• Um pedido especial - por Kitty Balieiro/ESPN Brasil
A pedido do JC, começo a escrever estas linhas sabendo que só serão publicadas no início de 2003. Mas não consigo extrapolar, pensar nesse futuro distante de daqui a 15, 20 dias. Por isso escrevo com o espírito de hoje, 15 de dezembro de 2002. E escrevo com um misto de emoções difícil de definir, com aquela confusão boa de sentimentos que a gente não sabe bem para onde vai, mas sabe que vai, e que vai na direção certa.
Minha segunda confusão veio com a corinthiana apaixonada que habita boa parte da minha alma, que viu seu time perder o título brasileiro, mas que não conseguiu se enfurecer com os larápios da Baixada, que nos surrupiaram um final de ano glorioso. É que foi absolutamente impossível não me encantar com aqueles meninos, principalmente Robinho e Diego (graças a Deus ele saiu logo no primeiro minuto!). Não pelo título, não pela redenção de uma torcida que, depois de 18 anos, resgatou o amor-próprio e a auto-estima. O encantamento que eles me passam é pela deliciosa permissão que eles se dão de, ao mesmo tempo em que jogam com as regras, serem capazes de virar todas elas de cabeça pra baixo, e até de fazer uns e outros repensarem seus conceitos (não é Rogério, Cléber?) Isso se chama auto-confiança.
Minha terceira confusão veio pela Internet. Todos os dias, para ficar por dentro das coisas de Bauru, entro no jcnet.com.br. Nos últimos tempos, com aquelas notícias de sumiço e reaparecimento de Auto-Cad, tonner, discos de computador, eu navegava pelas páginas de política com uma trilha sonora na cabeça. Lembra daquela abertura dos “Trapalhões†?: Tan-ran-ran-ran-ran-raaan-ran... Mas heis que vejo uma notícia de que Jurandyr Bueno Filho recebeu mais um merecido prêmio, e as palavras dele na reportagem me inspiraram uma trilha sonora totalmente diferente. Um som meio Vangelis, grandioso, daqueles que nos remetem ao resgate do amor-próprio, da auto-estima, da briga pela cidadania ... “A cidade é fruto de seus cidadãosâ€, disse Jurandyr. Fiquei pensando: Bauru é grande demais pra se deixar abater. Não vai ficar na fila como a torcida do Santos, porque, certamente, está cheia de Robinhos e Diegos prontos para começar a botar pra quebrar... Isso se chama auto-consciência.
Bom, e qual foi minha primeira confusão? Foi no sábado, 14 de dezembro. Admito: já vi muito homem chorar, por este ou por aquele motivo. Admito: geralmente, estes caras me impressionam, me emocionam, me fazem acreditar, eventualmente, que eles não estão aí só pra fazer piadas de loiras ou me olhar, desconfiados, quando conto que troquei o pneu do meu carro sozinha. E aí? Aí,minha gente, o Lula chorou! O Lula se emocionou ao ser diplomado Presidente do Brasil!
Não é de hoje que gosto, apóio e faço campanha para o PT de Lula. Passei a gostar ainda mais dele quando comecei a trabalhar com um sobrinho dele, o Luciano, que é a cara do Frei Chico, seu pai. Gente, se o Luciano é amostra da família, o Lula só podia ser gente boa demais! Aí, quando ele foi eleito, com 53 milhões de votos, muito, mas muito mais do que o total que costumava receber, não sabia direito o que tinha acontecido.
No domingo, fiquei sabendo: o povo brasileiro que elegeu Lula, a criatividade ingênua e sem limites de Robinho e Diego, os torcedores santistas que se revelaram, orgulhosos, a condescendência dos corintianos com o vice-campeonato, tudo faz parte da chamada conspiração do universo a nosso favor. Nesse caso, a favor do povo brasileiro, bauruenses incluídos.
Basta punir os “do malâ€, eleger os “do bemâ€, acreditar em si próprio, na sua cidade, em seu país, em seu presidente.
Só assim conseguiremos crescer usando nossas maiores armas: a vibração, o atrevimento, a picardia, o nosso orgulhoso jeito de ser.
Acho que Lula vai fazer um baita governo. Ele também é um corintiano feliz, capaz e confiante no futuro. Não vou exagerar e pedir que todos transformem-se em corintianos. Mas me atrevo a dizer que somos todos capazes de transformar nossa realidade.
(A jornalista bauruense Kitty Balieiro é editora na ESPN Brasil)
• Não dá para esperar que o governo faça tudo... Bauru precisa resgatar o Pelé - por Fábio Sormani/Band
Tenho uma expectativa muito grande em relação a 2003. Um novo governo vai assumir e com um discurso que vem ao encontro do que realmente o País necessita: acabar com a exclusão social em todos os níveis. Desta forma, se o governo conseguir atingir esse objetivo – erradicando a fome e a pobreza, diminuindo a desigualdade econômica e social –, o País terá progredido muito.
Mas, importante: não dá para a gente esperar que o governo faça tudo sozinho. Enquanto não houver envolvimento e participação do nosso povo em projetos de reconstrução deste País, não há como progredirmos a passos largos. E nós precisamos disso.
