O bauruense está perdendo o preconceito de comprar peças de vestuário e objetos usados. Prova disso é a febre de brechós e bazares da pechincha que estão tomando conta da cidade. O crescimento desse segmento está atraindo para o comércio central da cidade pessoas que trabalhavam de forma informal e até empregados de outros estabelecimentos, que acabam abrindo o próprio negócio.A vantagem de encontrar roupas e sapatos por preços irrisórios (até a R$ 0,50) é que está levando o grande público a esse tipo de loja. Para as pessoas de baixo poder aquisitivo, encontrar um lugar onde possa adquirir várias peças por um baixo custo é um fator até de necessidade, disse a proprietária de um brechó instalado na avenida Rodrigues Alves, Sônia Conceição Bueno.Ela trabalhou durante 11 anos vendendo roupa usada de maneira informal, aproveitando as horas vagas. Ia de fazenda em fazenda oferecendo peças de segunda mão aos trabalhadores e vendia tudo. Depois de um período de descanso, ela retornou à atividade, mas, desta vez, com o objetivo de atingir um público bem maior. Acho que não se trata apenas de uma febre passageira. Os brechós vieram para ficar. Nos dias atuais, está muito difícil ganhar dinheiro e o negócio é o reaproveitamento de tudo que não é descartável, explicou a empresária.Valdir Gomes Teixeira veio de Araçatuba para Bauru, há menos de um ano, com uma idéia em mente: montar uma alfaiataria na cidade. Conseguiu realizar seu desejo, mas o negócio não foi tão bom assim. Com o preço das confecções bem acessível hoje em dia, ninguém procura serviço de alfaiate. É muito difícil conquistar a freguesia, contou. Ele percebeu que as roupas feitas ou consertadas por ele estavam chamando a atenção de quem passava pela rua. Muita gente parava para perguntar preço e queria adquirir as peças. Foi assim que me despertou a idéia de trabalhar com venda de roupa usada, disse.O impulso veio do Jornal da Cidade. Lendo os classificados, ele viu o anúncio de um brechó que estava à venda e decidiu investir. Foi a melhor coisa que eu fiz, disse.Seis meses depois da empreitada, as vendas só têm aumentado. A gente não ganha rios de dinheiro com esse negócio, pois o valor das peças tem que ser baixo aos consumidores. Mas, está dentro das expectativas que eu tracei, ressaltou.Peças exóticasUm brechó é uma verdadeira caixinha de surpresas. As peças chegam a surpreender, às vezes, pelo preço, às vezes pelo fator raridade. Um sobretudo pode ser encontrado por R$ 10,00. Também é possível achar, no meio da enorme quantidade de peças, de lingeries a camiseta de time, de calças boca-de-sino a vestidos de noiva. Tem público para todos os tipos de roupa, afirmou Teixeira.O visual não é dos mais arrojados. Pela quantidade de produtos à venda, os lojistas nem têm como fazer uma decoração clean. Por isso, às vezes é preciso paciência para encontrar uma peça no tamanho desejado. Mas, isso é o que menos importa. Os clientes dos brechós costumam perder horas escolhendo aquilo que mais se encaixa no seu gosto e nas suas medidas.Aproveitando o seu grande conhecimento do ramo comerciário, a vendedora Valéria Siqueira investiu em um negócio próprio. Montou um brechó a uma quadra da loja onde trabalha. Tem muitas pessoas que me procuram para vender as roupas que não usam mais. Eu compro e coloco no brechó por preços bem baratos, contou.Há menos de um mês, Valéria ganhou uma parceira. A costureira Vanda Fukue uniu-se a ela para vender, no mesmo brechó, roupas para casamento. Algumas roupas sou eu quem faço; outras, compro e conserto, disse. Um traje de noiva pode ser encontrado na loja a partir de R$ 100,00.ClientelaOs empresários contam que as pessoas perderam o preconceito com relação à roupa usada. Isso é uma característica regional. Em Araçatuba, por exemplo, não tem público para brechó. As pessoas têm vergonha de entrar numa loja dessas, contou Teixeira. Isso acaba se tornando uma vantagem para ele, que busca lá as peças para vender na sua loja. As entidades bem que tentam realizar bazar beneficente em Araçatuba. Mas, dificilmente obtêm sucesso. As pessoas não compram. Então, eles me ligam e me oferecem as peças. Vou buscá-las e vendo tudo aqui, contou.Quem pensa que cliente de brechó são só pessoas menos abastadas financeiramente, engana-se. Grande parte dos consumidores pertence à classe média e alta. Alguns preferem disfarçar, dizendo que estão comprando roupas para empregados, mas acabam escolhendo peças para si, segundo contaram os lojistas.Tem muitos jovens que nos procuram em busca de roupas exóticas, meio hippies. Outros, buscam uma fantasia para festa dos anos 70. Alguns querem roupas para trabalhar mesmo. É bem variado, disse Teixeira.
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