Marcos Pontes fala sobre seu treinamento, suas atividades, sua expectativa e sobre a imagem do Brasil junto aos colegasA primeira viagem do astronauta brasileiro Marcos Cesar Pontes ao espaço deve acontecer no ano de 2004. O major aviador esteve ontem em Bauru para participar de uma cerimônia em sua homenagem. Em entrevista coletiva à imprensa, Pontes falou sobre sua expectativa e ansiedade. Comentou seu treinamento, descreveu as principais funções de um astronauta durante uma missão e falou sobre a participação do Brasil nas pesquisas espaciais. O bauruense participa de um rígido treinamento para ser um dos tripulantes da Nasa na Estação Espacial Internacional (ISS). Especialista em missão, ele afirma que seu trabalho vai desde a montagem e manutenção da estação, até a execução de experimentos. A seguir, trechos da entrevista.JC - Existe uma previsão para sua atuação como astronauta?Pontes - Existe uma grande expectativa para 2004. Porque o Brasil está produzindo uma das peças que vai integrar a Estação. Ela deve ser lançada em 2004. (...) Logicamente eu tenho muita vontade de acompanhar esta parte brasileira da Estação, a primeira a ir para lá. E vai ser numa época boa do treinamento para mim.JC - Sabe quanto tempo vai ficar e que tipo de serviço específico você vai fazer lá?Pontes - Isso só é designado exatamente quando você é escalado para a missão, quando a missão é montada, mais propriamente dito. De modo geral, uma missão de ônibus espacial dura de 11 a 15 dias. O limite do ônibus espacial são 17 dias, com tanques extras de oxigênio e hidrogênio. O limite sendo 17 dias, de 11 a 15 dias é o tempo normal de missão. Na Estação Espacial as missões são variáveis. Essas primeiras tripulações estão ficando quatro meses - esse é o tempo que eu espero estar na estação também. Mas isso já seria uma segunda missão. A minha idéia é fazer duas missões. A primeira de ônibus espacial, 15 dias. Depois de três anos mais ou menos dessa primeira missão, um segunda missão (para ficar) na estação espacial. O trabalho na estação varia muito. A estação possui vários sistemas (...) e sempre são três astronautas por cada sistema: um comandante e dois backups (na linguagem da informática, cópia de segurança). (...) A estação, afinal de contas, é um laboratório grande, com vários experimentos ocorrendo. Nós fazemos o serviço todo, execução dos experimentos, mandar esses dados para o chão, verificar o que o cientista que projetou aquele experimento deseja que seja feito e assim por diante.JC - O curso preparatório terminou em novembro. E agora?Pontes - A parte de simulações, toda a parte técnica da estação e do ônibus espacial, a instrução técnica terminou em novembro. O que eu prossigo agora é que existem vários outros ramos de treinamento. Por exemplo, eu já treinei mergulho, mas ainda tenho que fazer o mergulho com a roupa espacial. Tem um treinamento na Rússia que estou tentando fazer há tempos, tem treinamento no gelo, no deserto, no mar e assim vai. Isso talvez a gente comece em fevereiro. Depende, porque a prioridade para treinamento é das missões que estão ocorrendo. Aí, quando a tripulação sobe para o espaço, eles encaixam os novatos para treinar também. E a gente tem que fazer muito ainda. Isso vai acontecendo durante o ano, conforme eles vão conseguindo ajustar. Afinal, envolve muitos ajustes: acordo com países, utilização de equipamentos e recursos de outros países. Também existem treinamentos periódicas, como o vôo. Eu faço pelo menos um vôo por semana numa aeronave muito parecida com o F-5. Muitas vezes vou à Flórida, acompanho os testes de montagem da estação. Além do treinamento, cada um de nós também tem uma função técnica no chão. No meu caso, eu represento o escritório dos astronautas junto a um grupo grande que faz esses testes de conexão de interface entre os elementos da estação. Então, qualquer módulo antes de ser lançado é levado a Kennedy, é conectado junto com outros módulos que lá estejam, ou com simulações de outros módulos. Nós testamos todas essas interfaces, se você é capaz de comandar aquele módulo tem que fazer, se você recebe todos os dados do módulo e assim por diante. Para isso tem uma equipe grande de engenheiros, centenas de pessoas que fazem isso e eu sou o representante do Escritório dos Astronautas. Eu fico observando a parte operacional, se os procedimentos que estão sendo feitos estão de acordo, se os astronautas concordam ou não com esses procedimentos, porque afinal de contas a gente que vai ter que executar.JC - O treinamento tem alguma experiência mais estranha, de adaptação? Por exemplo, a alimentação?Pontes - Por enquanto não. A parte de alimentação é normal agora. O que a gente tem a cada seis meses é que eles dão uma folha de papel com uma lista de alimentos diferentes e colocam uma fila na mesa de alimentos espaciais. Você vai experimentando um a um e dando nota.JC - Todos ganham zero...Pontes - Não. Tem alguns que são bons. Você vai experimentando, dá nota. Depois, eles pegam a sua relação, vêm do que você gosta. Quando você for para o ar, eles pegam aquela relação sua e vêm o que o tripulante gosta e não gosta, eles vão montar o cardápio dele baseado nisso. Dizem que quando você chega no espaço, por alguma razão, talvez excitação, talvez a quantidade de coisas que tem que fazer, tira a fome. O pessoal fala que chega lá e não tem fome nenhuma. É normal a perda de peso, cerca de 3kg em 15 dias. Chega lá tem aquela alimentação que você escolheu. Mas na verdade o pessoal costuma comer chocolate e barras de cereal.JC - E a ansiedade?Pontes - Bastante. Dá vontade de ir. Você vê as tripulações sendo escaladas... Eu fiz esquadrão durante bastante tempo aqui. Então você vai de manhã para o esquadrão, senta lá na reunião diária e o oficial responsável pelas operações faz a escala. Na reunião ele vai falando quem vai fazer o quê. A mesma coisa é lá. A gente chega nas reuniões segunda-feira, senta e fica esperando. Porque eventualmente existe uma escala: Hoje vamos divulgar a tripulação da missão 97, vai ser fulano, fulano...JC - Você é o único representante do Brasil. Como isso influencia no Programa Espacial Brasileiro?Pontes - Eu não estou lá como espião, mesmo porque, o que a gente tem acesso como astronauta é a parte operacional dos sistemas. E o benefício que eu vi basicamente agora é justamente ter uma conexão. Só a minha presença lá, o tempo todo existe uma bandeira do Brasil que participa. É um tipo de marketing para as nossas empresas. Logicamente ali correm empresas de todos os tipos que se pode imaginar e o Brasil vai ser lembrado sempre. JC - Como é a imagem da indústria brasileira lá fora?Pontes - Veja - logicamente tenho vários amigos lá no colégio e eles acompanham as brigas da Embraer com a indústria canadense. Para eles causa surpresa muitas vezes saber o que a gente consegue produzir. Eles perguntam Puxa, o Brasil tem tudo isso lá, eles estão fazendo isso? Ou senão Você já voou em tal avião? É uma coisa que dá um certo orgulho para a gente, você está ali, a empresa é competitiva. Você vai ao aeroporto de Houston... Tá vendo aquele avião? É do meu País.JC - Você vai ter uma outra visão do que é viagem. Como você avalia isso no sentido turístico?Pontes - Vai ser uma viagem e tanto. A ida vai ser rápida. São 8,5 minutos até entrar em órbita, depois mais algum tempo até acoplar à estação. Mas imagine o visual que você deve ter de uma estação dessas. Do ônibus espacial são várias janelas de observação de onde você pode ver a Terra. A estação não tem tantas, mas existem planos para que ela tenha uma cúpula de observação da terra. Imagino que a visão seja maravilhosa. Já o espaço é restrito, não tem praia - embora o efeito de radiação seja grande. Acho que é uma coisa que todo mundo sonha, você poder ver a Terra de uma certa distância, ter esse tipo de experiência. E eu tenho esperado isso ansiosamente.JC - Você poderia se considerar um exemplo para o povo brasileiro como um todo?Pontes - Se eu tenho um exemplo para dar eu acho que seria o fato de eu ter saído de uma classe média. Meu pai era servente do Instituto Brasileiro do Café, minha mãe era escriturária da Rede Ferroviária. E eu tive que começar a trabalhar com 14 anos para poder pagar meu colégio - eu queria fazer colégio técnico. E o que eu vejo hoje em dia, principalmente nos adolescentes, há um certo desânimo. Se eu não sou rico, não vou conseguir entrar numa universidade boa. Existe uma certa idéia com relação a isso. Se eu tenho um exemplo para dar, talvez o exemplo seja esse. É possível fazer.HomenagemA visita do major aviador Marcos Cesar Pontes a Bauru se deve a uma homenagem. Ele recebeu anteontem o prêmio Profissional do Ano, oferecido pela Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru (Assenag).De acordo com o presidente da Assenag, Cláudio Antônio Berriel Ricci, o evento é realizado há 14 anos. De dois em dois anos nós escolhemos um profissional da nossa área, seja de engenharia, arquitetura ou agronomia, que tenha tido destaque regional, nacional ou internacional. O major Marcos Pontes tem sido uma pessoa de destaque esse tempo todo. E o nome dele foi escolhido numa reunião por unanimidade.
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