O jornalista Washington Novaes reclama da falta de interesse das pessoas com a conservação do meio ambiente e com o planetaPlaneta já consome mais de 40% além da capacidade de restauração da biosfera. Essa afirmação é do jornalista Washington Novaes que esteve em Bauru no último dia 1.º de dezembro para participar da reunião do Prêmio CPFL de Imprensa. Ele expôs sua indignação com a falta de interesse das pessoas pelo meio ambiente. A humanidade, de acordo com ele, não se preocupa com a própria casa, o Planeta Terra. Essa falta de consciência e informação gerada pela falta de interesse e por um governo cético em relação a esse problema gera um impacto grande e colabora para a degradação do meio ambiente, de acordo com Novaes. Essa falta de iniciativa está gerando, em todo o mundo, uma destruição acelerada dos componentes da vida. O homem, de acordo com Novaes, não consegue ver que os recursos existentes no Planeta são finitos e se as pessoas não pararem a tempo para pensar e começar a cuidar do que possuem, esses recursos poderão se esgotar antes do que se imagina.Leia abaixo o relato pessimista de Novaes sobre as questões do meio ambiente:JC - Qual a sua maior preocupação, atualmente, em relação ao meio ambiente?Novaes - Há umas três ou quatro semanas saiu um relatório do programa das Nações Unidas sobre o meio ambiente e do WWF analisando o consumo de energia, de alimentos e de recursos naturais no mundo que afirma que nós já estamos consumindo mais de 40% além da capacidade de restauração da biosfera. Eu acho que se o mundo levasse a sério as coisas, pararia diante de uma coisa dessa, porque isso é uma coisa de extrema gravidade. É como se eu dissesse que uma família está gastando 40% além do seu orçamento. Esse relatório coloca com clareza essa questão que nós temos uma dificuldade enorme de perceber que os recursos do nosso Planeta são finitos. Esse mesmo relatório diz, ainda, que se o mundo todo consumisse na proporção que consomem os norte-americanos, os alemães e os franceses, precisaríamos de três planetas, porque um não seria o suficiente. JC - E qual seria a solução?Novaes - Nós vamos continuar nessa situação, no mundo, em que uma minoria produz uma quantidade brutal de poluição, de lixo, de devastação e o resto da população, vive na miséria? Nós temos dois bilhões de pessoas vivendo com menos de dois dólares por dia. Ou você vai estender esse nível de consumo para todo o mundo e produzir uma devastação que vai acabar com o Planeta. Minha preocupação é ver que coisas tão óbvias como essas não são prioritárias.JC - Os países de Primeiro Mundo seriam os que mais deveriam colaborar com isso?Novaes - Seriam os que teriam que avançar mais. Mas é onde a dificuldade está maior porque é lá que o consumo é maior, é lá que a poluição é maior, é lá que a devastação é maior. Terminou agora, há poucos dias, essa reunião de Haia, uma convenção sobre mudanças climáticas. O painel intergovernamental de mudanças climáticas que reúne cientistas de mais de 50 países preparou um relatório dizendo o seguinte: que não há nenhuma dúvida de que o aumento da temperatura da Terra é conseqüência de ações humanas que, a continuar no mesmo ritmo, no próximo século, a temperatura da Terra subirá entre um e seis graus (até aqui ela subiu 0,6 graus) e que isso terá conseqüências catastróficas.JC - Quais seriam essas conseqüências catastróficas?Novaes - Uma delas é uma elevação mínima do nível do mar em 75 centímetros. Se o mar subir 75 centímetros, tem 30 países que desaparecem, são os países ilhas, os países pequenos mais a inundação das áreas costeiras de todos os países, aumento da seca, aumento de furacão, aumento de maremoto.JC - O que poderíamos fazer para tentar evitar isso?Novaes - Nós precisaríamos reduzir o nível de emissão de poluentes entre 50% e 70%. A reunião de Haia era para ver se conseguia um acordo para reduzir 5% e não há acordo. Então, a nossa