As estatísticas oficiais divulgadas pelo Governo Federal sobre os índices da inflação, em torno de 6% ao ano, continuam não refletindo a realidade dos fatos. A chamada inflação oculta continua rondando a vida dos brasileiros. A afirmação é do economista Said Yusuf Abu Lawi, que condena o Plano Real e o modelo inflacionário utilizado no Brasil. Pode-se dizer que a verdadeira inflação vem sendo sentida e medida no bolso da população, principalmente, para as famílias de classe média.
Há anos, as pessoas incluídas na classe media estão mudando seus hábitos, fazendo reajustes nos gastos e no próprio estilo de vida para viver com dignidade. Para as famílias de baixa renda, a situação é ainda pior. Nesses casos, os cortes chegam a atingir itens importantes, como a suspensão do plano de saúde por não conseguir arcar com as mensalidades.
No modelo de índice inflacionário utilizado pelo governo, os itens da cesta básica são os que mais pesam. Segundo Said Yusuf, isso gera uma distorção gravíssima, já que as pessoas pertencentes à classe média e, até mesmo, as de renda mais baixa, não consomem somente o básico. Se as pessoas de baixa renda quiserem inovar, em termos de consumo, fora dos 22 itens da cesta básica, elas também estarão sujeitas a uma inflação que o governo não oficializa. Por isso é que, em termos gerais, incluindo até mesmo a classe alta, as pessoas estão precisando abrir mão de várias coisas às quais podiam ter acesso antes. A situação está ficando difícil para todos. Cada vez mais as pessoas procuram por trabalhos extras para aumentar a renda mensal, observa Said Yusuf.
O trabalhador saiu perdendo nos últimos dez anos. Além dos altos índices de desemprego, a renda média dos brasileiros diminuiu e não houve incorporação da inflação do período nos salários. Até o início do Plano Real, existia uma política salarial que reajustava os rendimentos automaticamente. Depois, isso acabou e começou a defasagem salarial. Agora, as reposições ficam dependendo de negociações das categorias trabalhistas.
Luiz Antonio (nome fictício, a pedido do entrevistado) que trabalha como representante regional de uma rede de livrarias, diz que a atual política econômica do governo prejudicou a sua vida em diversos aspectos, inclusive, socialmente.
Depois que eu me separei da minha ex-esposa, tive que refazer a vida. Com todas as despesas correndo por minha conta, chegou um momento em que acumulei algumas dívidas e tive que trocar meu carro por um mais velho e mais barato para fazer sobrar um dinheiro. Além disso, precisei abrir mão de várias coisas que eu podia fazer antes, como comprar roupas e coisas para a casa. As saídas à noite também tiveram que diminuir para controlar o orçamento. Plano de saúde eu só tenho porque a empresa oferece. Se eu precisasse pagar, não teria. Essa política do governo só tem piorado a minha vida, de uma maneira geral, conta.
No exemplo de uma pessoa pertencente à classe mais baixa, Ângela (nome fictício) precisou aderir a uma ginástica econômica para garantir o bem-estar da família. Casada, mãe de três filhos e com uma renda familiar em torno de R$ 800,00, ela teve que procurar mais serviços para aumentar o salário.
Há algum tempo, eu estava trabalhando como doméstica em uma casa, três vezes por semana. A situação foi ficando difícil e precisei arrumar outros empregos. Agora, trabalho de segunda-feira a sábado e, de final de semana, faço bolos e salgadinhos em casa para vender. Meu marido também precisou arranjar outro trabalho para aumentar a nossa renda, diz.
Renda extra
De acordo com o economista Said Yusuf, a situação das pessoas procurando por trabalhos extras para conseguir aumentar a renda, gera um reflexo que, segundo ele, não está recebendo a devida atenção do governo durante esses seis anos de Plano Real. O índice de desemprego está, em muitos casos, associado ao fato de que, na medida em que as pessoas são obrigadas a ajustar o seu orçamento, elas vão buscar um trabalho extra. Isso acontece tanto na classe média quanto na classe mais baixa e se torna necessário para reforçar a receita da família. Ou seja, se antes você trabalhava sete horas por dia e agora precisa trabalhar por mais um período também, você está tirando o serviço de alguém. Isso acaba reforçando os índices de desemprego, o que vem ocorrendo durante todo o Plano Real, analisa Yusuf.
A rotatividade nos empregos foi outro fator que contribuiu para a baixa nos salários. Como a demanda se tornou maior, era possível encontrar quem fizesse um trabalho por R$ 80,00 no lugar de quem ganhava R$ 100,00, por exemplo.