Uma coisa que a gente nota muito quando sai do Brasil é o envolvimento e a participação das pessoas na construção e no engrandecimento do país onde elas vivem. Aqui, infelizmente, vê-se um povo inerte, acomodado neste sentido.
É bem verdade que o brasileiro está aprendendo a reivindicar. Mas apenas no campo político não basta. É preciso agir no social também, de modo que ele venha a ser respeitado como cidadão.
Outra coisa que espero demais do nosso governo é que ele aja com firmeza no sentido de que as leis sejam cumpridas. E por todos! Por isso, espero que haja uma consciência maior de cidadania por parte do Judiciário. Ele tem que assumir o seu papel.
Além disso, espero demais que o governo Lula combata as drogas com a mesma firmeza com que pretende combater a fome. Se pudesse dar um conselho ao nosso futuro presidente, diria a ele: faça com que as leis sejam cumpridas por todos! e combata as drogas com firmeza, presidente! Com leis sendo cumpridas com rigor e as drogas sendo banidas da nossa sociedade, haverá uma diminuição dramática da violência em nosso País.
Nesse sentido, acho que Bauru não pode crescer mais do que já cresceu, sob pena de se tornar uma cidade ingovernável. Cidade grande é sinônimo de problema. Sei disso, principalmente, porque moro há 25 anos em São Paulo. Por isso, penso que Bauru tem que ficar onde está. Tem que se sustentar e sobreviver com o que tem. É isso o que a gente espera do Legislativo e do Executivo bauruenses. Que eles sejam capazes e competentes para criar recursos com o que a cidade tem – e que não é pouco!
Bauru tem recursos suficientes na agricultura, na indústria, no dinheiro movimentado pela população flutuante dos estudantes e principalmente no comércio. Acho um equívoco dizer que Bauru precisa de indústrias para crescer e prosperar. Bauru já é uma cidade de porte, ainda gostosa de se viver.
Se crescer, repito, começará a ter todos os problemas que a gente sabe que uma cidade grande tem: violência, droga, pobreza, má qualidade de vida, impessoalidade etc. Penso que Bauru já atingiu o seu limite – que me perdoe quem adjetivou nossa cidade de “Sem limitesâ€.
Em relação ao esporte, eu, como comentarista esportivo, achei uma pena tudo o que aconteceu no basquete de Bauru com a saída da Tilibra. Tudo por causa de uma briga familiar. Na minha opinião, essa nova diretoria que assumiu a empresa não tem visão social. Caminha, aliás, na contramão da história.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a gente vê grandes empresas contribuírem com vários projetos de engrandecimento da sociedade local. A Tilibra estava fazendo isso. Lamentavelmente, deixou de fazê-lo.
Além disso, a Prefeitura também poderia apoiar mais o esporte olímpico. O nome de Bauru foi projetado tremendamente com o título nacional de basquete que a Tilibra conquistou em meados deste ano. É preciso enxergar o que o basquete fez pela cidade! Televisões, rádios, jornais, revistas, internet falaram muito de Bauru. E bem, o que é mais importante, porque o time da Tilibra era vencedor.
Este assunto me remete a outro, que é o fato de Bauru não saber capitalizar muito bem o que tem de bom. No caso, seus filhos ilustres. Quer um exemplo? Pelé. Não entendeu? Ora, por mais que se diga – e é verdade – que Pelé nasceu em Três Corações, Pelé, na verdade, é filho de Bauru!
Afinal, foi em Bauru que Pelé aprendeu a jogar bola; foi em Bauru que Pelé aprendeu a escrever; foi em Bauru que Pelé aprendeu a falar; foi em Bauru que Pelé aprender a andar; foi em Bauru que Pelé aprendeu namorar.
Ano passado, um curta metragem dirigido por Paulo Machline concorreu ao Oscar. Falava sobre a infância de Pelé. É extraordinário, emocionante. Sabem onde se passa? Em Bauru – e não em Três Corações, porque, repito, em Minas, Pelé apenas nasceu; em Bauru, ele cresceu.
Então, eu me pergunto: por que não trazer Pelé de volta para Bauru? Sugestão: que tal rebatizar a principal avenida da nossa cidade com o nome Pelé? Afinal, a troco do que esta grande avenida se chama Nações Unidas? Por que não Pelé?
O Luiz Carlos Cordeiro, que escreveu um livro saborosíssimo sobre a infância de Pelé em Bauru (“De Edson a Peléâ€), tentou dar um passo neste sentido, mas parece que não conseguiu. Quis fazer um museu do Pelé em Bauru, com as coisas dele relacionadas com a nossa cidade. Por que este projeto não vingou? Por que não retomá-lo?
Outros dois filhos ilustres de Bauru são o teatrólogo Mauro Rasi e o ator Edson Celulari. Bauru deveria capitalizar melhor o que esses dois “monstros†da nossa cultura fazem por nosso país. Mas pouco os aproveita, infelizmente.
Dá para corrigir esses equívocos. Aliás, sempre é tempo. Basta apenas querer.
