Geral

O mundo acaba hoje

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Ninguém mais acredita na maldição da Igreja Medieval, invocada para justificar o tremendo fracasso que foi o fim do mundo no ano 1000. De dois mil não passarás, dizia a invectiva que me dava arrepios nas aulas de catecismo. Depois de destruído pelo dilúvio, e dada a oportunidade do seu renascimento pelas sementes salvas por Noé em sua Arca, o homem, animais e plantas estariam novamente condenados por mau uso de si e do Planeta. Desta vez pelo fogo.Estamos a poucas horas de conhecer a verdade absoluta, mas aquela preocupação do menino que quase chegou a coroinha, hoje não passa de uma ligeira desconfiança. Houvesse algum temor geral, as manchetes dos jornais de hoje seriam iguais ao do título desta crônica, com pequenas variações, de acordo com o estilo de cada órgão. O JC provavelmente estamparia: 17% dos bauruenses acreditam no fim. Seria uma edição atípica, repleta de entrevistas com vereadores, empresários e pessoas gradas, de revelação de projetos para o dia derradeiro. A Folha, com seu viés político, iria dar conta que FHC espera o fim na praia. O jornal O Dia, do Rio de Janeiro, tão importante quanto a sua irreverência, não teria dúvidas em ganhar o leitor nas bancas, com a manchete: É hoje só, amanhã não tem mais.O mundo não acaba (espero), mas entra definitivamente num processo de transformação acelerado pelas revoluções da tecnologia. Nos próximos 20 anos o século XXI será marcado pela conclusão da Infovia global, pela telecomunicação móvel e pela capacidade de informática, descentralizando e difundindo o poder da informação, concretizando a promessa de multimídia e aumentando a alegria da comunicação interativa. Além disso, será o século do pleno progresso da revolução genética que, usada com prudência, poderá curar, combater a poluição, melhorar a vida e poupar tempo e esforço físico. O ser humano produzirá mais e melhor com mais tempo para o lazer. A eletrônica substituirá, finalmente, o braço como ferramenta. Hoje não temos mais que mover alavancas, mas em compensação o esforço repetitivo para acompanhar a velocidade da máquina, provoca dores musculares atrozes.Depende de nós que toda essa riqueza seja compartilhada. Para os hoje excluídos, isso dependerá da exclusão dos que excluem, ou seja, dos que só otimizam lucros, dos maus políticos e governantes. Todo indivíduo tem o direito de ser ator, influenciar e até quem sabe, fazer história. Ser sujeito do seu próprio destino. Para isso precisa, além de saúde e educação, ter os canais que dão acesso à informação e à expressão - computadores, internet e os mass media. Tudo isso fica na dependência de organização social, da política e das políticas, ou seja, da ação integrada e inteligente do governo em seus vários níveis.Castells profetiza em O fim do milênio, que a economia global penetrará todos os países, todos os territórios, todas as culturas, todos os fluxos de comunicação e todas as redes financeiras em uma exploração contínua do Planeta à procura de novas oportunidades de geração de lucros. Mas de que vale ao homem ganhar o mundo todo, se vier a perder a sua alma? - perguntou Paulo na estrada de Damasco. O que se espera é o fim dessa conexão perversa. A idéia de globalização tem fortalecido a idéia de que este é um mundo só, mas esse é um sonho ainda a ser realizado. Há que se diminuir a enorme defasagem entre o desenvolvimento tecnológico e o subdesenvolvimento social.Mil anos passam rápido. São uma gota dágua no oceano da história da humanidade. Somente nesse finalzinho do século XX estamos conhecendo o mundo e a arte de desvendar o destino e o sentido da vida do homem, neste grão de poeira deste mar de galáxias em que ele foi lançado sem pedir.Para atingir o objetivo de um mundo melhor para todos, ainda nesta geração, falta ao homem reabilitar antigas crenças, hoje substituídas pela indústria do entretenimento e o mundo dos espetáculos. A verdade vos libertará, foi a promessa de Cristo. Significa que o homem só ultrapassa os condicionamentos e vê a si próprio e ao mundo com verdadeiro realismo quando compreende a sua essência.A prosseguir o mesmo egocentrismo, em vez de realizar o mito do Paraíso Perdido, iremos todos para o Juízo Final. Se não for hoje à meia-noite, virá quando menos se espera, anunciando o novo céu e a nova terra de que fala o Apocalipse.Feliz novo milênio!

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