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Os anjos do Natal

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

O Natal é tradicionalmente uma época não só de comemoração, mas também de confraternização e reflexão. É quando as pessoas param mais para pensar sobre a vida, as perdas e ganhos do dia-a-dia, o amor que sentem pelos familiares e amigos. É raro encontrar um indivíduo que não se sensibilize com o chamado espírito natalino. Felizmente, algumas pessoas se sensibilizam mais do que as outras e colocam em prática os mais nobres sentimentos que a festa do nascimento de Jesus inspira: a fraternidade e a solidariedade. Munidos de força de vontade e disposição, alguns voluntários transformam o Natal de crianças carentes, de uma data comum, sem motivo para comemoração, no melhor dia do ano.O primeiro detalhe que chama a atenção nessas pessoas tão especiais é a origem. Nenhum deles nasceu em berço de ouro e pode se dar ao luxo de não trabalhar. São pessoas humildes (assim como era o menino que veio ao mundo há dois mil anos e cujo nascimento hoje é motivo de festa), que não têm muito mais a oferecer ao próximo do que o seu empenho, sua honestidade e o seu amor. Sempre trabalhei com entidades e morei na periferia e por isso sei como é uma criança ter vontade de ganhar um brinquedo e não poder, conta o auxiliar administrativo Jorge Munhoz Morales sobre porque começou a distribuir presentes para crianças carentes, tarefa que executa há 9 anos, apesar da deficiência física. Jorjão, como é conhecido, arrecada brinquedos novos e usados e no Natal os distribui para crianças na rua do bairro onde mora, o Parque Roosevelt e nas imediações. Onde tiver uma criança eu paro. Muitas vezes os pais nem chegam a saber de quem elas ganharam o presente porque não me vêem. Não preciso aparecer, não faço isso com outros fins, revela. A vendedora autônoma Maria Madalena Bráz de Oliveira, a Madalena Branca, decidiu juntar doações para crianças carentes como forma de agradecer tudo o que teve na vida. Prometi que tudo o que recebesse iria dar de volta, conta. Há anos, ela se envolve em campanhas para ajudar os menos favorecidos. Já arrecadou mais de 2 mil quilos e alimentos para serem doados no Nordeste e todos os anos garante os brinquedos das crianças carentes da Ferradura Mirim, seu bairro. Apesar do histórico, Madalena conta que muita gente ainda desconfia da honestidade de campanhas desse tipo e por isso nem sempre as doações acontecem. Mas ela não desiste: Vou continuar fazendo isso pela vida toda, se Deus quiser, afirma. A ialorixá Adelaide Moreira André, mais conhecida como Adê de Oxum, também tem um histórico de serviços prestados ao próximo. Há 20 anos (12 em Bauru), ela promove um almoço para pessoas carentes. Segundo ela, a iniciativa não partiu por nenhuma razão especial a não ser o fato de saber que havia gente necessitada. É tão bom ser convidado para um almoço de Natal, todas as pessoas têm esse direito, acredita. Adê democratiza a mesa e nela se sentam todos os que quiserem, de mendigos a prostitutas. Não temos que ter vergonha deles, a vergonha maior e a gente que faz eles passarem com essa situação do País, diz a ialorixá.O almoço de Natal de Adê, que esse ano contou com 250 pessoas e foi realizado na Emei Edna Kamila Faina, já que sua casa (local dos primeiros almoços) se tornou pequena, é o terceiro do ano no seu calendário. Ela realiza um evento nos mesmos moldes na Páscoa e no dia de Nossa Senhora Aparecida também. Gosto de fazer isso e, se hoje posso ajudar, vou ajudar. Não sou rica, mas na minha casa arroz e feijão não faltam, revela a ialorixá que brinca, dizendo que realizará os almoços enquanto achar que o seu filho ainda for uma criança. Ele tem 23 anos atualmente.A caráterAlguns preferem personificar o espírito do Natal por