A opinião é do religioso padre Roberto Daniel, bauruense que desenvolve doutorado em uma universidade da AlemanhaNeste final de século, o ser humano está desorientado e sem perspectiva, resultado de uma falta de consciência política. Essa é a opinião do padre Roberto Daniel, religioso de Bauru que está fazendo doutorado em Ética Social na Universidade Estadual da Baviera, na Alemanha. Nesta entrevista, concedida por e-mail ao Jornal da Cidade, ele salienta as expectativas da humanidade para o novo milênio, os problemas crônicos criados pelo homem, como o racismo, a guerra e a fome, destaca sua opinião sobre o fim do mundo e vidas extraterrenas.Jornal da Cidade - Nós estamos encerrando mais um milênio. Gostaria de saber como o senhor vê essa data?Padre Roberto Daniel - Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que o milênio já começou há quatro ou sete anos. O ocidente utiliza o calendário cristão, que possui como ponto de partida o nascimento de Jesus Cristo. Acontece que Dionisius Exiguus (470-550), o primeiro a estabelecer o ano de nascimento de Jesus, errou no cálculo, datando o ano zero quatro a sete anos depois de Seu nascimento. Isso quer dizer que, na verdade, Jesus Cristo nasceu quatro ou sete anos antes de Cristo e nós estamos, já algum tempo, vivendo no novo milênio. Mas, isso é somente um detalhe histórico. O tempo é uma criação humana e uma maneira de nos situarmos na história. O importante para nós, hoje, é a contagem do tempo que utilizamos e a nossa sensibilidade diante do fluir dos anos. O fato é que para nós o milênio está para começar. E isso é muito positivo, pois nos traz a sensação de mudança, de um (re) começar uma caminhada e a perspectiva do novo.JC - Quais são as expectativas para essa nova era que está começando? É só uma questão de mudança de calendário, ou ela pode trazer mudanças para o ser humano?Padre Roberto - Não acredito que seja somente uma mudança de calendário. O início de um novo ano, ou no caso, de um novo milênio, possui um efeito psicológico mágico. Nós fazemos a experiência de terminarmos uma fase e iniciarmos uma nova. E isso é sempre importante. Porém, a história não é feita de etapas fragmentadas. Ela é um processo que, apesar de permitir o surgimento de algo novo, está dependente dos acontecimentos do passado. Assim, as expectativas para o novo milênio estão intimamente relacionadas com as nossas experiências no final deste último. Este final de milênio foi caracterizado por duas grandes guerras mundiais, a presença de governos ditatoriais de esquerda e de direita, o domínio cada vez maior da economia de mercado e o início do processo de globalização em um mundo ainda dividido entre países ricos e miseráveis. Por um outro lado, vivemos um avanço tecnológico fantástico. Enquanto que há cinqüenta anos o rádio era a grande inovação, hoje se inicia a utilização da clonagem na medicina humana. Diante esta contradição, o grande desafio para o novo milênio será ético, ou seja, no campo do relacionamento humano. O avanço tecnológico continuará se desenvolvendo em passos cada vez mais rápidos, o que obrigará o ser humano a refletir, com a mesma rapidez, sobre a utilização da tecnologia e o bem estar da maioria. Se o ser humano realizar no campo social, econômico e ético, o que ele já alcançou na área tecnológica, nós teremos um milênio simplesmente maravilhoso. Não podemos esquecer, porém, que começaremos o novo milênio com um conflito em Israel e o governo conservador e nacionalista de Bush nos Estados Unidos. Os dois não são sinais de um positivo avanço em direção da ética e da paz.JC - Como o senhor analisa o comportamento do homem neste final de século? Padre Roberto - Neste final de século, o ser humano encontra-se em um momento de desorientação. A época das grandes ideologias e das utopias já se passaram e a economia de mercado aparece como a única alternativa para a base da organização social. O ser humano entrou em uma fase intimista, tendo seu campo de interesse voltado mais para a vida privada do que para as questões sociais. O que significa, na verdade, um grande erro, pois entre as duas esferas não há praticamente fronteiras divisórias. O ser humano encontra-se também muito carente, em busca de uma solução para seus problemas que caia simplesmente do céu. Isso significa pouca consciência política.JC - Os estudos científicos - como o mapeamento do DNA e a clonagem - ainda não mostraram resultados seguros para a humanidade. O senhor acredita que eles possam ajudar a melhorar a qualidade de vida da Homem como se afirma por aí? Padre Roberto - Ainda é muito cedo para falar em resultados, mas acredito que as pesquisas científicas