insensatez é uma coisa desmedida. Na década de 70, eu li um livro que fez muito sucesso, que se chamava A marcha da insensatez de uma historiadora americana. Esse livro mostrava, ao longo da história, uma porção de civilizações que tinham claras dentro delas o sinal de que elas caminhavam para extinção e não mudaram de caminho. Então, me passa a sensação de que nossa cultura também faz o mesmo trajeto, uma situação muito grave e que não é levada a sério.JC - Falta informação?Novaes - Essa é a questão central. Mas é muito difícil porque isso é um assunto muito incômodo. Isso deixa todo mundo muito mexido e se perguntando: o que é que eu faço? No nível individual é bastante difícil você, com suas ações pessoais, mudar um quadro tão grande, embora elas tenham importância. Eu penso que nós precisamos nos informar e aprender a escolher governantes e formatos de governo capazes de colocar a questão ambiental como a questão central e o ponto de partida de todas as políticas, porque tudo acontece na terra, na água e no ar. Então, quando você vai formular uma política, você precisa se perguntar o que vai acontecer a partir disso e você só deveria formular as políticas que fossem adequadas para o meio ambiente. JC - Como está hoje o meio ambiente?Novaes - O meio ambiente, hoje, é uma questão marginal, onde os governos vão fazendo as coisas, depois, lá no final do processo, eles vão ver as conseqüências, não deve ser assim, essa é a questão central do nosso tempo é a questão da sobrevivência.JC - Como atua o jornalismo brasileiro nesse setor?Novaes - O jornalismo tem um papel decisivo, mas eu acho que está muito mal porque também não coloca a questão ambiental como a questão central. Em grande parte da comunicação brasileira, das redações, a questão ambiental é considerada uma questão marginal, meio brega, intelectual fresco, desocupado que não tem muito o que fazer e fica mexendo com isso. Tenho 45 anos de profissão e escrevo sobre meio ambiente já faz 30 anos e fui vendo ao longo desses 30 anos a emergência disso na minha vida e no jornalismo.JC - Para você, em que lugar o Brasil coloca a questão do meio ambiente?Novaes - O Brasil está muito mal em matéria de meio ambiente porque não é uma questão prioritária. O Ministério do Meio ambiente tem menos de 1% do orçamento federal, ele não tem força política, é um Ministério fraco, isolado.JC - E o que o brasileiro pensa do meio ambiente?Novaes - Isso é curioso. De acordo com uma pesquisa feita pelo Ministério do Meio ambiente, dois terços das pessoas se disseram contra qualquer poluição ou devastação, mesmo que fosse em nome do desenvolvimento e da geração de empregos, que são os problemas mais graves do Brasil, mas só um terço das pessoas se consideram elas próprias meio ambiente. Então, eu acho que as pessoas ainda não se deram conta que o nosso corpo é feito de água e de minérios, então o que acontecer à água acontecerá ao nosso corpo e o que acontecer à terra acontecerá com o nosso corpo. Por isso, eu acho que as pessoas têm que aprender a se ver como meio ambiente e também a se perguntar o que é que acontece a partir de suas ações pessoais, por exemplo, o que acontece com o lixo que cada um gera, para onde ele vai, quanto custa tratar esse lixo. Cada pessoa hoje no Brasil está gerando, em média, um quilo de lixo por dia e cada pessoa produz uns 150 litros de efluentes de esgoto por dia, que também não sabe para onde vai. Então, eu acho que o dia em que as pessoas se verem como meio ambiente e se perguntarem o que é que acontece a partir do seu comportamento, as coisas podem mudar.JC - E esse dia vai chegar?Novaes - Vai chegar, mais cedo ou mais tarde, vai chegar. Nós já vivemos coisas tão graves, tão extremamente graves que as pessoas vão ter que se perguntar ou já estão se perguntando um pouco, porque são vítimas de questões ambientais graves.
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