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"Fogueira" de vaidades

Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

A fogueira de vaidades que arde nos três poderes emperra o debate das coisas que interessam à Nação, à sociedade e ao País. Exemplo disso é a rotina que ocorre no Congresso Nacional, quando, ao aproximar-se o final do biênio legislativo, todo o trabalho de deputados e senadores é paralisado para que se definam os nomes mais cotados, em cada uma das duas casas, para a eleição dos futuros presidentes da Câmara e do Senado. Na verdade, essa casta de privilegiados investe boa parte do seu tempo, pago pelo contribuinte, no futuro de carreiras pessoais em detrimento do debate de assuntos que realmente interessam a toda a sociedade.Mas voltemos ao Congresso. Perderam-se, em novembro, pelo menos duas semanas ou mais para debater o valor do salário mínimo, que irá vigorar a partir de abril. Ora, essa questão já deveria ter sido decidida no primeiro trimestre do ano. Mas governo e oposição optaram, de comum acordo, por empurrar a questão com a barriga por causa das eleições municipais.Mas, afinal, a quem interessou a fixação do mínimo em 180 reais? Apenas aos pouco mais de cinco mil municípios existentes no País. É que a maioria das prefeituras enfrenta sérias dificuldades financeiras em razão do inchaço das folhas de pagamento e de obras de idoneidade duvidosa. Tudo isso deve começar a mudar em conseqüência da Lei de Responsabilidade Fiscal. Para a iniciativa privada, contudo, tal questão é supérflua, uma vez que há muito tempo já paga salário mínimo superior aos R$ 180,00.Enquanto isso, questões como a continuidade das reformas fiscal, tributária, trabalhista, política, administrativa, previdenciária e do Judiciário continuam paralisadas. Quando, pressionados pela mídia, por entidades sindicais, que avaliam o desempenho de deputados e senadores; e por ONGs internacionais, que preconizam a total transparência das atividades dos chamados homens públicos, os congressistas resolvem colocar a agenda em dia e o fazem em sessões extras da Câmara e do Senado.Para recuperar o tempo perdido, o Congresso é convocado para trabalhar durante as férias. Já está mais do que na hora de redefinir os conceitos de férias e de recesso parlamentares. Por que três meses por ano se os demais brasileiros têm 30 dias apenas? O mesmo raciocínio vale para o Judiciário. Por acaso, juízes, deputados e senadores assemelham-se a estudantes? Um detalhe: durante esse período, nossos 513 deputados federais e 81 senadores ganham seus vencimentos em dobro. Assim tem sido ao longo dos últimos anos. E, ao que parece, deverá repetir-se no início de 2001. A nós, incautos contribuintes e eternos candidatos a cidadãos, são enviadas as contas. Mais ou menos como acontecia, na Idade Média, quando os festejos de coroação de reis e imperadores duravam semanas e até meses a fio. Depois, os camponeses tinham que entregar quotas extras de alimentos para a nobreza pagar as despesas. Muita coisa se passou desta época até hoje, mas, para a sociedade e os contribuintes, as mudanças não foram tão substantivas quanto imaginamos.Pelo bem do País, é preciso apagar de vez essa fogueira de vaidades que arde em Brasília. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil - ADVB - e da Fundação Brasileira de Marketing - FBM. E-mail: presidencia@advbfbm.org.br)

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