completo e se fantasiam, como Jair Figueira que, vestido de Papai Noel, passeia pelas ruas da cidade num trenó - com renas e tudo - puxado pelo carro do irmão, Manuel Figueira. A dupla distribui balas e faz a alegria das crianças nos dias que precedem o Natal há cinco anos. A funcionária pública Pierângela Filizzola começou a distribuir brinquedos quando se sensibilizou com a história de sua faxineira, que não tinha condições de dar um presente de Natal para os filhos. Comecei uma campanha para que nenhuma criança ficasse sem presente, conta. Há 6 anos ela faz a distribuição do que arrecada (brinquedos, doces, roupas, refrigerantes) vestida de Mamãe Noel, juntamente com alguns voluntários no Parque Jaraguá. Pretendo fazer isso até quando puder, decreta.Trabalho em conjuntoNão são apenas atitudes isoladas de algumas pessoas que fazem mais feliz o Natal de crianças e famílias carentes. A Polícia Militar Florestal de Bauru, pelo quarto ano, promoveu a campanha Natal sem Fome, que distribuiu alimentos não-perecíveis doados pela população (em troca de de uma muda de pinus) para quatro entidades assistenciais. O mesmo fez a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, que doou cestas básicas para 280 famílias carentes de diversos bairros da cidade, além de brinquedos para as crianças. Até os funcionários do Sé Supermercados entregaram brinquedos, lanches e bolos, que foram arrecadados com clientes, para crianças do Centro de Valorização da Criança (Cevac) do Geisel. O Centro Espírita Amor e Caridade (CEAC) há 10 anos prepara cestas de Natal que são distribuídas nos bolsões de pobreza da cidade. A entrega das cestas é sempre feita por um grupo de voluntários da entidade, que nem sempre têm as mesmas crenças religiosas mas são unidos pelo desejo de ajudar. Eles ajudam como e onde podem, afirma Nelson Bastos, diretor do CEAC. A única coisa que o ser humano tem disponível, sem depender de ninguém, é a capacidade de se doar ao próximo, completa.Como ser um voluntárioNão é preciso preencher nenhum requisito para ser um voluntário. Basta querer, diz Natal Segantin, que todos os anos se veste de Papai Noel para entregar brinquedos, doces e roupas que arrecada através de uma campanha . Na opinião de Jorge Morales, a pessoa que quer ajudar outra só precisa de boa vontade e um pouco de tempo. Ele destaca também que o ideal é o voluntário saber enxergar o problema das pessoas as quais ele está ajudando, Muitas pessoas não sabem como é o dia-a-dia de uma criança pobre, por exemplo. É importante conhecer isso antes de querer ajudá-la porque fica mais fácil, explica. Mas isso não deve ser um empecilho para se fazer o bem, O importante é fazer alguma coisa, ter vontade. Se você for esperar a ajuda de políticos ou de pessoas da alta, vai ficar difícil. Tem que ser na raça, diz.É preciso ter coragem e vontade de ajudar as pessoas, afirma Madalena Branca. Eu mesmo não tenho, mas peço para as pessoas. Se cada um der um pouco, não vai ficar pesado para ninguém. Madalena diz que a coragem é necessária para pedir, só depende da força de vontade de cada um. Adê de Oxum concorda. Ela diz que quem quer ser voluntário deve estar sempre disposto: Quem não tem carro, que vá a pé, tome chuva se for preciso, decreta. Quem não quiser ter uma atividade isolada ou preferir ficar no anonimato pode participar de um grupo de voluntários. É só procurar o Centro Espírita Amor e Caridade, diz Nelson Bastos. Segundo ele não é preciso professar a crença nos espíritos para isso, basta querer ajudar. Nós não separamos as pessoas por religião. Qualquer pessoa que quiser trabalhar em favor do próximo pode ser uma voluntária e uma vez que ela começa, não quer parar mais porque isso é reconfortante. É muito melhor dar do que receber, diz.

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