O seu primeiro nome já previa que dezembro não estava destinado a ser um mês normal na sua vida. Há 7 anos, no dia 24 deste mês, o atendente Natal Segantin se transforma no senhor Natal, ou melhor, no próprio Papai Noel, para centenas de crianças nos bairros da periferia da cidade, onde distribui presentes e doces. Aos 56 anos, ele não é um velhinho como diz o título, mas encarna como poucos a figura do verdadeiro bom velhinho da lenda, que se preocupa em não deixar que nenhuma criança fique sem presente no fim de ano. Jornal da Cidade - Por que o senhor começou a distribuir brinquedos no Natal vestido de Papai Noel?Natal Segantin - A gente passava nas favelas, nas ruas e via muitas crianças pobres. Um dia disse para minha mulher que a gente deveria fazer alguma coisa por elas. Decidimos comprar brinquedos para elas no final do ano. Quando chegou a data, minha mulher e minha filha haviam feito uma fantasia para mim. Foi uma surpresa. Elas disseram: sua fantasia está pronta. Eu perguntei: que fantasia?. Depois disso compramos presentinhos bem simples e saímos distribuindo na perua que o meu filho tinha. Foi um sucesso. No ano seguinte eu falei com o diretor do Sesc, onde eu trabalho, e consegui divulgar melhor o meu trabalho, a campanha. Rodamos muitos folhetos e distribui por toda a cidade e pelos órgãos de imprensa. O segundo ano foi um sucesso ainda maior, arrecadamos mais de 3 mil brinquedos e distribuímos pelas favelas da cidade e também pelos bairros. Onde a gente via criança, parava e dava presentes. Os outros anos também foram bons porque as pessoas passaram e ver que era um trabalho sério e os veículos de comunicação ajudaram muito. O ano passado a quantidade de doações caiu um pouco, mas não importa, o que vale é fazer a entrega do que a gente tem. Esse ano o pessoal mandou presentes mesmo sem eu ter feito campanhas. JC - Como o senhor se sente quando entrega, muitas vezes, o único presente que a criança vai ganhar no Natal?Natal - A emoção é muito grande. Eu vou com uma equipe, formada por pessoas da minha família e alguns voluntários. Eles vão lá antes e organizam as crianças, distribuindo senhas um dia antes. Isso serve para que nenhuma criança ganhe dois presentes e outra fique sem. No dia eles fazem uma fila e só depois chamam o Papai Noel. Eu chego um cima de uma viatura cedida pela Bauru Painéis. Quando chego é só alegria para as crianças.JC - O senhor escolhe um bairro ou passa em todos?Natal - Passamos primeiro nas favelas e depois nos bairros. Vamos entregando na rua, onde houver crianças. Quando sobra brinquedos vamos até Piratininga, Agudos...JC - Muitas pessoas que hoje entregam presentes no Natal para crianças carentes, fazem isso porque tiveram uma infância sofrida, na qual o fim de ano não era uma data tão especial. Como eram os seus Natais de criança?Natal - A minha família veio de Jaú quando eu tinha 2 ou 3 anos de idade. Quando era pequeno, tudo o que queria era uma bola. A gente não tinha. Só quando meu pai matava um porco é que pegava a bexiga do porco para fazer bola, ou então, fazíamos de meia, pegávamos meias da minha mãe e do meu pai escondidos. Hoje as coisas são mais fáceis. Toda criança pode ter uma bola, nem que seja de plástico. Meus brinquedos eram de chuchu, a gente fazia boizinhos. Quando a gente perguntava sobre o que o Papai Noel iria trazer, sempre pedia uma bola. Mas ela nem sempre vinha. Meu pai também não tinha condições e naquele tempo as coisas eram mais difíceis. JC - O senhor pretende continuar alegrando a vida das crianças no Natal?Natal - Minha esposa anda sugerindo que a gente pare, mas acredito que enquanto tivermos força, vamos fazer. Perdemos uma nora recentemente e isso deixou a gente muito abalado. Ela também me ajudava no dia da entrega. Mas creio que lá de cima ela vá ficar contente sabendo que a gente está fazendo a entrega como todos os anos. Da minha parte eu pretendo continuar até quando Deus quiser. Eu sempre peço que mais pessoas façam o que a gente faz porque um Papai Noel só não agrada tantas crianças. É importante para as crianças, mesmo que eu consiga entregar 2 ou 3 brinquedos, alguma criança vai ficar sem. É preciso que existam mais voluntários, mesmo que não se vistam de Papai Noel e também que eles não façam toda a entrega num lugar só ou tudo no mesmo dia para que todas as crianças possam ganhar presentes. Quanto mais gente estiver entregando presentes, melhor. Como surgiu o Papai NoelSão Nicolau foi um bispo que nasceu em, aproximadamente, 280 d.C. na Turquia e foi muito bondoso em vida. Existem algumas histórias a seu respeito que realçam sua generosidade. O santo livrou muita gente da fome e teve pelas crianças um carinho muito especial, que o levou a fundar um orfanato. Ele chegou a estar preso pelos romanos, sendo libertado pelo imperador Constantino, que se convertera ao Cristianismo. Foi protetor de marinheiros ladrões e mendigos, tendo se tornado santo mais tarde. O seu corpo encontra-se hoje na cidade de Bari, na Itália.A Holanda é o país que mais o festeja, pois diz-se que foram barcos holandeses que trouxeram as primeiras notícias dele para o Norte da Europa. Segundo a tradição holandesa, que celebrava o dia do santo em 6 de dezembro, nessa data Nicolau visitava as casas e deixava presentes para as crianças junto às lareiras. A história do Papai Noel como conhecemos hoje começou a se desenhar nos Estados Unidos, a Meca do marketing e do consumo ocidental, em 1823, quando o professor de literatura grega e poeta Clement Moore escreveu o poema Uma visita de São Nicolau, no qual o bom velhinho foi apresentado como senhor bonachão, bem disposto e generoso que distribuía presentes montado em um trenó puxado por renas. O poema ficou famoso e influenciou toda uma cultura.O visual que nós conhecemos, do Papai Noel gordo, alegre e de barba branca foi criado pelo desenhista Thomas Nast para a revista americana, Harpers Weeklys em 1881. A cor das suas roupas tem uma origem mais comercial. Antigamente, o Pai Natal vestia-se de formas muito variadas, com cores fortes e na cabeça usava normalmente um gorro ou uma coroa de azevinho. No entanto, a sua figura nunca foi representada de uma forma única e que o caracterizasse universalmente. Até que em 1931, durante as suas campanhas de inverno, a empresa Coca-Cola veio resolver a questão. Usaram a figura de São Nicolau (ou Santa Claus - para os americanos) com umas vestimentas especiais, para promover a bebida. Contrataram um ator para representar o bispo, ao qual vestiram de vermelho, de calças e túnica e, na cabeça foi colocado um gorro também vermelho, com um acabamento em branco e um pompom na ponta. Portanto, estas duas cores foram escolhidas porque eram as mesmas da embalagem da Coca-Cola. Esta campanha correu o mundo e alcançou um grande sucesso, tornando a figura do Pai Natal, verdadeiramente carismática. A lenda estava criada.
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