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Falando de Futebol

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 10 min

Vítor Hugo jogou seis vezes pelo Noroeste como zagueiro durante sua longa carreira e agora se prepara para estrear como técnico da equipe bauruenseAos 36 anos, Vitor Hugo Siqueira, o novo técnico do Noroeste, já viveu as mais variadas experiências no futebol jogando em times grandes e pequenos pelo País. Toda essa experiência nos gramados pelos últimos 20 anos o torna uma pessoa altamente credenciada para opinar sobre aquela que é a maior paixão do povo brasileiro, o futebol. O Jornal da Cidade conversou com o técnico e ex-atleta do Noroeste em busca dessa opinião. O resultado foram respostas simples e diretas sobre diversos aspectos que envolvem o principal esporte nacional. Um ponto de vista de quem passou a maior parte da vida dentro das quatro linhas e, portanto, sabe do que está falando.Jornal da Cidade - Você tem vivido intensamente o futebol, pelos últimos 20 anos. Como você vê a situação atual do futebol brasileiro, que hoje já não é considerado por muitos como o melhor do mundo? Será que não somos mais o país do futebol?Vítor Hugo Siqueira - Eu acho que o futebol brasileiro chegou nesse ponto porque as pessoas que lidam com o esporte, que estão no meio, pensam mais no dinheiro do no futebol. É só ver a CPI. Antigamente era preciso jogar 50 anos para ganhar o que o Luxemburgo, por exemplo, ganha em um ano. Hoje se pensa muito em dinheiro, enquanto antes de jogava por prazer. Mesmo assim, acho que o futebol brasileiro ainda é o melhor do mundo.JC - O que faz a diferença entre o nosso futebol e o do outros? Vítor Hugo - O talento natural dos jogadores, sem dúvida nenhuma. Os moleques já nascem jogando bola no Brasil, em outros lugares eles têm que aprender. Brasileiro para o futebol, não tem igual. Já andei um pouco por outros países por ai e vi isso de perto.JC - Essa preocupação com o dinheiro que você diz não existia até o início da década de 80, quando você começou. Hoje, alguns clubes possuem um jogador que ganha mais do que todo o resto do elenco, o Romário e o Edmundo são exemplos. Essas estrelas milionárias do futebol atrapalham seus clubes? Vítor Hugo - O futebol é assim, alguns jogadores ganham para comer e outros ganham um absurdo, como o Romário ou o Ronaldinho, que jogou bola por quatro anos e não precisa fazer mais nada na vida, porque está milionário. Nos clubes pequenos os caras ganham para comer, passam uma carreira inteira jogando futebol e muitos quando se aposentam não têm dinheiro para comprar uma casa. São poucos ganhando muito e muitos ganhando pouco. Deveria haver um certo equilíbrio. É claro que se você é melhor, deve ganhar mais, mas no futebol existe um desnível muito grande. Eu até acho que o Romário, por exemplo, merece o que ele ganha, mas não concordo que os outros ganhem tão pouco. Na Fórmula 1, o Schumacher ganha uma fortuna porque é o melhor, mas outros também ganham bem. Tá certo que é menos, mas até o piloto da equipe mais fraca ganha bem. No futebol não acontece isso. Tem jogadores da série A1 do Campeonato Paulista que ganham R$ 1 mil, outros ganham R$ 200,00.JC - Você ganhou dinheiro jogando futebol?Vítor Hugo - Não ganhei muito, mas o que eu ganhei eu guardei e hoje tenho uma vida tranqüila. Não que não precise trabalhar, mas não estou no desespero. Minha carreira foi muito positiva. Eu me considero um vitorioso na carreira. JC - Esse desnível acaba fazendo com que os melhores times sempre sejam os grandes: Palmeiras, Santos, São Paulo... Aqueles que sempre estão nas finais? Vítor Hugo - Isso acontece porque a coisa começa de cima, pela Federação. Eles contrataram o Edmundo, por exemplo, e deram o jogador ao Santos. Um jogo de time grande vale R$ 600 mil, um