Na sua incansável capacidade de produzir matéria-prima para o anedotário nacional, o governo protagonizou na semana passada mais um belo vexame, esse através de uma de suas estatais. Falo da nati-morta PetroBrax. Mexeram numa abelheira furiosa com o tato de uma retroescavadeira.
Não sei e, na verdade, ninguém sabe, qual foi a opinião do povão sobre a assunto.
Ninguém se lembrou de perguntar e, mesmo que lembrasse, isso não deveria influenciar uma decisão eminentemente técnica.
No entanto, a gritaria dos intelectuais, cronistas, cartunistas e todos os que têm espaço na mídia e emitem a opinião do povo no lugar deste, foi ensurdecedora. Cercada de todos os matizes de um falso levante popular, a mudança de nome da Petrobras foi atacada com todo o arsenal de frases prontas, desde a famigerada o petróleo é nosso até a velha denúncia de entreguismo ao modelo neoliberal americano. Não vi uma única discussão razoavelmente séria sobre os argumentos técnicos que levaram um grupo de executivos com experiência no mercado internacional a tomar tal decisão.
É claro que fica difícil fazer uma argumentação séria quando o presidente da estatal brasileira encarregado de dar a notícia chama-se Henri Phillipe Reichstul. Só o seu nome já é um argumento contra qualquer coisa que envolva brasilidades. Além disso, se as justificativas para a mudança se resumiam às frases capengas que proferiu o senhor Reixxtul, ele merecia mais do que a reprimenda pública que acabou recebendo de FHC. Talvez umas férias forçadas numa estação marítima de extração de petróleo fizesse com que ele criasse mais sensibilidade. Mas mesmo que houvessem argumentos sólidos e consistentes, nossos intelectuais de botequim estão pouco se lixando para justificativas técnicas. O que eles querem são grandes comoções sentimentais.
Tudo isso teria pouca conseqüência além dos R$ 700 mil jogados fora na criação da nova marca e alguns milhões de dólares perdidos em negócios futuros caso a mudança fosse realmente necessária do ponto de vista de estratégia de marketing.
O que realmente importa é a constatação do reacionarismo de boa parte de nossa mídia opiniática, e o poder dessa minoria barulhenta. Diante de mudanças que atinjam nossos ícones nacionais, sejam eles importantes ou insignificantes como a marca de uma empresa de petróleo, eles reagem com fúria avassaladora e com rara coordenação. Usam argumentos semelhantes, e nenhum deles sequer arranha a racionalidade econômica ou mercadológica.
Não sei se a mudança de nome da Petrobras seria uma idéia boa ou ruim para o seu desempenho futuro e para aquilo que realmente interessa: melhores serviços e preços mais competitivos. Mas sei que existe uma confraria que também não tem a menor idéia dessas coisas, mas possui o poder de destruí-las.
(*) (O autor, Kleber Boelter, é escritor, graduado em engenharia, com pós-graduação em marketing e especialização em filosofia, economia e finanças)