Os usuários de ônibus já estão insensíveis com o deprimente espetáculo de crianças passando por baixo das catracas. Fazem isso porque, devido à idade, podem passar sem pagar. Como o espaço é exíguo elas são obrigadas a rastejar pelo chão, quase sempre coberto pelas imundícies trazidas nos sapatos dos outros passageiros. Algumas empresas reduzem ainda mais esse espaço, com a abjeta intenção de desanimar aqueles que ousam usufruir desse direito.Apesar das inúmeras iniciativas para proteger a criança, não lembro de alguma tentando reprimir esse abuso. A cidadania é construída mais com atos que com palavras. E deve começar quando o ser humano é mais receptivo, isto é, na infância. O que se pode esperar desse cidadão se já é humilhado no início da vida? Dia destes minha atenção foi despertada por um garotinho que, enfezado, se recusava a rastejar pelo chão enlameado. A fila parada, todos olhando e o cobrador impaciente. O impasse foi resolvido com a embaraçada mãe entregando ao cobrador seus parcos vinténs. O menino passou sorridente e vitorioso pela catraca.Minha esperança é que aquele menino estude e seja um promotor ou juiz, e defenda de fato os direitos das crianças. Outra possibilidade é que ele se torne um marginal e devolva, com juros, à sociedade as mesmas humilhações que sofreu. Gostaria que essas crianças recebessem de presente de Natal o interesse de alguma autoridade competente. (Elder Gadotti)
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