Geral

Fidelidade partidária

José Roberto Batochio
| Tempo de leitura: 4 min

O debate, ou arremedo de debate, sobre a reforma partidária está recheado de inverdades que enganam a sociedade e ajudam o governo a aprovar um pacote de reformas de leis e da Constituição. O Palácio do Planalto e sua base no Congresso, com apoio de setores mal-informados da mídia, homeopaticamente instilam na opinião pública a falsa idéia de que o sistema partidário brasileiro é irremediável e precisa de uma cirurgia profunda. Mas o bisturi governamental salva a doença e mutila a parte saudável do organismo eleitoral.

A propaganda antidemocrática, quando fala em fidelidade partidária, na verdade está pretendendo a quebra da independência parlamentar. Quando fala em cláusula de desempenho, na verdade está pensando em cláusula de exclusão ou algo como morte por asfixia, que pode ser apressada com a proibição de coligações partidárias em eleições proporcionais, com a quebra da isonomia na destinação dos recursos do Fundo Partidário ou na utilização do horário eleitoral. Quando fala em legendas de aluguel, na verdade está pretendendo a extinção da pluralidade partidária. Quando fala em voto distrital, na verdade está pretendendo o voto majoritário, com a supressão da representação das minorias.

Um dos embustes em curso é de que o Brasil tem partidos em excesso. Tem 30, o mesmo número dos Estados Unidos. A Inglaterra tem 32; a Alemanha, 41; a Índia, 55; a Espanha, 94. Em nenhum desses países há movimento para diminuir ou concentrar a representação dos cidadãos no sistema eleitoral. Quando a propaganda fala em fortalecimento dos partidos políticos, não se refere ao fortalecimento do quadro partidário como veículo de representação da sociedade e canal das suas aspirações, mas pensa no espúrio inchaço de algumas legendas grandes, de modo a sufocar e engolir as pequenas, para suporte da prática oligárquica de governar com poucos para muitos.

É no aspecto da fidelidade partidária que os jargões da propaganda mais distorcem os fatos. Semeia uma verdade, a de que é alta a rotatividade nos partidos brasileiros, para colher uma mentira. O projeto de reforma patrocinado pelo governo não resolve este problema, porque tem o objetivo inconfessado de domar os insurretos da base governista e aplicar-lhes uma camisa-de-força. Seria fácil aos grandes partidos governistas implantar práticas saneadoras nos parlamentos. Poderiam, por exemplo, deixar de associar-se aos que acusam de legendas de aluguel. Num dos raríssimos casos comprovados de corrupção partidária, o chamado PSDólar, qual foi a atitude da base governista? Convidou o partido suspeito para a coligação que elegeu o presidente Fernando Henrique Cardoso, mesmo depois de o síndico do butim, um deputado paranaense, ter sido cassado pela Câmara.

A fidelidade já está inscrita na legislação. O artigo 15 da Lei dos Partidos Políticos (Lei nº 9.096, de 19 de setembro de 1995) diz que cabe ao estatuto dos partidos regulamentar a fidelidade e disciplina partidárias. Portanto, a lei em vigor permite, e a moral não impede, que a agremiação defina as punições e castigue o infiel (é o caso do PDT). Nenhum dos grandes partidos da base governista parece interessado nisso. E a razão é simples: um processo de infidelidade seria desgastante e ofereceria ao acusado direito não só de defesa como de ataque que as cúpulas não gostariam de enfrentar.

A verdadeira fidelidade é omitida neste suposto debate: a do partido ao seu programa. As cúpulas põem o foco nos parlamentares que votam conforme sua consciência, e com o programa partidário, recusando-se a acatar acordos iníquos urdidos pelos dirigentes. Os caciques ignoram que a lealdade autêntica é a do partido ao eleitor.

Para que calendas foi enviada a promessa de aumento do salário mínimo a cem dólares? Em que poeira da história se perdeu a promessa de respeitar o Estado Democrático de Direito, se o governo impõe leis como a que fere a Constituição ao violar o sigilo bancário e fiscal dos contribuintes honestos? Que foi feito da propaganda eleitoral de construção de um país justo, emblematicamente empalmada nos cinco dedos do presidente? Uma reforma eleitoral efetivamente democrática teria como conseqüência a obrigação de cada partido ou coligação respeitar o programa apresentado ao eleitor, sendo-lhes vedado aprovar, no Parlamento, e aplicar no Executivo, medidas contrárias a plataforma na qual os eleitores se basearam para dar o seu voto. Só a pluralidade partidária, com agremiações independentes, vinculadas eticamente ao programa que atraiu o eleitorado, será capaz de sustentar e ampliar a democracia. Quem sabe a oligarquia ainda aprenderá, como assinalou Alexis de Tocqueville, que os partidos são um mal inerente aos governos livres. (José Roberto Batochio é deputado Federal)

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