão das Nações Unidas que luta pela diminuição da fome no mundo, a preocupação constante é quanto ao futuro do trabalho.Na Revolução Industrial, a máquina a vapor e a energia elétrica substituíram apenas nossos músculos. Agora o computador está substituindo os nossos cérebros. O caminho está aberto para o triunfo das máquinas.Comentei com ele sobre o texto clássico apocalíptico de Aldous Huxley sobre a morte do trabalho em O admirável mundo novo, escrito em 1932. Nesse romance, as tarefas não são executadas por máquinas, mas por zumbis criados por engenharia genética. A intelectualidade vive no ócio, sedada por drogas e programada para o consumo enquanto dever social.Tony retrucou dizendo que no tempo de Huxley, na Inglaterra, mais de 60% da massa trabalhadora estava ocupada na agricultura, na mineração do carvão e na tecelagem. Hoje não vão além de 16%. Isso significa que um quarto da população ativa sofreu uma destruição violenta dos postos de trabalho, substituídos pelas máquinas.Perguntei constrangido de cometer alguma gafe, como é que milhões de ingleses sem trabalho ainda não tomaram de assalto o palácio da rainha? Para ele a resposta é básica: foram criados novos empregos nas áreas da saúde, educação, finanças e negócios da alimentação. O capitalismo tem o poder de se retroalimentar constantemente, destruindo, criando e recriando. Marx e Engels já haviam dito coisa semelhante no Manifesto Comunista, no século 19. Mais um chope e meu amigo começou a ficar otimista:- Isso significa que precisaremos criar cada vez mais coisas para as pessoas usarem e desfrutarem. Pressupõe-se que temos uma capacidade infinita de consumir, o que, por sua vez, gera milhões de empregos. Assegurei a ele que, no meu caso, a capacidade de consumir já estava esgotada. Não dá mais para pagar telefone celular, Internet, Net, água de galão, academia de ginástica, vídeo e todas as tranqueiras da vida moderna.Outro gole e Tony despejou, implacável: - O que é dispensável para você certamente não é para suas filhas. Além do mais, nem todos os serviços são necessariamente exóticos. Exemplificou com a irmã que mora na Bela Vista e paga todo ano a um rapaz para ficar na fila da escolinha municipal, a fim de assegurar vaga para a sobrinha. Surgiu uma nova profissão, a do filista. O risco, de fato, pode não ser uma escassez de trabalho no futuro, mas o inverso. Novos produtos e serviços criam os meios com que serão comprados. Produção é produção, não importa em que consista. Mais produtos, mais consumo; mais consumo, mais empregos. Ainda bem.

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