jogo de time pequeno tem um valor bem menor. O que acontece? Os times grandes sempre vão ter mais dinheiro para contratar bons jogadores e a tendência é que só eles cheguem à final. Quando um clube do Interior se destaca, surgem problemas de arbitragem, outros problemas... Não é interessante que um time pequeno decida o Campeonato Paulista, ninguém quer o Noroeste e o Corinthians numa final, querem o Corinthians e o Palmeiras, o São Paulo. Dá mais público, o retorno é maior. É o dinheiro acima do futebol. O futebol hoje é negócio, antes não era assim.JC - A solução para os times pequenos é a sociedade ou o convênio com uma grande empresa?Vítor Hugo - Sem dúvida nenhuma. Sem patrocínio não tem condição. O Noroeste é um exemplo. Se não tivesse os patrocínios, não poderia nem disputar o campeonato da A3, vai tirar o dinheiro de onde? O clube não tem mais tantos sócios, nem pode contar com a renda do estádio, além disso a verba da Federação é pequena. Hoje só se sobrevive com patrocínios e a ajuda do empresariado.JC - Nos Estados Unidos, os times de basquete no campeonato nacional (a NBA) não são muitos. Cada Estado possui um, dois ou, no máximo três clubes. Não é uma saída mais inteligente, já que se cada cidadezinha possuísse um clube eles não teriam como sobreviver? Você não acha que seria mais viável ter clubes regionais do que cada cidade ficar tentando levar o seu time nas costas?Vítor Hugo - No Brasil isso não funcionaria. Se é difícil para um time conseguir apoio na sua cidade, imagine conseguir apoio de outras cidades da região. Isso não ia dar certo. JC - Outra característica do atual futebol brasileiro é presença de técnicos Estrela, como Luxemburgo, Luiz Felipe, Parreira. Você acha que eles chamam muito atenção para si mesmos e isso prejudica o time, até porque a torcida e a imprensa pega mais no pé dos treinadores famosos? Vítor Hugo - A pressão existe. Hoje há uma norma que diz que se um treinador perde alguns jogos na seqüência, tem que sair do time. Por que? Porque o futebol é comércio e por isso só quer vitória, vitória e vitória. Os clubes que mantém os técnicos por muitos anos, como o Vasco (com Antônio Lopes) ou Palmeiras (com Luiz Felipe Scolari), não fazem isso porque confiam no trabalho deles, mas porque não podem pagar a multa recisória que é estabelecida no contrato. Um técnico que está começando, como eu, se faz uma proposta dessa para o clube, nem começa a trabalhar, nem faz contrato. A realidade é essa. JC - Existe jogador que faz corpo mole para derrubar o técnico?Vítor Hugo - Eu joguei futebol 22 anos e não acho que isso acontece. Quando entra em campo, o jogador esquece esse negócio de rivalidade. Pode até ser que ele tenha um problema com o técnico, mas na hora, esquece. A partir do momento que você briga com o técnico, tem uma razão a mais para entrar no campo querendo arrasar e mostrar para ele que você é capaz de estar jogando. Para poder fazer como o Zagallo e dizer: você vai ter que me engolir.JC - Você imagina que sua vida como técnico vá ser mais difícil do que como jogador? Vítor Hugo - Alguns treinadores afirmam que escalam e fazem substituições, mas não têm responsabilidade sobre o que acontece em campo. JC- O que é melhor então, ser jogador ou técnico?Vítor Hugo - No futebol sempre vai ser assim: se o time perder, a culpa vai ser do técnico. Se ganhar, o mérito vai ser dos jogadores. O treinador tem que assumir suas responsabilidades, não adianta fugir. A torcida também vê as coisas desse jeito, se um time vence é porque alguém jogou muito bem, no caso de derrota, pode até dizer que um jogador foi mal, mas a culpa vai ser do técnico. A vida vai sempre mais cruel com o técnico.JC - Qual a sua expectativa para o primeiro campeonato como técnico, ainda mais à frente do Noroeste?Vítor Hugo - É grande, por