Geral

Uma questão de tradição

Fernando José Dias da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

É preciso mesmo mudar o calendário. Começar de novo, porque as coisas estão ficando muito chatas. A briga Jáder Barbalho versus Antonio Carlos Magalhães ainda rende alguns capítulos, mas, já está se esvaziando, e, espera-se, sem a vitória de nenhum dos contendores. Os problemas dos governos estaduais também terminam. Começam outros, é verdade, talvez até maiores. Mas serão novos problemas. A idéia é essa, imaginar que com a mudança do ano tudo será novidade. Mas lamentavelmente não será assim. Os assuntos vão e vêem, com variações às vezes, só que sempre no mesmo círculo. E a próxima fase já está anunciada, será dedicada, quase que exclusivamente, à discussão dos possíveis candidatos para as eleições de 2002 com destaque especial para os postulantes à Presidência da República. Até agora causa perplexidade o lançamento do governador do Ceará, Tasso Jereissatti , feita por Mário Covas. A perplexidade é maior entre os tucanos e, entre eles, os tucanos paulistas, que foram apanhados de surpresa pelas declarações de Covas. Ninguém irá cometer a heresia de dizer que o governador de São Paulo fez um movimento estabanado. Covas paira sobre os demais tucanos e com fundadas razões. Os tucanos preferem dizer que não entenderam a posição de Covas, que acham melhor esperar a próxima jogada para avaliar melhor as razões do governador. É que existe José Serra que também está com vontade de ser candidato e já tem um esquema montado para isso. Esse é um problema. Mas existe outro que também é de difícil solução. Trata-se da manutenção da tríplice aliança que sustenta o governo no sol e na chuva. Para onde irão PSDB, PFL e PMDB? Se as coisas acabarem como estão se encaminhando todo esse pessoal não vai caminhar junto, de mãos dadas e olhos nos olhos. Estava tudo acertado. Depois do PFL, na presidência do Senado, e do PMDB, na presidência da Câmara haveria um rodízio e as posições seriam trocadas. O PMDB, através de Jáder Barbalho, ocuparia o Senado e o PFL, com Inocêncio de Oliveira, tomaria conta da Câmara. Só que aí Antonio Carlos Magalhães, do seu minarete na presidência do Senado, começou a lançar torpedos em direção a Jáder. E o deputado Aécio Neves aproveitou a confusão na área, lançou seu nome à presidência da Câmara e, no sufoco, tem chances de ser eleito. O único problema é que Aécio é tucano. Se ele vira mesmo presidente vai deixar o PFL exposto ao frio, no meio da selva sem canivete suíço. O PFL é um partido muito leal ao governo, a todos os governos uma questão de tradição. Agora, se os seus integrantes se virem alijados da presidência da Câmara dos Deputados pode ser que eles fiquem tristes, magoados com o presidente Fernando Henrique. E sejam obrigados, contra a vontade, é claro, a colocar armadilhas e minas de alto teor explosivo no caminho trilhado pelo governo. O que é péssimo. Os pefelistas não querem fazer isso de maneira alguma, por isso aguardam ansiosos alguma manifestação do Palácio do Planalto. Um aceno para dizer que tudo está bem, que nada vai atrapalhar essa belíssima amizade. São esses os principais pesadelos com os quais o governo vai ter que conviver logo no alvorecer desse milênio que se inicia. (O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado)

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