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O melhor ano do Real

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

O badalado e apocalíptico ano 2000 acabou. E deixou-nos uma novidade à qual nós, brasileiros, já estávamos desacostumados: pode parecer incrível, mas o Brasil deve ter crescido uns 4%. Até parece coisa de ficção científica, na qual o autor joga todas as soluções para um futuro remoto, que, aos olhos do leitor, parece inatingível. Pois é, no último ano do século 20, finalmente, parece que acordamos para a necessidade de deixarmos de ser o eterno País do futuro para, pelo menos, sentirmos o gosto de viver antecipadamente alguns indicadores positivos.

Pela primeira vez na história recente do País, a economia registrou crescimento com inflação baixa e sob rígido controle, ou seja, com estabilidade. Nos anos do milagre, as taxas de crescimento foram bem maiores, em média, 7% ao ano, mas a inflação anual também foi de três a quatro vezes maior do que a atual.

O mínimo que se pode dizer do ano 2000 é que foi, de longe, o melhor desde 1994, quando o Plano Real foi implantado. A indústria voltou a crescer, o desemprego diminuiu, embora em níveis modestos; o superávit fiscal foi muito maior do que o prometido ao FMI, o que dará certa folga ao governo em 2001; ficamos sabendo, pelos dados do Censo, que nossa população está, há uma década, registrando média de crescimento supercivilizada de 1,6% ao ano e que a qualidade do ensino vem melhorando, graças às constantes avaliações realizadas pelo MEC.

Claro que o ano 2000 não foi só um mar de rosas. Apesar disso, mesmo nos destaques negativos, houve alguns progressos. Por exemplo, as reformas pouco evoluíram, mas em compensação, o governo conseguiu aprovar a Lei de Responsabilidade Fiscal. A balança comercial registrou déficit em vez do superávit negociado, mas os US$ 30 bilhões em investimentos diretos foram mais do que suficientes para zerar o déficit nas transações correntes e equilibrar o balanço de pagamentos. Os juros básicos continuam extremamente altos para o setor produtivo, mas, ao apagar das luzes do ano, o Banco Central baixou-os de 16,5% para 15,75% ao ano.

Fazendo-se uma comparação entre os destaques positivos e negativos ocorridos ao longo do ano 2000, o saldo é francamente favorável, o que cria um cenário ainda mais otimista para 2001. Há um bom espaço para a queda contínua dos juros, o que poderá alavancar os investimentos necessários para a expansão e modernização do setor produtivo. No comércio exterior, tudo leva a crer que, finalmente, a conjugação de dois fatores positivos (os juros mais baixos e os estímulos já adotados pela Camex) comecem a virar o jogo em benefício das nossas exportações. Claro que, ainda, falta uma política de marketing para o comércio exterior.

A melhora generalizada dos indicadores econômicos e sociais dará uma trégua para que o governo retome, com a calma necessária, as negociações com o Congresso Nacional, para a imediata continuidade das reformas, com urgência e prioridade, para a tributária e a fiscal. Com elas, o setor produtivo ganharia o fôlego necessário para completar a modernização tecnológica do nosso parque industrial. Obviamente, se tudo isso vier acontecer, durante o primeiro semestre de 2001, com certeza, poder-se-á esperar um segundo semestre ainda melhor, criando-se, dessa forma, um círculo virtuoso, alimentado por duas grandes vertentes: o menor custo do dinheiro e a redução da carga tributária.

Com esses dois estímulos, as empresas privadas nacionais estariam em melhores condições para concorrer com as similares estrangeiras, que, pelo menos até agora, estão em vantagem, pois ganham dos dois lados: em seus países de origem, obtêm financiamentos a custos bem menores do que os nossos; e, aqui, ganham mercado praticamente sem concorrência, já que nossas empresas, arrochadas, pouco podem fazer.

É preciso mudar esse quadro e rapidamente. Caso contrário, vamos continuar a exportar empregos.

(*) Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing. E-mail: presidencia@advbfbm.org.br

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