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Secretária diz que Saúde é desafio

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Responsável pelo gerenciamento de um orçamento de R$ 23 milhões, Eliane prepara cidade para a gestão plena

A secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, 49 anos, gosta de desafios. Antes de assumir o comando da pasta, como médica que é, tinha pleno conhecimento do que iria encontrar pela frente. Sabia das dificuldades e do modelo de saúde falido que iria herdar. E mais: tinha conhecimento de que seria cobrada diariamente pela população e pela imprensa, já que a Secretaria de Saúde é uma vidraça de alvo fácil.

Gaúcha de Pelotas, Eliane diz que não gosta de ser uma mera espectadora das coisas que acontecem a seu redor. Venho de uma família politizada. A vida inteira eu ouvi que melhor faz quem critica. A omissão é considerada, na minha casa, um pecado capital. Desde pequena, eu ouvia do meu pai: se não está bom, entra e tenta mudar, conta.

E foi com essa filosofia que ela assumiu a Secretaria de Saúde. Sem condições de oferecer um atendimento de qualidade à população, Eliane trabalha para promover, ainda neste ano, a municipalização total do sistema de saúde. A implantação da gestão plena já está definida. Como nós vamos para ela é que está em discussão, completa.

Antes de bater o martelo e abrir o sinal verde para a municipalização, a secretária explica que precisa ajeitar a rede. Temos que terminar de ajeitar certas coisas na própria rede. Se essa estrutura não estiver bem montada, não acho prudente implantar a gestão plena. Se não ela vai ficar capenga. Temos que ter uma estrutura muito boa de urgência e emergência. Depois, poderemos partir para a plena com negociações.

E quando a discussão do Município com o Estado entra no quesito verbas, o projeto emperra. Implantar a plena hoje do jeito que está Bauru, seria um risco muito grande. A Prefeitura teria que assumir um déficit de recursos que a gente sabe que está por volta de 25%, avalia. O teto de gastos estipulado pelo Governo para o Município hoje é de R$ 3,5 milhões mensais, mas na realidade para o atendimento mínimo seriam necessários pelo menos R$ 4,2 milhões que, provavelmente, também não seriam suficientes para as necessidades da atual demanda.

Não dá para implantar a plena sem negociar valores. Toda vez que sou pressionada a explicar por que não implantei a plena até hoje, digo que é porque não tenho uma resposta de quanto que será repassado para o Município. Eliane, no entanto, garante que a municipalização do setor será implantada ainda neste ano. A decisão não será só da secretaria. A gestão plena depende do aval do Conselho Municipal de Saúde, diz.

Cidade saudável

A qualidade e a eficácia no atendimento à saúde pública são objetivos que terão que ser perseguidos pelas Administrações municipais que virão pela frente. A secretária quer deixar implantadas na sua gestão as bases dessa política. Em viagem de estudos ao Canadá, ela encontrou naquele país o modelo ideal de prestação de serviços no setor.

Os canadenses se espelharam na Cuba de Fidel Castro para melhorar o seu sistema de saúde. Não se trata de um modelo que foi simplesmente importado e aplicado. Houve adequações e os resultados, segundo a secretária, foram bons. O modelo, que ganhou o nome de Cidade Saudável, está em pleno funcionamento.

Se depender de sua vontade, Bauru vai caminhar na busca do padrão canadense. Temos que mudar esse modelo assistencial em 180 graus. Primeiro, teremos que ter o envolvimento muito grande da comunidade nas decisões das políticas de saúde. Vamos ter que territorializar a cidade porque as realidades são diferentes.

O modelo exigirá o envolvimento de todas as secretarias municipais. A Secretaria de Obras terá que estar junto porque o asfalto é essencial; temos que trabalhar a rede de escolas, no sentido de conscientizar as crianças de noções básicas de higiene, de doenças previnidas. Tem que haver uma intersetorialidade, ou seja, todo mundo tem que trabalhar junto. É transporte, é emprego, assuntos que devem ser cuidados pela Sebes. Não tem como a Saúde resolver sozinha os problemas da cidade.

Na opinião de Eliane, esse modelo médico assistencialista tem que acabar. Esse é o modelo da doença. Nós temos trabalhado em conjunto, mas não no plano formal de planejamento estratégico. Nós estamos mais é apagando incêndios.

Medicina rural

A medicina está presente na vida da secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, desde a infância. Ela diz que sua mãe, Olenka, foi a grande inspiradora para seguir a carreira de médica. Até o seis anos de idade, ela morou na fazenda de arroz de propriedade de seu pai, em Pelotas, Rio Grande do Sul.

Naquela época, o atendimento médico na zona rural era feito com dificuldades. E era dona Olenka quem providenciava curativos e aplicava injeções. Se sou médica hoje, isso tem muito a ver com minha mãe, garante. Eliane é membro de uma família politizada. O avô já foi prefeito, o pai, secretário de Estado, e um de seus irmãos acumula três mandatos seguidos de deputado federal.

Embora tenha toda a família envolvida no meio político, a secretária não é filiada a nenhum partido e afirma que trabalha embasada em critérios técnicos. Ela é funcionária pública federal há 20 anos. Sua especialidade na medicina é a gastroenterologia.

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