Ecologista diz que o uso sustentado da energia pode evitar a construção de novas geradoras, que agridem o meio ambienteO uso sustentável da energia, aquele que é feito com a consciência de que é preciso racionalizar e conter desperdícios para evitar uma condição de uma demanda maior do que o sistema de geração do País pode atender e, com isso, exigir construção de novas usinas hidrelétricas ou termelétricas - é fundamental. A afirmação é de Ivan Alexandre Ferrazoli De Marche, secretário-executivo da Organização Não-Governamental (ONG) Instituto Ambiental Vidágua, para quem, além dos milhões de reais gastos nessas obras, ainda há a questão do impacto ambiental, que é de grande intensidade e capaz de mudar grandes regiões das áreas de construção e alagamento.De Marche diz que importante, mesmo, é que as pessoas tomem consciência de que é preciso adotar ações sérias para evitar o desperdício de energia elétrica, pois é mais barato economizar energia, com seu uso racional, do que os investimentos necessários para implantação de novas geradoras.Para o ambientalista, o grande problema do desperdício de energia elétrica, hoje em dia, é educacional. De acordo com ele, o uso sustentável da energia, que está na Agenda 21 global e na brasileira, que saiu recentemente, é o ideal e o que a entidade vem difundindo em palestras que realiza, num programa não-oficial.Há toda uma movimentação, até das distribuidoras de energia, para evitar o desperdício. No caso do Interior de São Paulo, por exemplo, a CPFL investe R$ 25 milhões por ano nesse tipo de trabalho (veja matéria nesta página). Vale destacar que o combate ao desperdício é a fonte de produção mais barata e mais limpa que existe, pois não agride o meio ambiente. O ambientalista afirma que é importante compreender o conceito de combate ao desperdício, a idéia de conservação. Segundo ele, lutar contra o desperdício, ou fazer o uso sustentado, significa melhorar a maneira de utilizar a energia, sem abrir mão do conforto e das vantagens que ela proporciona. Significa diminuir o consumo, reduzindo custos, sem perder, em momento algum, a eficiência e a qualidade dos serviços.De acordo o secretário-executivo, atitudes como evitar o uso desnecessário de luzes, apagando-as quando deixar um cômodo da casa ou não usá-las durante o dia, dando preferência para a iluminação natural das janelas, é fundamental. Por que não usar uma lâmpada de baixa potência, de 15 Watts (W), para uma criança que tenha que dormir com um abajur ligado? São pequenos atos individuais que geram uma economia municipal, estadual e global, defende o ecologista.Mas, além disso, dentro de casa há uma série de medidas que podem colaborar para evitar o desperdício. O banheiro, habitat do maior vilão do setor elétrico, hoje em dia, o chuveiro, que possui alta potência - chegando a responder por até 30% do consumo de uma residência - e nem sempre usado de forma adequada e, pior, geralmente no horário de ponta, das 18 às 21 horas - tem que ser utilizado com mais cuidado. Banhos mais curtos e utilização mais cuidadosa das luzes (tem pessoas que acendem todas as luzes, inclusive a do armarinho de higiene, mesmo sem necessidade) podem fazer muito bem para o bolso da família e para o meio ambiente.Outra medida é verificar se a geladeira está com a borracha de vedação em boas condições e evitar deixá-la aberta desnecessariamente - pois o funcionamento ideal é quando está fechada e, cada vez que é aberta, consome-se mais energia para chegar às mesmas condições de temperatura novamente - também são formas de economizar. A pessoa chega na porta da geladeira para decidir o que pegar para comer. Ora, geralmente, a pessoa sabe o que tem na sua geladeira. Então, é pensar, decidir antes, e só depois abri-la para retirar o necessário, ensina o ambientalista.PagandoDe Marche diz que as pessoas que utilizam a energia de forma inadequada alegam que estão pagando por isso. Porém, o que esquecem é que o custo ambiental e financeiro do desperdício é muito grande (veja matéria com Washington Novaes, na página 11). O secretário-executivo, que defende a implantação do ensino ambiental nas escolas, destaca que a energia não é um bem infinito. É um bem que, se não tomar cuidado, pode acabar. O que precisa é ter consciência de que, se a pessoa está pagando pela energia, o meio ambiente está pagando um preço muito maior. Tem que cuidar da água, dos mananciais que são necessários para geração da energia. O meio ambiente é cíclico: acaba a água, acaba a vida, a energia, está tudo correlacionado, afirmou o ambientalista. O secretário-executivo do Vidágua destaca que, na Europa, por exemplo, há uma tendência pela busca de utilização de energias alternativas, como a solar (veja matéria na página 11) e eólicas (produzida pelo vento), que não provocam impactos ambientais. O problema é que a produção dessas energias ainda é considerada cara. Impacto ambientalO uso racional pode evitar a necessidade de novas usinas geradoras. O problema da construção de hidrelétricas é que o meio ambiente é muito impactado, principalmente em razão do alagamento provocado pelo enchimento dos reservatórios que movimentam as turbinas. De Marche diz que toda fauna e flora presentes nas áreas inundadas são completamente destruídas, principalmente a fauna, apesar do trabalho de retirada de animais que é feito pelas empresas. Porém, explica, répteis de uma maneira em geral, dificilmente são capturados, pois isso depende da época de desova e fecundação das espécies e nem sempre coincide com a época da construção e alagamento.De Marche diz que há mais um agravante em relação às áreas inundadas: os gases gerados pelas plantas que ficam submersas. Segundo ele, as plantas necessitam de luz para a fotossíntese (transformação de gás carbônico em oxigênio) e, quando estão embaixo dágua não conseguem completar o processo e, através da transpiração emitem gases, o que prejudica, principalmente, a vida aquática.As termelétricas também geram reflexos ambientais. O Instituto Vidágua, por exemplo, está realizando estudos sobre o impacto ambiental de uma usina termelétrica que deve ser construída em Pederneiras. Uma Câmara Técnica será formada para fazer o trabalho.Porém De Marche acredita que o impacto deve ser grande, primeiramente porque é à margem de um rio, o Tietê. Além disso, haverá a queima de gases, que geram poluentes, e que virão pelo gasoduto, que é superficial e passa dentro de propriedades, interferindo no meio ambiente.Uma outra modalidade que vem sendo implantada é a co-geração de energia, feita por empresas usuárias, com o objetivo de evitar surpresas e, principalmente, fugir dos possíveis problemas do horário de ponta. Porém, na maioria dos casos, esse trabalho é feito com grupos geradores movidos a óleo diesel, que geram poluição e são criticados por ambientalistas. A queima de gás natural pode ser uma saída para redução do nível de poluentes emitidos.Horário de pontaO chamado horário de ponta é o terror do setor elétrico brasileiro. Compreendido entre 18 e 21 horas é o momento em que a demanda pelo consumo de energia chega a seu pico durante o dia e, com isso, as usinas geradoras, geralmente, são obrigadas a trabalhar com carga máxima de produção.O problema é que neste horário a iluminação pública é ativada. Além disso, as casas e empresas acionam o sistema de iluminação e, o pior, a maioria da população chega em casa e liga o chuveiro elétrico, que tem potência variando entre 2.500W a 6.500W, dependendo do modelo, o que gera uma demanda muito alta. O risco do excesso de demanda é a ocorrência blecautes e apagões.Os investimentos em geração, anunciados como necessários, são principalmente para atender ao déficit desse horário. Porém, há também, o risco de racionamento.
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