De acordo com o IPMet, este será um ano dentro das condições normais, sem ocorrências de fatores que modificam as estações
Os fenômenos conhecidos por El Niño e La Niña que alteram as estações climáticas não estarão influenciando nas temperaturas deste ano, porque eles não estarão atuando junto ao Pacífico. A expectativa é de que não ocorrerão excessos de chuvas, nem de calor. As situações serão mantidas ao redor da média. Essa afirmação é do meteorologista e diretor do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) de Bauru, Maurício de Agostinho Antonio que explicou também sobre as pesquisas realizadas pelo Instituto, as perspectivas deste centro que serve como referência para todo o País e as novidades tecnológicas utilizadas para acompanhar a meteorologia.
Agostinho Antonio contou que, no próximo mês, os pesquisadores do IPMet lançarão três balões na atmosfera para dar a volta ao mundo e trazer informações que serão avaliadas pelos estudiosos. No ano passado, já foram lançados os balões, mas por problemas técnicos não conseguiram cumprir a meta.
O meteorologista explicou, ainda, que as críticas existentes sobre os erros cometidos pela meteorologia já são sem fundamentos. De acordo com ele, esses erros diminuíram consideravelmente e isso ocorreu devido ao avanço tecnológico existente na área. Por outro lado, ele explicou que alguns erros ainda ocorrem porque, para se calcular e prever o tempo e a temperatura é necessário um cálculo extenso e minucioso, feito por médias numéricas e, às vezes, essas médias dão algumas diferenças que na finalização apontam erros. O IPMet de Bauru existe desde 1974 e conta com uma equipe de meteorologistas, técnicos de meteorologia, pessoal da informática e pesquisadores. Veja abaixo a entrevista com Maurício de Agostinho Antonio.
JC - Como é feita a previsão meteorológica?
Agostinho Antonio - É feito através de um modelo matemático, são pontos de grade sobre a superfície da Terra, então o importante é a distância entre esses pontos. O ideal seria ter um ponto a cada quilômetro, mas não há computador no mundo que tenha essa capacidade, então hoje temos modelos que são chamados de média escala que fazem essa distância de pontos estar na ordem de 20 quilômetros. Como início disso se tem um diagnóstico que é feito sobre as forças da Terra mostrando as características gerais que se tem ali, descrevendo o campo meteorológico, a partir daí, jogamos a grade encima da superfície e tiramos os valores nos pontos de grade correspondente aquele diagnóstico e aí os modelos matemáticos fazem a projeção no tempo daquelas variáveis meteorológicas observadas no ponto. Cada ponto é um monte de equação para cada variável meteorológica, é uma grande quantidade de contas.
JC - E o meteorologista, qual é o papel desse profissional?
Agostinho Antonio - É claro que o fato de que só através do computador é possível se calcular essas previsões, não elimina a experiência do meteorologista, o sentimento do meteorologista de achar que amanhã o tempo vai estar bom. O aspecto individual da sensibilidade de cada meteorologista continua existindo, apesar dele ter ali toda uma quantidade de informação que é resultante de equações matemáticas, equações objetivas, tem também a parte subjetiva que é a do meteorologista, encima daquilo ele faz a análise e emite o que vemos como previsão. Então hoje, não há previsões sendo feita sem ser calcada por esse modelo, o objetivo com o subjetivo.
JC - Por que ocorrem os erros de previsões meteorológicas?
Agostinho Antonio - As equações matemáticas descrevem as situações médias, se você tem alguma perturbação desse processo, às vezes o modelo não reage a isso ou mais comum, situações de fenômenos meteorológicos menores que o tamanho de grade, então ele não reconhece. Digamos que o modelo de grade utilizado no modelo de transmissão seja de 20 ou 50 quilômetros, ocorrendo um fenômeno meteorológico ali dentro com uma dimensão menor que essa, o modelo não irá perceber esse fenômeno e, portanto, isso vai passar. Mas em função do aumento significativo de plataformas de observação que são os equipamentos que fazem as medidas da situação geral da atmosfera, como as estações de superfície, estações de altitude, estações de radar, satélites meteorológicos, bóias no mar, se tem um melhor diagnóstico do estado da atmosfera, diminuindo a ocorrência de erros. O Instituto tem investido bastante na parte de monitoramento e acompanhamento das situações meteorológicas para acessorar as previsões.