uma série de fatores. Em primeiro lugar, porque é minha estréia, depois porque a gente precisa dar uma mudada no Noroeste, motivar a cidade que está carente de futebol. A gente está com vontade de fazer um grande Campeonato Paulista. JC - O objetivo já é subir de divisão?Vítor Hugo - Com certeza, a partir do momento que você entra numa disputa, é para ganhar. Esse é o nosso objetivo. Independente de ter ou não dinheiro, a gente sempre vai buscar ser o melhor, buscar o topo. JC - Qual foi o seu melhor momento, ou a melhor lembrança no futebol?Vítor Hugo - Títulos são sempre o melhor momento, mas acho que um dos motivos de maior alegria para mim era entrar no Maracanã lotado, com a camisa do Flamengo e enfrentar um time grande como o Vasco, o Botafogo. É uma emoção muito grande.JC - E a pior? Vítor Hugo - Nunca tive contusões. O pior momento da minha carreira, sinceramente, foi ter sido dispensado pelo Noroeste esse ano. Eu joguei seis vezes aqui, subi com o time duas vezes, fiz a minha carreira aqui dentro. Eu poderia ter sido dispensado por qualquer clube do mundo, menos pelo Noroeste. E fui. Mas já passou e agora estou de volta com toda vontade de ajudar o clube.JC - Você tem um sentimento especial em relação ao Noroeste?Vítor Hugo - Tenho... O Noroeste foi o time que me projetou. Cheguei desconhecido do Sul, com 21 anos e fui projetado aqui. Espero conseguir no Noroeste o mesmo destaque como treinador que consegui como atleta, praticamente comecei aqui. Espero ter a mesma sorte como técnico.Jogando pelo BrasilVítor Hugo Siqueira nasceu em Muçum, no Rio Grande do Sul, e possui um currículo dos mais ecléticos que um jogador pode ter dentro do País, tendo defendido equipes grandes, como o Grêmio e o Flamengo, e times pequenos, como o Goiatuba e o Barra do Garça. Suas andanças pelos campos brasileiros lhe renderam experiência e títulos (Cearense, Sergipano, Paraense, além da Copa do Brasil). Ele começou a jogar futebol no juvenil do Flamengo, em 1981. Profissionalmente, começou no Grêmio, onde ficou até o meio de 83. Em seguida, se transferiu para o também gaúcho Bento Gonçalves, onde ficou dois anos e meio. Em 86, Vitor Hugo começa a primeira de suas muitas parcerias com o Noroeste, como titular da equipe que conseguiu o acesso à primeira divisão do Campeonato Paulista naquele ano. No início do segundo semestre de 87, ele foi para a Internacional de Limeira disputar o Campeonato Brasileiro. Em 88, estava de volta a Bauru, para jogar o Paulistão. Depois da campanha, foi emprestado ao Bragantino, que comprou o seu passe logo após ter conseguido passar para a 1ª divisão. Em 89, Vítor jogou no Guarani de Campinas e em 90, no Flamengo, onde conquistou seu mais importante título, Copa do Brasil. No ano seguinte, voltou a Bauru, para o Paulista e o Brasileiro. Em 92, defendeu o Paysandu, de Belém do Pará, onde foi campeão estadual e em 93, o Marília e o Ceará, onde foi vice-campeão da Copa do Brasil. Em 94, jogando em vários clubes, disputou o Paulista, o Cearense, a Copa do Brasil e o Brasileiro. Em 95, Vítor foi para o Matsubara, do Paraná, passou pela São Carlense e terminou o ano na Portuguesa de Desportos. Em 96, foi contratado pela São Carlense e mais tarde pelo Confiança de Aracaju. Venceu o Campeonato Sergipano e ainda teve tempo de vencer o Cearense também, jogando as finais pelo Ceará. Seu ano terminou no Paraná Clube, onde disputou o torneio nacional. Em 97, voltou mais uma vez ao Noroeste e terminou a temporada no Ceará. 1998 foi um ano de vários clubes novos para o zagueiro, que defendeu o Fortaleza, o Goiatuba, o Barra do Garça e o Remo. Em 99, jogou apenas o Paulista pela Francana e ainda esse ano encerrou a carreira como jogador defendendo o Noroeste e, finalmente, o Olímpia.

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