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Natal: época dividida entre festividades e recolhimento

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 5 min

Quem tiver a oportunidade de assistir ao filme O Grinch, recém-lançada produção de Hollywood com Jim Carrey no papel-título, talvez consiga compreender as razões que levam algumas pessoas a não gostarem do Natal. Nos Estados Unidos, o Grinch é um personagem de 53 anos que representa a alienação e aquela sensação de isolamento sofrida por nós em algum momento da vida. Para a grande maioria que celebra religiosa ou comercialmente a festa natalina, só mesmo uma figura de ficção para explicar a aversão à data. Não é difícil trombar com alguém que, como Grinch, não suporta as comemorações natalinas e não liga para a troca de presentes. Na vida real, entretanto, a antipatia pelo Natal tem sempre uma razão pessoal, segundo explica a psicóloga clínica Sandra Leal Calais, professora em terapia comportamental da Unesp-Bauru. São reações sempre ligadas a experiências ruins, mas os sentimentos não se repetem e cada um tem seu motivo para não comemorar. Por ser uma festa familiar, o Natal pode se tornar um símbolo de tristeza se algum dos membros morrer, por exemplo. Mas esse sentimento tende a passar com os anos. Trata-se de um problema sazonal e, por isso, dispensa terapias, disse. Quando a perda do ente querido custa a ser assimilada, porém, as comemorações passam a ser sinônimo de tormento. Alair Barbosa de Almeida, 41 anos, dona de casa, convive há dois anos com a dor do falecimento do filho mais velho, vítima de um tumor raro, e acha que nunca mais festejará o Natal em sua concepção pagã. O Fábio era muito festeiro. Era ele quem alegrava as festas, que perderam o sentido depois que ele se foi. Eu não digo que não gosto do Natal, mas passei a comemorá-lo apenas como a festa cristã. Eu não condeno quem faz ceias e dá presentes, mas isso já não me serve mais, sentencia.Alair não deixa de montar sua árvore de Natal e o presépio, mas a depressão que a acompanha desde o trágico episódio tirou o brilho dos símbolos. Hoje, ela, o marido e o outro filho freqüentam as celebrações natalinas da Paróquia São José Trabalhador e depois se recolhem em casa na noite do dia 24 de dezembro. Minha relação com o Natal é meramente espiritual, definiu, confessando que possui síndrome do pânico e paciente assídua do divã psiquiátrico. Sandra Calais explicou que os sentimentos negativos tendem a se acentuar na época de Natal nas pessoas submetidas a tratamentos psicoterápicos. A época faz aflorar uma sensibilidade maior. Pessoas muito sensíveis, por exemplo, chegam a ficar deprimidas e avessas às festas, comentou a psicóloga. A estudante Maria Luíza Dorta, 21 anos, diz que, inconscientemente, passa a olhar mais em volta nesta época. Sem querer, eu fico imaginando as crianças que passam fome e vontade de ganhar presente de Natal. Me bate uma tristeza que eu não consigo controlar. Minha família cobra minha presença no Natal, mas eu prefiro me recolher em casa. Leio uma revista ou um livro e durmo cedo. Já faz uns quatro anos que eu não viajo para lá (Indaiatuba) nessa época, contou.Embora não existam estatísticas no Brasil sobre o comportamento depressivo, sabe-se - em razão da prática clínica - que a rejeição ao Natal ocorre predominantemente entre os jovens. Reunião saudávelReunir-se em família, seja em que ocasião for, é saudável emocional e psicologicamente, segundo ensina Sandra Calais. São suas raízes, e isso por si só já é importante. Os encontros familiares, mais comuns no Natal, são oportunidades únicas para se resgatar a memória, as lembranças da infância, as histórias, as artes e os fatos pitorescos. O fato de as pessoas se deslocarem para se reunir em festa é uma demonstração de amor. Todos se sentem amados naquele momento, ainda que estejam em conflito. Também costuma ser uma ocasião de reconciliação, o que também é muito saudável.Exemplo vivo da união por amor no Natal pode ser comprovado todos os anos na residência da professora aposentada Maria Isabel de Carvalho Cunha. Mãe de três filhos homens já casados, ela consegue a proeza de reuni-los, juntamente com as noras e netos, na noite do dia 24 para uma celebração isenta de pratos apetitosos, doces e vinhos. Tradicionalmente, ela troca a ceia pelos símbolos de Natal sobre a mesa, reúne a família ao redor e comanda um ritual que varia de ano para ano com muita originalidade. Normalmente, todos rezam e cantam, mas a ex-professora continua lançando mão da didática para deixar a celebração leve e atrativa. Na véspera de Natal deste ano, todos participarão de um jogral, cujas falas já estão preparadas e devidamente designadas. É uma coisa bem simples e curta, mas que motiva todos a participar. Eu tento passar a eles qual o significado do Natal para mim, ou seja, um ato infinito do amor de Deus. Acredito que ele se fez presente na manjedoura, marcando o ingresso na história dos homens. E fez isso de forma didática, porque conseguiu, através das imagens do presépio, transmitir aos povos de todos os tempos os sentimentos de amor, simplicidade, solidariedade, fraternidade, perdão e partilha, definiu. Por conta dos netos, Maria Isabel faz lá suas concessões ao consumismo que aportou e cada vez mais afasta o caráter religioso da data. Após as orações ao redor da mesa, a família troca presentes em forma de amigo-secreto (fica mais econômico do que dar presentes a todos). Digamos que eu tolero o consumismo de forma filtrada, mas não abro mão da essência do Natal. Acho que a minha relação de alegria com o Natal vem do meu encantamento com a data quando criança. Naquela época, Papai Noel era pouco popular. O costume das famílias era montar presépios em suas casas e sair visitando. Para mim, o Natal teve três fases. A primeira, do encantamento, se foi há muitos anos, como também a da nostalgia, que seria a visão encantada do Natal no contexto consumista. Hoje, o Natal para mim é pura reflexão, bem mais legítimo, teorizou.

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