Viola, violão, caixas, cavaquinho, reco-reco, cantoria, cores vivas e muita fé. Este é o cenário que tomará conta do bairro Bauru 16, hoje, com a festa de Santo Reis, o acontecimento mais esperado do ano pelos integrantes do Grupo Folia de Reis Bauru.
A festa é uma homenagem feita, no Dia de Reis, àqueles que seguiram a estrela guia para presentear o Menino Jesus. Hoje, às 8 horas, os foliões saem pelas ruas do bairro rumo à casa de seo Antônio Correia, o embaixador do Grupo Folia de Reis Bauru, onde será realizada a esperada festa.
Na peregrinação, os integrantes do grupo pedem oferendas às casas pelas quais passam durante a caminhada. Os colaboradores podem doar qualquer tipo de comida e até mesmo alguma quantia em dinheiro; tudo em nome dos Reis. E quem não tiver nada para agradar os Reis, também pode se juntar à caminhada, conta o embaixador Antônio.
Os alimentos arrecadados durante a peregrinação são preparados sempre no dia da festa, na cada do festeiro. Aquilo que sobra é doado a entidades ou igrejas. Há uma espécie de regra que costuma ser respeitada entre os foliões, que é de não levar para casa as oferendas arrecadadas, já que elas são doadas em nome dos três Reis Magos.
Um dos momentos mais importantes da peregrinação é a chegada à casa do festeiro, onde a bandeira, que leva a imagem dos Reis, é entregue ao dono da casa. Ele será o responsável por sua guarda durante todo o ano, até que se iniciem novamente as peregrinações e os preparativos para a próxima festa.
Antigamente, os foliões saiam às ruas na véspera de Natal, caminhando com a bandeira por vilas e povoados até o dia seis de janeiro. Atualmente, o Grupo Folia de Reis Bauru começa a se preparar no início de novembro de cada ano, fazendo as peregrinações durante os sábados que antecedem o dia da festa de Santo Reis.
O Grupo
O Grupo Folia de Reis Bauru existe desde meados da década de 70. Dessa época aos dias de hoje, muitos integrantes saíram do grupo e outros entraram. No entanto, sempre foi respeitada a composição de dez foliões - uma tradição entre eles.
Os foliões, vestidos com fardas coloridas, seguem uma hierarquia dentro do grupo, já que são considerados soldados dos Reis Magos. O papel principal é desempenhado pelo embaixador, ou mestre. É ele que organiza o grupo, puxa os cantos e faz a primeira voz.
O contra-mestre é a pessoa que substitui o mestre, faz a segunda voz na cantoria e recolhe os donativos.
O folião que carrega a bandeira é chamado de bandeireiro. A bandeira, sempre repleta de ornamentos religiosos, é o símbolo da Folia. Sendo uma elemento importante na comemoração, ela pede um guardião - o palhaço. Entre os foliões, ele pode ser identificado por sua máscara e pelo bastão que carrega. De acordo com Mara Rita Oriolo de Almeida, pesquisadora da Folia de Reis e autora da tese Folia de Reis em Bauru - a resistência pela fé, o palhaço representa um instrumento de crítica à sociedade nos grupos de Folia de Reis. Mascarado, ele representa a voz do povo podendo falar, irônico e cheio de sátiras, diz Mara.
O Grupo Folia de Reis Bauru passou por fases difíceis nos últimos anos. De 1994 a 1997, o grupo perdeu força, principalmente por falta de incentivo. Hoje, com as comemorações retomadas, o grupo conta também com integrantes jovens, que são um sinal de que a Folia de Reis em Bauru deve continuar.
Fim do tempo de Natal
A Folia de Reis é uma festa religiosa de origem portuguesa que chegou ao Brasil em meados do século XVIII. Na Europa, tinha caráter profano, com a finalidade de divertir as pessoas. No Brasil, a festa sofreu algumas modificações, passando a ter cunho religioso.
Hoje, o principal objetivo da Folia de Reis é celebrar o nascimento de Cristo. Simboliza a viagem dos três Reis Magos - Baltazar, Belchior e Gaspar - a Belém, guiados por uma estrela e levando presentes ao menino Jesus, que acabara de nascer.
Tradicionalmente, um grupo de cantadores e instrumentistas percorriam suas cidades do dia 24 de dezembro ao dia seis de janeiro -Dia de Reis -, entoando versos sobre a jornada dos Reis Magos e sobre algumas passagens da vida de Cristo. Passavam pelas casas batendo de porta em porta em busca de oferendas, que podiam variar de um prato de comida a uma xícara de café.
As pessoas que participam da Folia, sempre vestidas com fardas coloridas, buscam uma benção divina e fazem pedidos relacionados, normalmente, à saúde ou a problemas financeiros. Os foliões contam que, para que a graça seja alcançada, é necessário assumir um compromisso de participar da Folia de Reis por, no mínimo, sete anos.
Atualmente, a Folia de Reis é uma festa tradicional em Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná e algumas cidades do Interior de São Paulo, como Campinas, Taubaté e Ribeirão Preto, onde as comemorações estão sendo resgatadas no Dia de Reis.
Vela lembrar também que o dia 6 de janeiro é marcado pela retirada dos enfeites de Natal que decoram casas, ruas e até mesmo locais de trabalho no período próximo ao dia 25 de dezembro.
Pode-se encontrar enfeites de diversos tipos, tamanhos e cores. O presépio e a estrela, no entanto, são aqueles que mais lembram o real significado do espírito de natalino.
De acordo com padre Jesus Bringas, da paróquia São Sebastião, em Bauru, o presépio teve origem com São Francisco de Assis, no século XIII. Ele lembra o nascimento de Cristo, representando os acontecimentos. Seus principais elementos são o Menino Jesus, Maria, José, o Anjo que anuncia o nascimento e os pastores, além dos três Reis Magos.
Os magos representam o mundo pagão que se abre à fé, seguindo os sinais de Deus. A estrela é um sinal que guia até Cristo. Ela pode ser interpretada, hoje, como sendo a salvada escritura - a Bíblia -, Nossa Senhora e também a ação do Espírito Santo em nossa consciência, conta o padre.
A tradição manda que o presépio seja montado e os enfeites colocados quando se aproxima o dia em que é lembrado o nascimento de Cristo, 25 de dezembro. Segundo padre Jesus, os enfeites devem ser retirados no Dia de Reis, que marca o fim do tempo de Natal.