JC - Além disso, existe mais algum fator que interfere na previsão?
Agostinho Antonio - Tem também o desenvolvimento dos computadores, que evoluiu muito, passando a fornecer as informações com melhor qualidade e maior freqüência, aumentando o número de pontos de medida. Além disso, o desenvolvimento dos computadores garantiu o sistema de processamento mais rápido e de maior parte, dispondo de uma melhor capacidade de processamento de dados e, portanto, nos modelos numéricos para a previsão de tempo passaram a ser feito com melhor resolução em termos de área e em termos de tempo, abrangendo áreas continentais cada vez maiores.
JC- Por quanto tempo se pode fazer uma previsão?
Agostinho Antonio - Rotineiramente, temos previsões para cinco dias, tendências para mais cinco e uma projeção para uma estação inteira, ou seja, por um período de três meses. Essa é uma situação muito melhor que há alguns anos, quando só podíamos prever dois ou três dias, no máximo.
JC - Para os cinco dias a previsão é confiável?
Agostinho Antonio - A previsão para o dia seguinte é muito boa, para 48 horas já tem um errinho e a cada dia que passa vai diminuindo o acerto, mas no dia seguinte isso é refeito e o que era 48 horas passa a ser 24 horas e, portanto esse pequeno erro é corrigido. Dificilmente se erra a previsão do dia seguinte, já a de algumas horas, feita com o radar, é infalível.
JC - O que se pode dizer em termos de previsão para este ano?
Agostinho Antonio - Não há como fazer uma previsão assim por um longo período, mas sabemos que ano ou outro, temos uma situação mais agressiva, que produz mais problemas. O ano passado, nós já tivemos uma deficiência de precipitação em alguns meses. Vivemos uma situação de poucas chuvas e a expectativa para este ano é de que não tenhamos excesso de chuvas e sim chuvas normais. As chamadas previsões numéricas climáticas que nos dão a tendência para a estação apontam para uma situação normal, ou seja não teremos excesso nem de chuvas, nem de calor, a situação estará mantida absolutamente ao redor da média.
JC - Por quê ?
Agostinho Antonio - Porque este ano, não temos atuando junto ao Pacífico os fenômenos conhecidos como El Niño ou La Niña, que normalmente causam perturbações, ou chuvas de mais ou de menos, ou frio de mais ou de menos. Este ano não há nada atuando lá, as temperaturas estão, aproximadamente, em cima da média, portanto as condições meteorológicas atuantes, deverão estar também ao redor da média.
JC - Então não teremos chuvas fortes este ano e nem muito frio?
Agostinho Antonio - Não é isso. No verão, regularmente, um dia ou outro, temos sim uma chuva forte, não estaremos livre desse tipo de chuva, com descarga elétrica, vento forte e até um granizo, mas isso faz parte do normal dentro de nossa visão, o que não esperamos é excesso de chuva, vários dias chovendo muito forte. A tendência é essa.
JC - Qual a área coberta pelo IPMet de Bauru?
Agostinho Antonio - O Estado de São Paulo, norte do Paraná, sudeste do Mato Grosso, sul de Minas, região do circuito das águas. Operamos dois sistemas de radares, um em Bauru e outro em Presidente Prudente. No Estado de São Paulo, temos um radar da aeronáutica, temos um radar instalado próximo a Capital, há um em São José dos Campos com a participação de Bauru e os dois operados pelo IPMet. O de Presidente Prudente é remoto, não fica ninguém lá, ele é operado a partir do de Bauru que é o centro dessas operações.
JC - Como está a área de pesquisa no Instituto?