na área da genética são importantes e trarão uma melhoria na qualidade de vida. A questão é que as ciências humanas devem acompanhar o desenvolvimento das pesquisas. É necessário refletir sobre os critérios morais e éticos que devem iluminar a bio-genética. Foram necessários 277 tentativas para que a clonagem da ovelha Dolly acontecesse. Isso significa que 277 embriões acabaram morrendo no desenvolvimento das pesquisas, alguns bem perto do nascimento. Somente um psicopata poderia fazer isso com um embrião humano. O problema é que psicopatas existem. Outra questão fundamental é a democratização das conquistas. Enquanto experimentos deste nível acontecem, continuam morrendo pessoas pelo mundo de fome e por doenças facilmente curáveis.JC - Por que o homem não aprendeu a sanar esses problemas? Qual o caminhopara se atingir esses objetivos? Padre Roberto - São vários os motivos. No caso do Brasil, é a existência de uma elite incompetente e antiquada. Enquanto as elites de países como Alemanha, Austrália ou Espanha compreenderam, há muito tempo, que o bem-estar da maioria significa aumento da produtividade e segurança para os futuros negócios, a nossa elite continua com a mentalidade colonial de viver sua riqueza da exploração, sem pensar muito nas futuras gerações e no País. Outro problema é que, em nosso País, ainda não surgiu uma identidade nacional. No Brasil não se pensa no desenvolvimento do País, mas cada um procura-o em seu próprio bem-estar. Somado a isso, está a falta de solidariedade entre os brasileiros. O nosso País é rico. Nós estamos entre as principais economias do mundo, nós temos recursos naturais invejáveis. O que falta é interesse político e solidariedade em todas as camadas sociais. Às vezes, sinto vergonha de presenciar o envio de ajudas de muitas instituições alemãs, como a Caritas ou Miserior, para projetos sociais no Brasil, sendo que estes poderiam muito bem ser mantidos e desenvolvidos pelos próprios brasileiros. Enquanto uma mudança de mentalidade não acontece, seremos o eterno gigante deitado em berço esplêndido. JC - O senhor citou os conflitos em Israel, há pouco, e eu gostaria de saber por quê o Oriente Médio vive em guerra e não chega a um acordo. Por que isso acontece, em sua opinião?Padre Roberto - O caso do Oriente Médio é muito complicado. Diversos fatores agem para tornar o diálogo quase que impossível. Não é somente o poder político, mas também as diferenças de mentalidade, religião e cultura. Sem esquecer que o conflito se desenvolve em dois níveis separados: nas ruas com os adolescentes e grupos terroristas e em nível governamental. E quanto mais aumenta o número de mortos, maior torna-se o ódio. JC - O senhor vê o racismo como um divisor de águas da humanidade? Padre Roberto - Com certeza, o racismo é um divisor de águas em nosso mundo. Os Países europeus, por exemplo, em pleno processo de União Européia, confrontam-se com a tendência da rejeição do estrangeiro, do diferente, do ser proveniente de outra raça e cultura. Mas, acredito que o racismo não seja o maior problema neste início de milênio. Mais forte que o racismo é a discriminação social. Em nosso mundo o capital determina a liberdade, os relacionamentos e o futuro das pessoas. Muitos jovens no Brasil, independente de raça ou cor, possuem as mínimas chances de ter um futuro decente e uma vida digna. Enquanto na Europa os estrangeiros são rejeitados, em nosso País a nossa própria gente é condenada à pobreza e miséria. Isso sim, é divisor de águas. JC - O senhor acredita no fim do mundo?Padre Roberto - Eu não acredito em um fim do mundo pré-estabelecido. Para mim, o fim do mundo acontece diariamente, para todos que deixam este mundo. A morte é a única coisa certa de nossa vida, e, quando passamos por ela, morremos para este mundo, ou seja, vivemos o fim deste mundo. O que deve ser ótimo, para quem morre. Acredito, também, no fim do mundo através das mãos humanas. O homem pode ser estúpido o suficiente de destruir o seu próprio planeta. JC - O senhor acredita em vidas extraterrenas? Por que? Padre Roberto - Acredito muito em vidas extraterrenas. Para nós, o espaço continua sendo infinito, ou seja, não conseguimos encontrar os seus limites. Não é possível que somente no nosso pequeno planeta exista vida. Deus teria desperdiçado muito espaço e material para tão pouca gente. O que não acredito são naquelas histórias de encontros com extraterrestres, seqüestros e viagens em naves espaciais. Se algum dia acontecer o encontro com extraterrestres, acredito que será algo que a maioria poderá presenciar, ou pelo menos, algo que poderá ser realmente provado.
escolha sua cidade
Bauru
escolha outra cidade