Geral

Cursos técnicos mudam o currículo em 2001

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

A educação profissional de nível técnico está prestes a sofrer grandes mudanças no próximo ano. A razão é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), estipulada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), que exige que as escolas com curso de nível técnico ofereçam ensino baseado em competências. O prazo para que as escolas apresentem suas novas propostas de currículo e o seu novo plano de curso vai até dezembro de 2001, mas algumas instituições já se adiantaram e vão começar o ano dentro da lei, que deve tornar o ensino técnico mais ágil e prático.A principal mudança da lei fica por conta do ensino de blocos de competências, que podem ser definidos dentro de critérios flexíveis em cada unidade de educação profissional. A escola deve submeter seus planos de curso ao Conselho Estadual de Educação ou à Diretoria Regional de Ensino, conforme o caso e, depois de aprovados, eles vão estar disponíveis ao público pela Internet no site do Ministério da Educação (www.mec.gov.br). Cargas horárias mínimas para aulas e estágios supervisionados foram preservados.O modelo anterior adotado pelo governo fixava currículos mínimos para as escolas. O planejamento da escola era feito a partir do currículo pré-definido para cada habilitação profissional. Os mínimos curriculares agora serão delimitados pela própria instituição de ensino. O CNE definiu apenas diretrizes e princípios para orientar os currículos. As escolas devem partir do perfil profissional desejado na conclusão do curso. Elas têm que definir com clareza qual é o profissional que querem formar. Decidido esse perfil, serão determinadas as competências que devem ser desenvolvidas para atendê-lo.Segundo Francisco Aparecido Cordão, relator da resolução 04/99 e do parecer 16/99, do CNE, que definem as diretrizes curriculares para a educação profissional de nível técnico, competência, é a capacidade do indivíduo de articular, mobilizar e colocar em ação conhecimentos, habilidades e valores necessários para responder aos desafios da vida profissional de modo eficaz e eficiente. Isso é o que vai ser trabalhado com os alunos. Para isso, a composição de um novo currículo se fez necessária. O currículo é meio para o desenvolvimento de competências e o compromisso da escola é com o perfil profissional de conclusão de curso, aponta Cordão. Outra inovação importante é a possibilidade de os cursos serem organizados em módulos, de forma que o aluno possa receber certificados de qualificações intermediárias, antes do título de técnico e, mesmo depois de diplomado como técnico, possa cursar especializações complementares à carreira escolhida. Ou seja, o aluno à medida em que avança no seu curso técnico, vai recebendo certificados de aprendizado, vai adquirindo competências. Por exemplo, num curso de contabilidade, se ele estuda só um semestre sai como auxiliar de escritório. Se estuda mais um, sai com outra formação. Mesmo que ele demore ou não termine o curso, vai ter conhecimentos para ter uma profissão, até que se forme. Antigamente, o aluno entrava no curso e se saia, por alguma razão, depois de dois anos, não havia ganho nada, tinha perdido tempo. Agora, ele vai sair com alguma formação mínima. O curso é muito mais objetivo e qualifica o aluno a trabalhar na comunidade, opina José Luiz Garcia Peres, um dos diretores do Colégio Preve Objetivo, que oferece cursos técnicos nas áreas de Magistério, Processamento de Dados, Publicidade e Contabilidade. Na sala de aula, as modificações também devem ser radicais, a começar pela denominação dos cursos que devem mudar. O curso de Contabilidade, por exemplo, passa a se chamar Gestão; Publicidade, Comunicação; Eletrônica, Telecomunicações e assim por diante. Os professores deverão receber treinamento especializado para que se integrem às prescrições do plano de curso de sua instituição, tornando-se aptos a incluir o conteúdo que ensinam ao quadro geral das competências desejadas pela escola para o aluno formado. Ou seja, um quadro curricular com disciplinas estanques, que fragmentam o conhecimento e dificultam a síntese necessária ao desempenho profissional eficiente deve ser substituído por blocos de competências, abordados por professores integrados entre si e munidos de um planejamento de aulas coerente com a nova perspectiva interdisciplinar.EscolasPara as escolas, a nova lei significa, também, ter de investir em qualidade para garantir a presença do aluno que, com currículos variados em diversas instituições, vai poder escolher a que melhor lhe atender e tiver melhor plano. A nova LDB diz que o cliente (o aluno) tem o direito de conhecer o projeto pedagógico e o plano de curso da escola, cobrando sua execução, diz Cordão. O próprio cliente pode consultar o plano ou um programa pela Internet, antes de se matricular, para procurar o melhor curso, completa.Na opinião de Jurandir Scriptore Ranieri, coordenador pedagógico do Liceu Noroeste, as mudanças foram muito positivas porque obrigam todas as escolas a pensarem em qualidade. O Liceu, que oferece cursos de Contabilidade (Gestão), Edificações (Construção Civil), Eletrônica (Telecomunicações), Laboratório de Prótese Dentária (Saúde), Publicidade (Comunicação) e Informática, deve colocar em prática a nova LDB, em junho de 2001. Já estamos com 80% das mudanças realizadas, garante Ranieri. O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), já atendeu as exigências, com antecipação, e os programas da entidade que se iniciam a partir de fevereiro já vão estar adaptados à nova sistemática de ensino. De acordo com Antonio Morales de Camargo, gerente regional do Senac em Bauru, os cursos profissionais de nível técnico oferecidos em 2001 já estão sintonizados às novas exigências do MEC, abrangendo as áreas de Saúde, Segurança no Trabalho, Administração, Informática, Turismo, Beleza e Decoração.Outra instituição que já se adaptou à lei é o Preve Objetivo. Para o seu diretor José Luiz Garcia Peres, a LDB é um grande avanço porque muda o foco do trabalho escolar que deixa de ser de transmissão de conhecimento, para construção de competências. Como a tecnologia avança cada vez mais rápido, isso requer que o curso seja rápido em passar a informação para o aluno, diz. Na sua opinião, o principal objetivo do novo curso deve ser ensinar o aluno a aprender sempre, a aprender, a aprender. Hoje você não pode receber um conhecimento e ficar estático naquilo que aprendeu. A principal condição que se dá ao técnico hoje é ensinar ele a a aprender, a aprender. A tecnologia é muito rápida. Por isso eles precisam dessa estratégia para saber adquirir novos conhecimentos, explica o diretor, O profissional do futuro deve saber onde e como acessar o conhecimento quando esse conhecimento chegar.

Comentários

Comentários