Que 2003 seja repleto de realizações para o nosso País e, consequentemente, para a nossa Bauru, que, repito, já atingiu o seu limite.
(O jornalista Fábio Sormani é comentarista esportivo da TV Band, rádios Bandeirantes AM e FM e do canal Band Sports)
• 2003, o ano da esperança e da ousadia - por Antônio Carlos de Almeida/Tribuna Impressa
Eu vejo com muito otimismo o ano de 2003. Não vai ser um ano fácil, porque as limitações são grandes. Mas seguramente conseguimos mexer com as esperanças dos brasileiros que querem romper com modelos passados e ousar em novas direções, quer na economia, quer no relacionamento social, quer na correção das distorções existentes.
(Antônio Carlos Pereira de Almeida é diretor geral do jornal Tribuna Impressa, de Araraquara)
Otimismo acima de tudo! - por Sueli Muzaiel/Jornal de Jundiaí
A expectativa da população brasileira é de que, a partir deste primeiro de janeiro, o país comece a mudar. O brasileiro foi às urnas e pediu, pelo voto, mudanças. E é exatamente isso que todos esperam que aconteça.
As mudanças que foram decididas nas urnas giram em torno de um governo onde se prega um pacto social, uma união de forças para transformar o Brasil. E só foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciar, no seu primeiro pronunciamento após ser eleito, que a fome seria combatida com todas as forças que bancos e entidades do mundo todo se propuseram a ajudar.
Dizer que faltou vontade política aos governos anteriores seria uma crítica muito forte. E imaginar que o governo que agora assume este país vá resolver todos os problemas seria, também, um exagero!
Sonhamos - e isso não é crime - que o ano de 2003 seja o primeiro de desenvolvimento completo: onde as pessoas consigam arrumas emprego, onde os mais necessitados encontrem um prato de comida, e onde os empresários encontrem fórmulas de crescimento para a economia sem sacrifícios do consumidor.
Sabemos que o primeiro ano de um governo é para ajuste da casa, para conhecer a situação do país, mas é importante termos esperança de que as dificuldades serão superadas e que o desenvolvimento econômico vai ser retomado.
Devemos acreditar que um ex-operário, sem curso universitário, tenha em mente as saídas para alavancar este desenvolvimento. Se, como líder sindical transformou a categoria em que trabalhava - a metalúrgica - numa das mais importantes e unidas no país, devemos acreditar que tenha os caminhos para resolver os problemas.
Está claro, também, para todos, que, sozinho não será capaz de resolver todos os problemas do Brasil. Estamos sentindo, porém, que o novo presidente está se cercando de homens competentes e dispostos a ajudar a população a sair das dificuldades em que se encontra.
Claro que as desigualdades sociais vão existir sempre, mas com boa vontade e disposição poderemos, como dizia Tancredo Neves, “fazer deste país uma grande Nação.â€
Se tivermos confiança nas pessoas que administram este país, podemos, também, esperar por melhorias em todo o mundo. É claro que as guerras e as brigas pelo poder jamais acabarão, mas devemos esperar que os governantes busquem saídas para reduzir o tamanho da dor de todos os povos.
(Sueli Muzaiel é diretora presidente do Jornal de Jundiaí Regional)
• Dias melhores - por Ana Eliza Senche/Folha da Região
Para projetar o ano de 2003, é necessário olhar para trás e entender o surpreendente movimento da história.
É claro que temos muitos desafios pela frente e alguns deles parecem se avolumar. A violência urbana, agravada pelo avanço do narcotráfico, se desloca como epidemia social das grandes cidades para o Interior do país e atinge níveis preocupantes em algumas regiões.
Em escala global, a intolerância já deu mostras do que pode ocorrer quando interesses geopolíticos e conflitos de povos e facções se sobrepõem à virtude da paz. O risco de uma guerra generalizada, inclusive com armas nucleares, não está afastado.
Não podemos ser alarmistas, mas também temos a responsabilidade de não sermos ingênuos. O planeta oferece agora riscos concretos para a sobrevivência das próximas gerações. Não apenas pela insanidade de terroristas e a dificuldade de entendimento entre governantes. Mas também pela silenciosa e não menos grave agressão ao meio ambiente, como a poluição das águas e do ar, a deterioração dos solos, a destruição das matas e florestas e outras formas de destruição ecológica.
Mas, se olharmos os anos que se passaram, e especialmente os últimos 12 meses, encontraremos exemplos de sobra para enfraquecer o mais profundo pessimismo. A maior inspiração vem do esporte, com a conquista da nossa seleção de futebol, inicialmente desacreditada. Esse exemplo pode ser transportado para todos os campos do cotidiano - política, negócios, ciência, educação, cultura, medicina e a sociedade de forma geral. Sempre que há dedicação e união de equipes, o sucesso é inevitável.
Na política, por exemplo, a recente experiência das eleições está sendo analisada no mundo inteiro: tecnologia avançada de votação e apuração, além de clima de absoluta ordem entre o eleitorado e campanhas com bom nível de desempenho ético.