Agostinho Antonio - Nós desenvolvemos vários projetos. Um dos projetos de pesquisa que o IPMet apóia e desenvolve em cooperação com entidades da França são os balões que é uma parte de pesquisa da alta atmosfera. Isso é um pouco fora do assunto específico de meteorologia com radar que o IPMet tem como prioridade hoje, mas como é um assunto de interesse da Universidade e é um projeto que já vinha em andamento, estamos seguindo. Em novembro foram lançados dois balões para dar a volta ao mundo, mas não completaram a volta em função das condições meteorológicas adversas e caíram, mas já tinham dado mais de meia volta. Agora em fevereiro, as condições devem ser mais favoráveis e os balões serão lançados novamente e certamente vão completar o circuito. Chegando de volta ao Brasil, através de telecomando, cai a carga útil de pára-quedas e nós fazemos o resgate desse material para ser avaliado. Por satélite, nós fazemos o acompanhamento da trajetória do balão.
JC - Quanto tempo os balões levam para dar a volta ao mundo?
Agostinho Antonio - Eles devem demorar, em fevereiro, mais ou menos 20 dias que é quase a metade do tempo estimado em novembro. A velocidade agora é maior, então acreditamos que não teremos os mesmos problemas de antes.
JC - O que se espera para essa estação?
Agostinho Antonio - Nós estamos alertas a tempestades severas que são aquelas chuvas que realmente causam problemas, então isso é olhado com bastante atenção porque essas chuvas podem causar danos e prejuízos para a população em geral. Essa época é fogo, chove muito e pode ocorrer essas chuvas fortes. Particularmente, Bauru tem uma situação mais privilegiada que as demais cidades, porque aqui nós temos um contato direto com a Defesa Civil da cidade, já as outras cidades recebem nossa informação por terceiros. Bauru tem a vantagem que estamos aqui, começa a fechar o tempo o coordenador da Defesa Civil já nos liga para saber que tipo de chuva vai ocorrer, então Bauru é privilegiado.
JC - Se pode prever, então, que vai chover e que tipo de chuva vai ocorrer?
Agostinho Antonio - Com o radar, fazendo o monitoramento da tempestade, conseguimos identificar o potencial dela, se é forte, se tem potencial destrutivo ou se é fraca. Isso em função das intensidades que estão presentes, das velocidades do deslocamento, porque cada tempestade mais forte tem o que chamamos de assinatura, tem as informações de vento com determinadas características, informando se aquela tempestade é potencialmente perigosa, aparece também um sinal de alerta na tela do radar. Numa tarde de verão, nós podemos ver vários pontos de alerta.
JC - Esse trabalho de prever chuvas fortes e alertar a Defesa Civil é muito importante para evitar desastres. Existe um empenho do IPMet para com isso?
Agostinho Antonio - Esse é um dos principais trabalhos, na minha opinião, que o Instituto faz que é decorrente do trabalho de pesquisa que é o monitoramento das precipitações severas que acontecem no Estado de São Paulo.
JC - Vocês têm algum projeto para este ano?
Agostinho Antonio - Nós estamos desenvolvendo um projeto que será de grande importância e além de trazer benefícios vai aprimorar o trabalho de previsão. Nós queremos durante este ano, atualizar os equipamentos de informática que estão ligados nos radares do IPMet e colocar os nossos radares trabalhando integrando. O objetivo é disponibilizar uma informação contínua cobrindo toda a área dada por todos os equipamentos. Isso dará uma macro visão, melhorando o nível das informações. Atualmente, nossos radares trabalham isoladamente e cada um transmite sua informação e o que queremos é integrar, mas para isso precisamos primeiro modernizar os equipamentos e os programas. Isso tudo, deveremos fazer ainda este ano.
JC - De onde vêm esses recursos para fazer essa atualização? Da Unesp?
Agostinho Antonio - Não. Esses recursos não provêm da Universidade. Eles são captados fora através das agências de fomento, por projetos de pesquisa, trazidos para a Universidade e depois são colocados a disposição dos usuários.
JC - Existe um trabalho de divulgação da meteorologia para o público?
Agostinho Antonio - Nós temos um site na Internet, que é atualizado de 15 em 15 minutos, (www.ipmet.unesp.br), onde o usuário pode acessar e ter todas as informações, temos também um cadastro que pode ser feito pelas pessoas que precisam de informações mais precisas. Com esse cadastro, elas podem acessar outras páginas. Pelo telefone 231-1122, também passamos as informações básicas.