Por tudo isso e muito mais, em nosso dia-a-dia, temos motivos para brindar o ano que se foi e o que vai começar.
A complexidade dos problemas que atingem o mundo ao nosso redor, muitas vezes é apenas aparente. A sua solução exige atitudes simples. Clama pela volta de valores morais e éticos muitas vezes esquecidos ou negligenciados e que precisam ser resgatados, com urgência.
É importante, claro, aprimorar a tecnologia, mas esta deve estar a serviço do homem e não o contrário. Quando o homem se põe a serviço da tecnologia, deixa de ser a referência e se torna o seu escravo.
A trajetória de 30 anos de existência de nosso jornal, comemorados em 2002, nos dá a convicção firme de que temos muitos motivos em direção ao otimismo em relação aos novos tempos, ainda mais com a compreensão plena de nosso papel cada vez mais relevante, nesse processo de evolução da humanidade.
Entre os jornais de credibilidade, o maior desafio é incentivar e recriar o hábito de leitura entre os mais jovens, bombardeados pela mídia do entretenimento e pelos encantos do mundo virtual. Programas de jornais na escola têm que ganhar força e o conteúdo deve prevalecer sobre a forma. O jornal tem que buscar a sua essência alimentada na ética e na função primordial da informação que é a formação do indivíduo e da sociedade. Se continuarmos assim, poderemos esperar por dias melhores, neste e nos próximos anos.
(Ana Eliza A. Lemos Senche é diretora-administrativa da Folha da Região, de Araçatuba)
• A esperança que mora no Brasil - por Amauri Soares/Globo International
Como um brasileiro que mora fora do Brasil desde março, há menos de um ano, mas num ano em que tantas coisas diferentes aconteceram, é muito curioso olhar o Brasil de fora e os Estados Unidos de dentro.
Esse ponto de vista é muito interessante e ensina muito. Hoje eu vejo o Brasil que acabou de eleger um presidente com altíssimas doses de esperança, há uma expectativa gigantesca com relação ao Lula, ao seu governo e à situação do País. É uma esperança tão grande que chama a atenção do mundo todo de como os brasileiros depositaram a sua esperança na eleição do Lula.
O Brasil vive este momento de grande expectativa por um governo que se propunha se um pouco mais humano. Aqui nos Estados Unidos, a história é muito diferente: as perspectivas são ruins. O país que é rico está em um momento muito ruim, com alta taxa de desemprego (bem diferente de quando se fala sobre isso no Brasil, porque os EUA têm toda uma infra-estrutura), de grandes empresas demitindo, de escândalos e fraudes em empresas que são grandes instituições americanas e mais importante que tudo isso, a expectativa com relação à guerra.
Ninguém mais tem dúvida de que a guerra vai acontecer, provavelmente em janeiro e o país está com muito medo do que vai significar começar uma guerra contra o Iraque, uma guerra contra o terrorismo como vende o governo americano.
Voltando à comparação, são expectativas muito diferentes a do brasileiro que vai começar 2003 com a esperança de que tudo vai melhorar e os americanos que vão iniciar 2003 com a sensação de que a situação pode piorar ainda mais. Os americanos têm medo da guerra, embora apoiem o governo. A maioria da população apóia a idéia da guerra, mas todos eles têm muita preocupação no que isso pode provocar no país. O americano está muito incomodado com a situação da economia: começa a ter desemprego, um outro amigo não consegue trabalho, isso nas grandes cidades. Nova York tem hoje a taxa de desemprego mais alta de sua história. Nada se compara ao Brasil ou São Paulo, que tem 10% de desempregados, mas NYC tem sedes de grandes empresas e todas demitiram, tem sedes de mercado financeiro, que também está em baixa.
Em relação ao Brasil, o americano comum, médio tem um nível de informação muito baixo. Ele olha para a América Latina e imagina tudo como uma coisa só. Os americanos mais bem informados sabem a diferença entre Brasil, Argentina, etc. Inicialmente, houve uma reação de dúvida por parte da mídia de como ficaria o Brasil ao eleger um presidente de um partido de esquerda. Mas nesse momento, a mensagem do PT e do Lula foi bem compreendida por aqui, depois dos contatos e depois das conversas já há por parte do mercado e da mídia um conhecimento maior do que pode significar o governo Lula para o Brasil.
Assim como a maioria dos brasileiros, eu estou otimista com relação ao próximo governo. Estou otimista de que as decisões importantes e que precisam ser tomadas serão tomadas, as mudanças serão feitas. O Brasil vem adiando medidas importantes durante muito tempo, isso só vai agravando o nosso problema. Eu acho que agora, com todo esse apoio, toda essa expectativa da população, o novo governo vai começar a caminhar nessa direção.
Desde o primeiro dia de governo e em todas as áreas do governo, o Lula deve considerar como desafio de todo dia diminuir as diferenças e aliviar a concentração de renda que existe no Brasil.
O Brasil é o País que tem a maior concentração de renda do mundo. Isso quer dizer que em nenhum outro país tão poucas pessoas concentram um pedaço tão grande da riqueza como no Brasil. É uma reação de causa e efeito, é o retrato da nossa situação.
Enquanto o Brasil não conseguir distribuir melhor a sua renda, diminuir a distância entre os mais pobres e ricos, a gente vai continuar tomando decisões apenas paliativas. Se pudesse dar um conselho para o Lula, daria esse: desde o primeiro dia de governo, enfrente este desafio diariamente.
Aliás, outro desafio que me chama a atenção sobre Bauru e outras cidades do interior do Brasil é a impressão de que as pessoas não militam pela sua cidade. Eu sinto uma falta de orgulho e de atuação pela cidade. Geralmente, as pessoas falam de algo que acontece onde moram, eu acho que existe uma apatia geral dos bauruenses em relação à sua cidade.
Sempre que a gente generaliza a gente é injusto com alguém, é verdade que nem todo mundo tem essa postura, mas essa apatia precisa ser encarada e revertida com relação a Bauru.
É uma questão de amor pela cidade, de ajudar no que é possível, cada um em sua área de atuação, coisas pequenas mesmo. Eu penso muito nisso, quando a gente fica longe da cidade, a raiz fica até mais forte.
(O jornalista bauruense Amauri Soares é presidente da Globo International com sede em Nova York, EUA)
• 2002 foi ótimo! Que 2003 não seja tão ruim... - por Oscar Osawa/Diário do Grande ABC
É impossível falar de 2003, sem levar em conta 2002, um ano sem igual.
Na nossa indústria, 2002 foi ótimo para o jornalismo. Eleições, terrorismo, economia desbalanceada e outras paixões demonstraram que o jornalismo sério e conseqüente é bem mais importante que o jornalista, mesmo que sério e conseqüente. Em 2003 só podemos concretizar o marco que foi a maturidade das empresas de mídia na cobertura das eleições, principalmente na grande imprensa. Saiu do muro e esquecendo-se do malefício da eqüidistância, anacronismo para não comprometer os interesses de suas empresas, e foi decisiva na orientação madura dos eleitores, sem ignorar a eqüidade de tratamento aos candidatos e programas de governo.
2002 foi ótimo para o esporte brasileiro. O vôlei e a ginástica olímpica firmaram-se. O tênis e o automobilismo reviveram. O penta veio com facilidade e o campeão brasileiro é um time que joga plasticamente, como todo esporte deve ser praticado. Falta ainda a varredura da cartolada das viradas de mesa, mas os bons ares de 2003 reserva-nos a esperança que teremos profissionais de primeiro mundo dentro e fora de campo.
2002 foi ótimo para a política. Sem precedentes foi o linchamento público de políticos eticamente malversados. Menos indecoroso, 2003 não permitirá o retorno dos freds kruegers. Há clima para jogar a pá de cal. Nada de versões 13, 14, 15...
2002 foi ótimo para a cidadania, apesar de perverso com o cidadão. A população menos silenciosa está mobilizando-se claramente, movida pela maior consciência individual, em direção de uma sociedade organizada e de demandas civilizadas. 2003 demonstrará que não foi à toa a perda do poder reivindicador dos sindicatos de classes e o ganho de poder participativo dos trabalhadores clássicos nas eleições e na gestão das empresas.
2002 só não foi ótimo para os negócios, conseqüentemente, como dissemos, não o foi para o cidadão, castigando principalmente os desempregados.
Porém, temos um 2003 com campo fertilizado. A informação jornalística exercendo o seu papel de decodificador das demandas da sociedade para as classes políticas, eclesiásticas, científicas e empresariais. E vice-versa. Esporte, indicador de um país saudável, indo bem e divertindo a quem interessa. A política encontrando seus eixos e os políticos os seus julgamentos. A cidadania deixando de ser um vocábulo substantivo, transformando-se num pacote adjetivo. E com respeito. Só temos a crescer.
Então, vamos ao trabalho!
(Oscar Osawa é diretor do jornal Diário do Grande ABC, de Santo André)
• Um dragão na linha de largada - por Paulo Torres/Diário da Região
Seja qual for a linha política que o governo petista de Luiz Inácio Lula da Silva venha a adotar à frente da Presidência da República, das prioridades que vier a estabelecer, a maior prioridade já pode ser constatada claramente, levando em conta a definição da equipe do primeiro escalão. A obsessão de Lula, no começo, parece ser mesmo o combate à inflação. Ele sabe que não há país no mundo que consegue promover o desenvolvimento socioeconômico sem antes domar a inflação. Afinal, é essa inflação que pode ser apontada como a maior penalidade para os bolsos das classes de menor poder aquisitivo. Essas classes não têm acesso à “proteção†oferecida pela correção monetária no sistema financeiro.
A prioridade inicial de Lula, guinando à direita, pode ser observada na escolha da sua equipe econômica, especialmente o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Com Meirelles no comando do BC, Lula dá sinal evidente de que o equilíbrio econômico é o mais importante, neste momento, para o governo do PT. Deputado tucano, Henrique Meirelles foi presidente do Banco de Boston e é sinônimo da economia liberal. Para poder desenvolver a política transformadora que teve o voto de 52 milhões de brasileiros, Lula precisa de estabilidade econômica e de credibilidade junto aos investidores nacionais e internacionais.
Mas esse posicionamento de Lula é efetivamente o que os brasileiros esperam?
Claro que isso não basta, porque apenas uma equipe econômica “aprovada†pelo mercado não significa melhoria nas condições de vida da população, isso sim uma prioridade de cada pessoa que ajudou Lula a chegar à Presidência. A opção de Lula pode funcionar num primeiro momento, como o atual, em que o País enfrenta falta de credibilidade e principalmente de financiamento internacional. Mas não se sustenta ao longo do tempo. O governo do PT precisa avançar na reforma tributária e na reforma política para dar ao Brasil a capacidade de andar com as próprias pernas, sem precisar de financiamento externo para fechar o balanço de pagamentos.
Mas Lula jamais deve se esquecer que foi eleito com uma proposta de transformação. É de se esperar que o foco na estabilidade econômica não seja um fim, e sim apenas o meio de alcançar o avanço social. E o primeiro ano de mandato de Lula é essencial para a consolidação das reformas necessárias ao País. É o período em que o presidente conta com maciço apoio popular. Depois disso, só as respostas concretas aos anseios da população serão capazes de sustentar uma governabilidade equilibrada.
(O jornalista bauruense Paulo Torres é editor-chefe do Diário da Região, de São José do Rio Preto)
• 2003 não vai ser muito diferente de 2002 - por Luiz Malavolta/Rede Globo
Eu acho que 2003 não vai ser muito diferente de 2002 porque a conjuntura política estará sendo conduzida pela conjuntura econômica e a conjuntura econômica não é boa. Não é boa por dois fatores, primeiro o fator internacional alavancado pela dificuldade de grandes corporações multinacionais, pela situação de afrouxamento da economia norte-americana, as dificuldades permanentes da economia no Japão, que já vem de uma década de recessão e ainda a comunidade européia que encontra-se numa fase primária ou secundária da fusão muito recente. O bloco europeu se auto-defende e procura expandir suas fronteiras de forma a gerar riquezas para os países que fazem parte deste grupo. O Brasil, como é um país de economia periférica, vai estar sofrendo as conseqüências dessa diversidade internacional, que se costumou a dizer que é o episódio pós 11 de setembro. A fragilidade da economia norte-americana deveria vir anterior a esta data, mas só foi declarada porque a economia sofreu um revés em função do ataque terrorista.
Por outro lado, existe uma conjuntura adversa internamente com o Brasil em forte dificuldade de se autogerir porque a riqueza gera não é suficiente para fazer com que a máquina funcione. Ou seja, o Brasil é mais ou menos como o sujeito que está endividado no banco e que está usando o cheque especial e o cartão de crédito diariamente para poder cumprir seus compromissos e quando chega no final do mês tenta arrolar a dívida e vai pagando uma pequena parcela, vai arrolando a dívida, mas a necessidade de dinheiro é permanente, ele tem que ficar emitindo títulos cambiais no mercado internacional para poder arrecadar recursos e é o jeito que o País vai se sustentando. Com isso, vai aumentando a dívida mobiliária interna, a dívida externa que foi justificada nos últimos oito anos. Não sei ao certo, mas a dívida mobiliária deve chegar em torno de 50 bilhões e a dívida externa a mais de 400 milhões, de dólares. Isso é o preço que está se pagando pelo Plano Real.
Esse é o preço do Plano Real, a gente chega hoje 2003 com o País totalmente diferente de oito anos atrás porque se pulverizou o patrimônio público que eram as estatais e essa pulverização torna ainda mais complicada a hora de barganhar as coisas. A infra-estrutura do País melhorou porque está na mão de empresas de capital privado que querem dinheiro. Então você tem as antigas estatais procurando se consolidarem, como a Telefônica, a Embraer, que são empresas rentáveis. Mas isso acaba tendo um custo, porque tudo o que foi privatizado você paga um preço alto para ter o serviço: o telefone subiu muito, o gás também subiu, os preços no supermercado, isso faz muita diferença no poder da inflação e na liberdade de negociação para os salários e outras coisas.
Por isso, a gente vai enfrentar um ano de 2003 não muito diferente de 2002. Talvez com o novo governo haja uma pausa para se respirar mais aliviado, mas essa pauta fiscal, de entendimentos da sociedade com o governo é uma coisa que eu acho que em breve as pessoas vão entender que o governo que está assumindo não vai conseguir imediatamente solucionar problemas como o desemprego, a inflação, os problemas econômicos, o aperto, o arrocho, as taxas de juros, as dificuldades conhecidas de todos.
Mas há um amadurecimento do processo político e democrático. Hoje o brasileiro sabe como funciona uma democracia. É claro que existe uma grande expectativa, uma esperança de que o Lula vai dar uma guinada. O Lula teve essa votação porque passados os dois mandatos do PSDB que estava aí, as pessoas perceberam que exauriu-se um processo, o processo acabou. Ele prometeu estabilidade, mas não passou muito disso. O que foi o governo do Fernando Henrique? Plano Real, privatização, enxugamento do Estado e acabou. Não se passou por um processo mais amplo, uma reforma mais completa sócio-econômica do País e acabamos por ter um derretimento da infra-estrutura que fez com que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ficasse abaixo do PIB mexicano, fato que historicamente nunca aconteceu. Hoje o Brasil é menos rico que o México, e a economia brasileira já chegou a ser a oitava do mundo.
Mas eu acredito, por exemplo, que à medida em que a economia reaqueça isso fará com que se gere novas vagas no mercado de trabalho. Mas isso só vai acontecer se a economia esquentar. Você tem dois processos: um de reaquecimento da economia que vai depender de fatores externos, como exportações e o processo interno para que haja uma recuperação dos salários e do poder de compra do trabalhador. Mas isso tudo também depende de recursos e é uma reação em cadeia.
O Brasil além de retomar o crescimento vai ter que captar novos investimentos lá fora, vão ter que trazer mais dinheiro para poder botar o País para funcionar.
Eu acho que em 2003 a gente ainda vai ter algumas dificuldades de geração de emprego. E ainda não vi nada que mude de imediato esse cenário.
Eu espero que o Lula cumpra o que prometeu e tenha paciência com a sociedade que vai cobrar isso dele. Nesse momento, as pessoas estão enamoradas, apaixonadas por ele. Mas ele vai precisar de muita habilidade. Ele conseguiu um fato histórico. A eleição do PT é um processo importante que vai provocar uma ruptura com o passado porque é uma fase que outros países já enfrentaram, na Europa, por exemplo. Isso é muito significativo. A partir da eleição do Lula vamos conhecer um novo processo de amadurecimento inclusive das pessoas.
Falando um pouco de Bauru, acho que a cidade está precisando se modernizar, a infra-estrutura que ela tem está aquém das necessidades de hoje. Eu sei que a Prefeitura tem dificuldade para asfaltar todas as ruas, que é uma das grandes reivindicações da população, mas a cidade tem uma periferia inchada, tem muita gente pobre que migrou para Bauru e esse tipo de população custa muito ao município, mas que tem ter a possibilidade de sobreviver. Hoje são pessoas integradas à comunidade e não podem ser abandonadas. Essa população é importante, mas está sendo muito prejudicada. Demorou muito para o poder público enfrentar o problema das favelas. A periferia de Bauru está muito abandonada. Falta a preocupação com a infra-estrutura da cidade, o prefeito tem uma série de problemas, agora até com os vereadores, mas é necessário um projeto de modernização do município. É preciso tentar desassorear o rio Bauru, procurar novas captações de água, melhorar fundamentalmente o sistema de núcleos de saúde, reduzir taxas de mortalidade. Enfim, criar uma condição de que a cidade recupere seu crescimento, depois de tudo o que passou. Se você cria condições favoráveis, o resto é conseqüência.
(O jornalista bauruense Luiz Malavolta é chefe de reportagem na Rede Globo São Paulo)
• O Brasil é mesmo muito maior que seus problemas - por Deodato da Silva/O imparcial
Desculpem-me os leitores pelo chavão tantas vezes repetido aqui e ali, mas apesar de nosso elevado endividamento, de nossos bolsões de miséria e de fome, do desemprego que aflige milhões de famílias, da corrupção que tem envolvido figuras de todos os poderes, da violência que tomou conta das grandes metrópoles e se espraiou pelas cidades médias, dos baixos salários, da crítica assistência médico-hospitalar, do sucateamento do sistema rodo-aéreo-ferroviário e dos milhões de excluídos por todo o país, há que se acreditar no Brasil.
A afirmação pode significar um ufanismo tolo, diante de tantos desafios a serem vencidos. Nunca em toda sua história, o Brasil teve a coragem de expor suas mazelas de toda espécie, como agora, graças à consolidação do regime democrático que se instaurou após mais de dois decênios de penumbra em que ficou mergulhado o país, num prolongado regime de exceção e os meios de comunicação amordaçados.
É muito cedo talvez para uma análise desapaixonada dos dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas não seria honesto deixar de reconhecer que por esses dois mandatos, começaram as grandes mudanças nacionais. Teria sido muito melhor, não tivessem ocorrido as crises em economias mais avançadas como ocorreu na Rússia e na vertente asiática, contaminando nações emergentes como o México, o Brasil, o Chile e a Argentina (esta mais fundamente), entre outras tantas. Nem a considerada inexpugnável economia norte-americana, resistiu ao vendaval que atingiu todos os continentes. A tragédia do 11 de setembro prostrou-a ao chão, ferindo de morte a arrogância de sua hegemonia.
Mas as nações estão se organizando, seus velhos vícios nas estruturas estatais e mesmo empresariais em processo de punição e garantia de que haverá a médio prazo uma retomada do desenvolvimento.
O novo governo que vai se instalar-se dia 1 de janeiro no Brasil, herdará as conseqüências dessa crise internacional e terá de administrar com a consciência de que administrará uma economia também em transição e prepará-la para o crescimento auto-sustentado.
No poder, sucedendo a FHC, um torneio mecânico que surpreendeu a todos na campanha eleitoral, divorciado inteiramente de uma oratória ideológica que fez o colégio eleitoral rejeitá-lo por três sucessivas tentativas de eleger-se Presidente da República. Eleito, Luiz Inácio Lula da Silva abriu-se às alianças feitas, distribuindo o poder entre elas e o seu partido, o PT.
O resultado das urnas credenciou-o de forma expressiva ao exercício do munus presidencial, mas terá, forçosamente de limitar-se aos rigores de um orçamento sem folga financeira e dar duro combate à inflação, cuja recidiva deu sinais nas últimas semanas do ano. Mas limitado a não projetar investimentos no próximo exercício fiscal, caber-lhe-á a tarefa de remodelar o sistema previdenciário principalmente por seu caráter deficitário; de redesenhar uma nova política tributária, para que ela seja menos burocrática e, principalmente, que desonere a produção e os salários e modernizar o projeto político, eivado de tantos vícios.
Se há tantos desafios a enfrentar, o novo presidente encontrará uma indústria competente, dotada de toda engenharia tecnológica, dando os primeiros passos na exportação de seus produtos e o segmento da agricultura batendo seguidos recordes de safras, respondendo com grande participação nos recentes superávits da balança de pagamentos.
E encontrará ainda na sociedade brasileira um clima solidário de apoio aos menos afortunados, que raramente se vê num país, como um grande aliado das preocupações sociais de seu governo.
Não há que temer o futuro. Pelo contrário, o Brasil está preparando-se para crescer. O novo governo só precisa seguir a linha de respeito aos compromissos internacionais e promover as grandes reformas. A criatividade empresarial, por todos seus segmentos responderá pela formação de nossas riquezas.
O Brasil está muito próximo de viver novos grandes momentos na sua economia. A esperança, nunca como agora, deixará de ser uma vã expectativa de melhores dias para todos.
(Deodato da Silva é diretor do jornal O imparcial, de Presidente Prudente)
• Previsões e palíndromos - por Gilberto Maringoni
2002 é um palíndromo. Quer dizer, é um número que pode ser lido de trás para a frente ou da frente para trás. Há palavras assim, como “Adaâ€, ou “Anaâ€. Ou frases, como “Até Reagan sibarita tira bisnaga eretaâ€. Este é um palíndromo genial do Chico Buarque. Lido em qualquer sentido, é rigorosamente a mesma coisa. Experimente.
Apesar de ser um palíndromo, 2002 não termina como começou. Estes doze meses chegam ao fim com uma promessa de mudança radical de ventos na América Latina. Além do ano do penta, 2002 vai ficar para a história do Brasil como o ano do sapo. Nada a ver com o horóscopo chinês; o sapo aqui é o barbudo.
A eleição do Lula à presidência do Brasil é a culminância de um movimento de descontentamento e protesto com os rumos do País que vai muito além da campanha eleitoral. Reflete um desejo acalentado há várias décadas para que o Brasil siga outros rumos. Expressa o anseio de que o mercado não seja mais importante do que o direito de todos a três refeições diárias, a um teto, à educação, saúde e uma vida mais digna. Enfim, coisas básicas, até meio comezinhas. Mas que seriam extraordinárias se todo brasileiro a elas tivesse acesso.
Este acontecimento não é um raio em céu azul. Nosso continente vive o que se chama segunda década perdida, com riscos de emplacar uma terceira. Os indicadores sociais são quase pornográficos. A crise por aqui bateu fundo. Por muito tempo se achou que tudo iria bem se a bolsa não caísse, o dólar não subisse e se os investidores aprovassem as contas oficiais, as metas do Banco Central e o penteado do Malan. Uma coisa tão científica como achar que o Papai Noel ou o Coelhinho da Páscoa iriam resolver todos os nossos problemas.
Não é à-toa que um candidato de esquerda venceu as eleições também no Equador, que os peruanos impediram a privatização das empresas de energia em Arequipa, no sul do País, que os argentinos não param de protestar e que a Frente Ampla, uma coligação de esquerda, pode vencer as eleições no Uruguai. E que mesmo Hugo Chávez, com toda a polêmica que o cerca, vá se mantendo na Venezuela.
Este não era o roteiro desenhado para esta parte do mundo quando 2001 acabou. O ano que passou saiu dos trilhos, na visão de muita gente. E 2003? O que nos reserva? O governo Lula vai ser bom ou vai ser ruim? A crise vai passar ou vai se aprofundar? O Corínthians vai superar esta final?
É difícil dizer. O máximo que podemos vislumbrar é um ano duro. Duríssimo. Mas com uma imensa avenida aberta para que o País comece a fazer as mudanças necessárias desde que o primeiro índio, na Bahia, avistou a frota de Cabral.
Muito seguramente, o ano não vai terminar como começou. De saída, já temos um sinal: 2003 não é um palíndromo.
(O bauruense Gilberto Maringoni é cartunista e jornalista) E-mail: maringoni@uol.com.br